PCC e CV: como surgiram facções agora consideradas terroristas pelos EUA
Comando Vermelho, considerado a maior facção criminosa do Rio de Janeiro, tem 54 anos de existência; Primeiro Comando da Capital foi fundado em 31 de agosto de 1993, na Casa de Custódia de Taubaté (conhecida como "Piranhão"), em São Paulo

O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou nesta quinta-feira (28) que classificou o Comando Vermelho e o PCC (Primeiro Comando da Capital) como "Terroristas Globais Especialmente Designados".
O comunicado também afirma que os EUA pretendem designar os dois grupos criminosos como Organizações Terroristas Estrangeiras a partir do dia 5 de junho.
O CV (Comando Vermelho), considerado a maior facção criminosa do Rio de Janeiro, tem 54 anos de existência e foi fundado com o objetivo de combater a tortura e maus tratos sofridos por dententos nas penitenciárias.
O PCC (Primeiro Comando da Capital) é a maior facção do São Paulo e do Brasil, presente em ao menos 28 países, segundo relatório do Ministério Público de São Paulo. Foi fundado em 31 de agosto de 1993, na Casa de Custódia de Taubaté (conhecida como "Piranhão"), em São Paulo.
Comando Vermelho
A facção foi criada dentro do Instituto Penal Cândido Mendes, em Ilha Grande, onde estavam presos comuns e presos políticos durante a Ditadura Militar. A convivência entre eles teria sido um dos motivos para a organização e o surgimento do CV.
Denominado inicialmente de "Falange Vermelha", o Comando Vermelho nasceu a partir de William da Silva Lima, criminoso conhecido como “Professor”. O homem, que ficou mais de 30 anos preso, entrou no presídio no ano de 1971. Ele foi condenado a quase 100 anos de prisão por crimes como assaltos a banco, extorsão e sequestro.
Na cadeia, "Professor" se portava como um representante dos outros presos e era o grande responsável por falar de forma oficial com as autoridades. Lima é o autor da obra "400x1: Uma história do Comando Vermelho”, na qual ele conta todos os detalhes sobre o surgimento da facção e sua atuação no crime.
"Caldeirão do Inferno" e avanço do CV
De acordo com ele, as condições precárias no Instituto Penal Cândido Mendes, também conhecido como "Caldeirão do Inferno" ou "Caldeirão do Diabo", fizeram com que os presos começassem a se organizar para acabar com a situação em que viviam.
Em 1979, os presos políticos foram soltos e os membros da "Falange Vermelha" passaram a se organizar de outras maneiras. Os dois principais pontos do grupo passaram a ser as fugas dos presídios e o investimento no tráfico de drogas, principalmente de cocaína.

No ano seguinte, ocorreram mais de 100 fugas, o que deixou o setor bancário em estado de choque, pois boa parte dos presos em Ilha Grande eram assaltantes de bancos. Além disso, entre os anos de 1983 e 1986, o CV expandiu sua atuação para fora dos presídios e começou a dominar bocas de fumo no Rio de Janeiro.
Em 1985, a facção já tomava conta de 70% de todos os pontos de venda de um mercado que gerava muito lucro. É nesse momento em que as guerras por territórios começam.
Atualmente, o Comando Vermelho é considerada a maior facção do Rio de Janeiro e a segunda maior do Brasil.
"Zona de guerra": entenda como fica o Rio de Janeiro após megaoperação
A facção tem características que denotam um esquema semelhante aos mafiosos, por conta do domínio da cadeia produtiva da maioria das atividades ilegais em que atua. O tráfico de drogas ainda é um dos principais ramos de atuação do grupo criminoso carioca.
Além disso, o CV expandiu a forma como garante os armamentos que são usados nas "guerras". Hoje, não faz somente o uso de armas importadas de outros países, mas também se vale da fabricação de um "arsenal bélico" no próprio Brasil.
Os principais nomes da facção são Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP (preso), Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar (preso), e Edgar Alves de Andrade, o "Doca" ou "Urso", que está foragido.

Primeiro Comando da Capital
O processo de expansão do PCC no interior do sistema carcerário teve início no ano de 1994, na Casa de Custódia de Taubaté. A influencia da facção começou a ser percebida no ano seguinte.
A facção foi criada por presos após o massacre do Carandiru, ocorrido em 1992, quando 111 detentos foram mortos durante ação da Polícia Militar no Complexo do Carandiru, na capital paulista. O grupo dizia inicialmente defender união entre presos e melhores condições no sistema penitenciário.

Nos primeiros anos, o PCC atuava principalmente dentro dos presídios paulistas, organizando rebeliões, impondo regras internas e ampliando influência entre detentos. Com o passar do tempo, a organização passou a expandir suas atividades para fora das cadeias, entrando em crimes como tráfico de drogas, roubos, lavagem de dinheiro e fraudes.
A facção ganhou notoriedade nacional em 2001, após coordenar uma série de rebeliões simultâneas em presídios de São Paulo. Em 2006, voltou ao centro das atenções ao promover ataques contra policiais, ônibus, delegacias e prédios públicos no estado, em uma das maiores crises de segurança pública da história paulista.
Expansão da facção
Atualmente, o PCC é apontado por autoridades como a maior facção criminosa do Brasil, com atuação em diversos estados e ligação com rotas internacionais de tráfico de drogas, especialmente em países da América do Sul, como Paraguai e Bolívia.
A principal liderança histórica da facção é Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, preso desde os anos 1990 e atualmente custodiado em presídio federal. Mesmo detido, ele ainda é apontado pelas autoridades como uma das figuras centrais da organização.

Segundo investigações do Ministério Público e das polícias estaduais e federais, o grupo também atua na lavagem de dinheiro por meio de empresas, contas bancárias, fintechs, postos de combustíveis, transportadoras e outros negócios usados para movimentar recursos ilícitos.
Para Lincoln Gakiya, promotor do MPSP (Ministério Público de São Paulo) em entrevista à CNN Brasil, o PCC atua agora com uma "nova face".

