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    Carnaval: a festa da diversidade

    Maior festa popular do país sofreu influências da cultura africana e hoje é espaço de acolhimento e inclusão para comunidade LGBTQIAP+

    Bloco Agrada Gregos
    Bloco Agrada Gregos Divulgação

    Letícia Vidicada CNN

    em São Paulo

    Foi dada a largada para o maior espetáculo do planeta: o carnaval.

    Conhecido também como a maior festa popular brasileira, o carnaval se transformou num dos espaços importantes de diversidade e inclusão a partir da ressignificação que sofreu ao longo das décadas.

    “O carnaval não é uma festa brasileira, tem origem europeia. Mas foi ressignificada no Brasil com a influência dos povos da diáspora africana e dos povos originários”, explica Tadeu Kaçula, sambista, sociólogo e escritor.

    Essa transformação fez com que o carnaval, além de uma festa, seja hoje um espaço importante de diversidade e de sociabilidade política e econômica.

    “É um dos poucos espaços democráticos que a gente consegue ver a diversidade. É um espaço de acolhimento e de sociabilidade. É um dos poucos momentos, num país tão tenso, relacionado a classe, raça e gênero que essas questões vão se apaziguando e se torna um espaço de acolhimento e que, torna de fato, nossa sociedade muito mais plural, mais acolhedora e igualitária”, reforça o sociólogo.

     

    “Na rua todo mundo é igual e você conhece as pessoas, não as categorias”

    E esse movimento de diversidade e inclusão no carnaval brasileiro está presente e pode ser visto nas mais diversas manifestações carnavalescas pelo país, como nos desfiles dos blocos de rua.

    “Na rua todo mundo é igual e você conhece as pessoas, não as categorias. Humanizar cada pessoa e não reduzi-la a sua sexualidade, cor, raça… Neste momento, as barreiras diminuem e o sonho é que num próximo contato, quando você estiver exposto às diferenças, você se lembre daquela pessoa legal que conheceu, do amigo que fez e que isso alimente a tolerância. Que ganhemos aliados”, reforça Nathalia Takenobu, produtora e DJ do bloco Agrada Gregos, o maior bloco LGBTQIAP+ do Brasil que desfila pelas ruas do carnaval paulistano.

    Foto: Divulgação/Agrada Gregos

    “A proposta do Agrada era justamente agradar quem achava que não gostava de carnaval. Mas todo mundo gosta porque carnaval é uma festa popular que toma as ruas. E a rua é nossa”, explica a produtora.

    Com expectativa de reunir neste ano 1 milhão de foliões no Ibirapuera na zona sul de São Paulo no sábado (18), o Agrada Gregos quer retomar a força de ocupar as ruas com perfil diverso.

    “Antes, a maioria era LGBTI+ mas acabou criando também um espaço muito acolhedor para mulheres, que queriam dançar sem serem assediadas. Desde o começo, temos muitas famílias – o que me deixa muito feliz. Imagino que eles vejam o Agrada como um ambiente acolhedor e seguro”, diz a DJ do bloco, que neste ano terá a cantora Gretchen e Aretuza Lovi como principais atrações para o carnaval de 2023.

    “No início do bloco sempre fazemos uma fala sobre ser um bloco LGBTI+, aberto para todos, desde que as diferenças sejam respeitadas. Acredito que o carnaval é o momento onde até o mais extremista está com a guarda mais baixa”, reforça Nathalia Takenobu.

    Escolas de samba: espaços de luta, resistência e pertencimento

    A inclusão da comunidade LGBTQIAP+, hoje fortemente reforçada por alguns blocos de rua também, está presente há mais tempo no carnaval.

    “Sempre houve a inclusão da população LGBTQIAP+. Ela sempre esteve presente e respeitada. Num momento onde não era “aceitável”, eles já se sentiam e se sentem acolhidos e acolhidas nos espaços das escolas de samba. A escola de samba é uma escola de vida que faz com que a sociedade repense como é importante trabalhar com a perspectiva do respeito”, explica o sociólogo Tadeu Kaçula.

    As escolas de samba, inclusive, têm a sua origem na criação de espaços de luta e resistência. Espaços de sociabilidade da população preta, criada no pós-abolição.

    “Disso, surgiram os cordões, os primeiros folguedos pelo país. Essas dimensões sagradas de resistência negra e os grupos carnavalescos foram criados como espaço de preservação, de resistência, de sociabilidade onde essas famílias se encontravam e se aquilombavam para manter a sua cultura, história e origens”, conta Kaçula.

    “Era onde os nossos mais velhos – os nossos ‘griôs’ usavam como importante espaço político e através do samba contavam a verdadeira história do Brasil, a história negada”, complementa o sociólogo.

    Segundo Tadeu Kaçula, o carnaval foi ressignificado, mas ainda hoje é um espaço de resistência e muitas escolas de samba tem retomado algumas narrativas de pertencimento e recuperando parte importante e significativa do papel social e político das escolas de samba.

    Em São Paulo, por exemplo, algumas escolas trarão o tema racial como enredo no carnaval deste ano.

    É o caso da Sociedade Rosas de Ouro que vai falar sobre o histórico de lutas e resistência do povo negro no enredo ‘Kindala! Que o amanhã não seja só um ontem com um novo nome’.

    A escola vai exaltar a luta, a força e as conquistas do povo negro através dos tempos, desde seus ancestrais escravizados até os dias atuais, chamando atenção para a igualdade e o respeito.

    “Nos últimos anos, vimos um aumento considerável na divulgação dos casos de racismo em todo mundo. Aliado a isso, tivemos uma tentativa de apagamento de figuras históricas do movimento negro e a contestação de políticas raciais por parte do nosso último governo federal. Isso nos motivou a botar o dedo na ferida e levar esse enredo para a pista”, conta a presidente da escola, Angelina Basílio.

    Apesar de não poder adiantar muitos detalhes do desfile, a escola promete que colocará o dedo na ferida, e mostrará não só o lado cruel da história, mas sim, as grandes conquistas do povo negro ao longo dos tempos, sua imponência, seu legado e sua ancestralidade.

    Foto: Divulgação/Rosas de Ouro

    Para a escola, trazer a diversidade para o centro do discurso é muito importante já que, segundo a Rosas de Ouro, o carnaval é o lugar onde as pessoas podem ser o que elas querem, livres de preconceitos ou taxações da sociedade. Isso é fundamental para a própria existência da festa.

    “A palavra resistência é que melhor nos define nos dias de hoje, pois lutamos para seguir levando ao mundo essa arte criada por negros e que acolhe todas as pessoas. Os bastidores de uma escola de samba, por exemplo, é um ambiente de diversidade e pluralidade, já que damos espaço e oportunidade para todos nos mais diferentes setores da escola. É um local de acolhimento para muitas pessoas que não conseguem, por exemplo, se realocar no mercado de trabalho”, explica a presidente.

    Outra escola paulistana que também vai cantar a diversidade é a Império de Casa Verde que falará sobre ancestralidade, identidade cultural e construção através dos batuques com o enredo “Império dos Tambores – Um Brasil Afromusical”.

    A escola da zona norte paulistana trata sobre influência dos batuques e tambores africanos na religião, tradição, cultura e musicalidade trazidos da África para o Brasil.

    “Há quase 20 anos, o Império não tinha uma temática afro. Optamos por algo que fugisse do lugar comum – da religião, do sofrimento da escravidão e optamos por algo mais musical. Juntamos todos os ritmos que vieram da África e aportaram no Brasil. Afinal, a conexão africana está sempre presente na música brasileira. Nos ritmos hoje mais modernos, como funk, charme. São ritmos da periferia, majoritariamente negra”, explica Rogério Figueira, Diretor de Carnaval da escola.

    “Nosso enredo retrata um pouco da identidade de todo povo brasileiro. Negros ou não negros, temos algo da cultura negra em nossa identidade. Mesmo em cenários onde o negro não está presente, a cultura negra está. É o resgate da identidade brasileira”.

    Foto: Divulgação

    Diversidade, inclusão e espaços de acolhimento estão presentes também em outros espaços importantes da folia, como nos camarotes.

    Estreando no carnaval paulistano, o camarote Avenida trará a diversidade e inclusão para os foliões dentro da estrutura montada no sambódromo do Anhembi.

    “Criamos um espaço onde todos serão bem-vindos. Aqui, não teremos distinção de cor, raça, credo etc. No Avenida, o importante é ser feliz! O carnaval é expressão popular. É o sinônimo de resistência e pertencimento. Prezamos muito esses dois tópicos na formatação do espaço e seremos o único camarote de iniciativa privada, no Brasil, a contar com uma intérprete em libras”, conta Matheus Oliveira – Sócio Diretor do Camarote.

    O Avenida terá também uma Musa LGBTQIAP+, Camila Prins, a primeira Rainha de Bateria Trans de São Paulo, assim como duas apresentadoras mulheres trans, Juju Bonita e Lisa Gomes.

    “Essa foi uma preocupação que tivemos desde o início. Pensamos num formato de abrangência onde todos pudessem ter a oportunidade de curtir a festa com conforto e segurança. Em razão disso, preparamos todo espaço para receber o nosso público com itens de acessibilidade de maneira que não fosse uma obrigação e sim uma satisfação.”, detalha Oliveira.

    Foto: Divulgação

    Apesar do aumento da diversidade presente nas manifestações carnavalescas pelo Brasil, o sociólogo Tadeu Kaçula analisa isso com cautela. Ele reconhece a importância de ser mais diverso mas alerta para um branqueamento significativo do carnaval.

    “Isso impacta na estrutura do carnaval também. Passa a ser um espaço onde a gente não está contando nossa história pela nossa voz. Um lugar onde as nossas narrativas acabam sendo branqueadas. As vozes brancas estão falando por nós”.

    Movimento que ele observa no eixo do carnaval Sul e Sudeste mas que também está presente no Norte e Nordeste.

    “Existe um processo de ampliar uma diversidade étnica. Isso é importante levar em consideração, mas analiso que temos algumas perdas de narrativas, de corpos pretos e de protagonismo preto. No carnaval da Bahia, por exemplo, no circuito Barra- Ondina, a população preta não está presente. Existe um outro trajeto criado para os negros”.

    Kaçula destaca também a importância de se incluir a população preta na cadeia produtiva do carnaval que gera bilhões, onde a população negra infelizmente não é a gestora desse dinheiro e que impacta no processo étnico racial.

    Pedir a “bença” para continuar o legado

    Na cadeia produtiva do carnaval e da representatividade pela música, novos nomes surgem para dar continuidade ao legado importante de resistência. É o caso da banda Filhos da Bahia, que estreia neste ano no carnaval de Salvador.

    Formada pelos músicos, Migga, João, Raysson e Zaia que, juntos, carregam uma peculiaridade e uma ancestralidade musical importante. Eles são filhos de quatro grandes nomes do axé music e da música brasileira: Carlinhos Brown, Saulo Fernandes, Tonho Matéria e Reinaldinho Terra Samba.

    “A ideia do projeto é de resgate do axé e de continuar o legado. Tinha uma vontade nossa de pedir a bença, pedir licença aos mais velhos. Pedir autorização para continuar esse legado dessa história construída por eles, nossos pais, nossos tios… grandes nomes que estão no axé music há muito tempo”, explica Zaia – líder da banda.

    A banda, que já tem mais de 30 faixas gravadas, se inspira na fonte do axé music que sempre foi um importante movimento musical e de resistência. “O axé tem uma questão e valor social absurdo.

    A maioria dos artistas que se destacaram são negros ou tem influência da cultura afro-brasileira. Muitos vem de lugares humildes e o axé mudou e transformou a vida de muitas pessoas, de muitos negros.”, conta Zaia.

    “A gente tem esse lugar social. O Olodum, por exemplo, tirou da rua muitas pessoas, resgatou vidas, construiu personalidades, caráteres, levou pro mundo… Carlinhos Brown, por exemplo, que veio do nada e construiu um império gigantesco”.

    Ansiosos para tocar num dos maiores carnavais do país, Os Filhos da Bahia sabem da importância da representatividade desta festa e da diversidade presente em seu trabalho.

    “A gente vê o carnaval como um grande grito, um grande acontecimento. Como uma resposta de tudo isso que o axé representa. É um grito de independência, onde a gente se reafirma independente da nossa dificuldade. Independente da questão racial, social”, reforça o líder da banda.

    Um grito e uma alegria que devem tomar as ruas de todo país nos próximos dias, depois de dois anos sem a folia mais esperada do ano, que é o carnaval.

    “É uma alegria enorme poder voltar a fazer Carnaval gratuito na rua depois de tanto tempo, estamos sentindo falta da energia única e conexão com a cidade”, diz Nathalia Takenobu, produtora e DJ do bloco Agrada Gregos.