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    Cabo Anselmo, ex-agente infiltrado da ditadura militar, morre aos 81 anos

    José Anselmo dos Santos chegou a fazer treinamento de guerrilha em Cuba, voltou ao Brasil, passou a colaborar com membros do regime militar e foi denunciado por militantes

    Cabo Anselmo morreu aos 81 anos nesta terça-feira (15)
    Cabo Anselmo morreu aos 81 anos nesta terça-feira (15) Roda Viva/TV Cultura

    Carolina FigueiredoRafaela Larada CNN

    em São Paulo

    José Anselmo dos Santos, também conhecido como cabo Anselmo, morreu nesta terça-feira (15) na cidade de Jundiaí, no interior de São Paulo. Nos anos 1960, ele foi apontado como agente duplo durante a ditadura militar.

    Em nota enviada à CNN, o hospital de Caridade de São Vicente de Paulo confirma a morte. Cabo Anselmo nasceu em Sergipe em 13 de fevereiro de 1941. Ele se mudou com a mãe para o Rio de Janeiro ainda criança e passou a frequentar programas de rádio, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Em 1958, alistou-se à Marinha do Brasil e filiou-se à Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFNB) em março de 1962.

    Cabo Anselmo atuou como diretor de relações públicas da entidade na chapa encabeçada por João Barbosa. Estudante de direito, ainda em dezembro do mesmo ano chegou à presidência da AMFNB, apoiado pela ala mais radical da entidade, que havia destituído o presidente João Barbosa.

    Em 30 de março de 1964, Anselmo esteve ao lado do presidente João Goulart durante seu último pronunciamento como presidente da República, num ato promovido pela Associação de Subtenentes e Sargentos da Polícia Militar, no Automóvel Clube do Rio de Janeiro.

    No dia seguinte o governo João Goulart foi derrubado pelos militares.

    Treinamento militar em Cuba e acusação de ‘policial infiltrado’

    Como representante do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR) chegou a Havana, capital de Cuba em agosto de 1967 para participar da I Conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), que lançou as bases para a deflagração da guerrilha na América Latina.

    Nessa conferência, cabo Anselmo defendeu a luta armada como forma superior de luta contra os regimes opressivos e condenou a União Soviética por não haver rompido relações diplomáticas com o novo regime brasileiro.

    Com a desativação do MNR, ele se aproximou de Aluísio Palhano, líder sindical dos bancários cariocas, e a outros ex-marinheiros, formando o primeiro núcleo de treinamento de guerrilha da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização que participou.

    Ele retornou ao Brasil em 1970 e trabalhou no comando regional da VPR.

    Após uma sucessão de prisões e mortes de militantes, começaram a surgir suspeitas de que o cabo Anselmo fosse, na verdade, um agente policial infiltrado.

    Além disso, segundo depoimentos de alguns presos políticos na época, Anselmo fora visto detido em instalações de órgãos de segurança em São Paulo em junho de 1971, o que não explicava sua liberdade dias depois.

    Cabo Anselmo, no entanto, nunca admitiu a prisão e, ao chegar ao Chile em outubro de 1971 para encontrar-se com o comando geral da VPR, também negou ter sido preso.

    Em janeiro do ano seguinte, Anselmo voltou a ser acusado de ser agente policial – pela Ação Libertadora Nacional (ALN), que o responsabilizava pela prisão de dois membros de sua direção, depois de um encontro com ele.

    Em setembro de 1972, cabo Anselmo passa a ser visto como um “policial infiltrado” após a apresentação de um relatório das testemunhas de sua prisão pelo dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Diógenes Arruda Câmara.

    Anselmo viveu recluso e deu poucas entrevistas após os fatos relatados durante a década de 60 e 70.

    Em 2006, ele entrou com um pedido de indenização no Ministério da Justiça alegando que foi expulso da Marinha e que teve os direitos políticos cassados. Em outra ação, pediu ainda reintegração aos quadros da Marinha.