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    Diversidade na literatura ganha espaço na Bienal em meio a alta do faturamento do mercado literário

    "Há um movimento cada vez maior dos leitores e da comunidade editorial de se preocuparem com a diversidade”, diz BookSter, advogado, influenciador e palestrante do evento

    Movimentação do público na 26ª Bienal do Livro em São Paulo na tarde de quinta (7) no Expo Center Norte
    Movimentação do público na 26ª Bienal do Livro em São Paulo na tarde de quinta (7) no Expo Center Norte Yuri Murakami/Fotoarena/Estadão Conteúdo

    Carol Raciunasda CNN

    Em São Paulo

    Pela primeira vez desde o começo da pandemia, a Bienal Internacional do Livro de São Paulo está de volta, em formato presencial, até 10 de julho, dando luz a debates sobre inclusão. Com palestras que abordam a representatividade de pessoas com deficiência, negras, indígenas e da comunidade LGBTQIA+, o evento contribui para alavancar o mercado literário que teve resultados positivos no primeiro semestre do ano.

    Segundo Dante Cid, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), o evento acontece em meio à tendência de alta do interesse pela leitura: “Com a pandemia, as pessoas voltaram a ter o hábito de ler como opção de lazer e agora isso está se transformando em uma presença maciça nas feiras literárias.” De acordo com o Painel do Varejo de Livros no Brasil, produzido pela Nielsen BookScan e divulgado pelo SNEL, de janeiro a maio deste ano houve um aumento de 12,35% no faturamento do mercado editorial quando em comparação com o mesmo período de 2021.

    O momento positivo para o setor abre espaço para autores e leitores plurais. Para Samuel Gomes, autor do livro “Guardei no armário” e palestrante que estará na Bienal para falar sobre representatividade LGBTQIA+, essa é uma oportunidade para gerar mudanças estruturais. “A retomada dos eventos presenciais com esse olhar mais voltado para a diversidade, enaltecendo autores fora do padrão, é revolucionária. Então é importante ter isso também na Bienal de São Paulo como foco, não só como uma onda, mas como a construção da sociedade que a gente quer.”

    Essa luta pela sociedade ideal enfrenta grandes desigualdades há muito tempo. Um grupo de estudos de literatura contemporânea da Universidade de Brasília (UnB) analisou 258 romances publicados por três grandes editoras, entre os anos de 1990 e 2004. A partir disso, foi possível concluir que 93,9% dos autores publicados eram brancos. Para Samuel, que compõe a menor porcentagem, enquanto um escritor negro, a própria literatura pode ser uma forma de mudar o mercado editorial. “O livro auxilia negros e não negros a entender como é que funciona o racismo estrutural dentro da vivência das pessoas.

    Samuel Gomes, autor do livro “Guardei no armário” / Arquivo pessoal

    Mas essa mudança contra o preconceito não deve estar só nas estantes, ela também precisa partir dos leitores. O advogado e influenciador literário Pedro Pacífico, conhecido nas redes sociais como BookSter, diariamente produz conteúdo para influenciar seus seguidores a estabelecer hábitos de leitura consciente.

    O bom leitor não é aquele que só lê muitos livros. Para mim, o papel do bom leitor começa antes mesmo da leitura, que é na hora de escolher o livro, pensando se ele escolhe ou não com a ideia de representatividade.

    Pedro Pacífico, advogado e influenciador literário, conhecido como Bookster

    Essa busca pela inclusão através da literatura pode ser uma forma de se libertar dos próprios preconceitos e se entender na sociedade ao compreender que, assim como os personagens, as pessoas podem ser diferentes. “Acho que se não fossem os livros, talvez hoje eu ainda estivesse dentro do armário e sofrendo com quem eu realmente sou”, afirma BookSter, que se assumiu gay nas redes sociais em meados de 2021.

    Pedro Pacífico, advogado e influenciador literário, conhecido como Bookster / Arquivo pessoal

    Mudanças como essa, que muitas vezes acontecem de dentro para fora das pessoas, podem ter um alcance ainda maior. O autor do best-seller “Ideias para adiar o fim do mundo”, Ailton Krenak, dá visibilidade às causas indígenas e ambientais mundo a fora. Só este livro já foi traduzido em 11 idiomas e contará com mais um em dezembro. “Quando alguém me lê no Japão, na Holanda ou na Noruega, eles não estão lendo representatividade, eu acho que eles estão entrando em contato com outras visões de mundo, com literaturas plurais. Eu me interesso mais pela pluralidade das narrativas do que propriamente com a ideia da representatividade“, comenta Krenak.

    Também abordando esses temas em suas participações na Bienal do Livro de São Paulo, o autor lembra que “a diversidade é boa, porque ela é um espelho plural“.

    Não é só o Narciso que se enxerga no espelho. Além do Narciso, outras pessoas também invisíveis podem se imaginar como personagens ou simpatizantes de alguma história. É nesse lugar que eu acho que se encontram essas diversidades de gênero, raça e experiências singulares

    Ailton Krenak, escritor
    Ailton Krenak / Arquivo pessoal