Busca por adoção cresce, mas processos enfrentam lentidão na pandemia

Números entre janeiro e agosto mostram que menos menores estão ganhando uma família

Por Anne Barbosa e Paula Forster

Da CNN

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“Nunca ia imaginar que ele ia estar ao lado da minha casa”. A frase é da analista de sistemas Milene Rodrigues, de 38 anos, que, em fevereiro deste ano, recebeu a ligação que tanto esperava: chegou sua vez na fila de adoção, depois de três anos de espera.

O processo de aproximação com Miguel, de apenas três meses, foi já no início de julho, e ele foi para casa no fim do mesmo mês.

O que Milene não imaginava é que Miguel já estava bem pertinho. “[No cadastro] a gente só coloca o Estado, que era São Paulo. Então foi uma surpresa, em plena pandemia, saber que o lar de acolhimento ficava a cinco minutos de casa”, disse.

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Número de crianças e adolescentes adotados é menor em 2020 (04.out.2020)
Foto: Reprodução/CNN

Com os Fóruns fechados, em todo o país, devido à pandemia do novo coronavírus, nem todos os processos de adoção tiveram o mesmo sucesso. Isso porque não são todos os estados que contam com estrutura para dar prosseguimento por meio de recursos digitais.

De acordo com dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), embora o número de processos iniciados tenha crescido, o total dos finalizados registrou queda em comparação ao mesmo período de 2019.

O número de adoções de crianças e adolescentes no Brasil caiu 41% entre janeiro e agosto deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado. Em 2019, foram 1.974 processos de adoções concluídos. Neste ano, foram 1.160.

Já no estado de São Paulo, números do Tribunal de Justiça (TJSP), mostram que, neste mesmo período, a queda foi de pouco mais de 35%, sendo que o mês de maio foi o que registrou o maior recuo: 62% de redução. Em maio de 2019, foram 229 processos concluídos. No mesmo mês deste ano, apenas 87.

Segundo o titular da Vara da Infância e da Juventude de Guarulhos, na Grande São Paulo, Dr. Iberê de Castro Dias, já havia um acompanhamento do que estava acontecendo na Europa e nos Estados Unidos, em relação ao novo coronavírus, no fim de fevereiro e começo de março.

Por isso, alguns processos foram acelerados. “Isso reduziu os prejuízos, mas jamais seria suficiente. Até porque, fazer o processo com calma é essencial. É preciso ter celeridade com responsabilidade”, explica.

Em meio à pandemia, o TJSP conseguiu dar andamento a vários dos processos de adoção por meio dos recursos digitais. Eram cerca de 35 mil pessoas trabalhando no regime home office no estado todo. De acordo com Dr. Iberê Dias, houve casos em que a aproximação entre a criança e a família adotiva aconteceu de forma virtual do começo ao fim, mas em outros casos isso não foi possível.

“Psicólogos e assistentes sociais podem recomendar a presença das partes, para observar postural corporal, a forma de interação, por exemplo.”, explica.

Karla Medeiros, ferroviária, moradora de Pirituba, também recebeu uma boa notícia durante a pandemia. Foram quase quatro anos na fila de espera e, no início de fevereiro deste ano, véspera de Carnaval, viu a filha pela primeira vez. “É indescritível o que a gente sente neste momento”, comenta.

Entre o processo de aproximação e a guarda para fins de adoção foi tudo muito rápido. “No dia 18 de março, trouxemos nossa filha para casa. Já estávamos na pandemia e, por questões de segurança, alguns processos foram acelerados, já que nos abrigos há uma rotatividade muito grande”, explica. A partir daí, todo o acompanhamento no Fórum foi realizada de forma remota.

Número de crianças e adolescentes adotados é menor em 2020 (04.out.2020)
Foto: Reprodução/CNN

Sobre os atrasos

O prejuízo de alguns atrasos vai acabar sendo diluído no futuro. Segundo Iberê, as adoções vão acontecer no último trimestre deste ano e ao longo de 2021. No entanto, houve um prejuízo maior para as crianças entre nove e dez anos: “As crianças com menos de nove anos não têm dificuldade de encontrar família. Ainda que algumas famílias tenham desistido durante a pandemia, fatalmente vai haver mais pessoas querendo adotar do que crianças para serem adotadas. O mesmo não acontece para crianças com mais de dez anos”, afirma.

De acordo com o CNJ, 5.180 crianças e adolescentes esperam por uma família. Em contrapartida, o país tem mais de 36 mil pretendentes para adoção. O problema do abismo entre os dois números é muitas vezes relacionado ao perfil que a família escolhe. “As famílias têm preferência por crianças mais jovens e as pessoas não se disponibilizam a adorar um garoto de 15 anos, por exemplo. Mas não temos só crianças pequenas no acolhimento”, disse a assistente social Ana Rita Nascimento.

Número de crianças e adolescentes adotados é menor em 2020 (04.out.2020)
Foto: Reprodução/CNN

Apadrinhamento

Para aqueles que continuam nos abrigos, a alternativa afetiva é o apadrinhamento. Katiane Ferreira Miranda, gerente de marketing, decidiu, junto ao marido, apadrinhar o Raphael, de 12 anos, em julho deste ano.

“Depois de certa idade, a criança não pode mais ser acolhida pelo lar. Então fica sem respaldo. Eu achei fundamental ter esse apadrinhamento para poder conduzir a vida dessa criança depois, quando chegar na vida adulta”, afirma.

Antes da pandemia, as crianças saíam dos abrigos para passar o fim de semana ou feriados com os padrinhos. Agora, o contato tem sido por chamadas de vídeos. Algumas das crianças que já tinham padrinhos antes do isolamento social também puderam ficar na casa da família, para impedir os deslocamentos.

Número de crianças e adolescentes adotados é menor em 2020 (04.out.2020)
Foto: Reprodução/CNN

A fila de espera

Do outro lado, estão aqueles que seguem esperando sua vez na fila de adoção. Caso da Renata Rodrigues Esperança, na fila há cinco anos. Enquanto esperava, veio a filha de sangue, Maria Alice. “Ficamos muito gratos e continuamos na fila, porque ela quer um irmão e a gente quer uma família maior”, disse.

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