Em São Paulo, Vila Madalena vê mudanças e boemia luta para resistir

Placas de "aluga-se" começaram a se espalhar no bairro desde o ano passado, com o fechamento de vários bares e restaurantes

Transeuntes no bairro da Vila Madalena, em São Paulo
Transeuntes no bairro da Vila Madalena, em São Paulo Anderson Santos/Unsplash

Priscila Mengue, do Estadão Conteúdo

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É comum que uma pesquisa sobre um espaço novo aberto na Vila Madalena venha acompanhada de um “antigo” entre parênteses e a referência ao espaço que ocupava o ponto anteriormente. O bairro continua boêmio e com presença de arte urbana, mas vive uma mudança gradual no perfil dos comércios, dos moradores, dos frequentadores e até da paisagem, cada vez mais verticalizada.

Na pandemia, as alterações ficam mais evidentes. E voltaram a chamar a atenção este mês, com a notícia do possível fechamento da cinquentenária Mercearia São Pedro, conhecida por eventos culturais e ser ponto de encontro de intelectuais.

Placas de “aluga-se” começaram a se espalhar desde o ano passado, com o fechamento de bares e restaurantes que persistiam em meio às mudanças no entorno. Em questão de meses, começaram a dar lugar a novos espaços, especialmente gastronômicos, em parte ligados a nomes conhecidos, como a chef Bela Gil, os sorvetes Rochinha, a Jeronimo Burger (do Grupo Madero) e a chef Elisa Fernandes (primeira campeã do MasterChef Brasil).

Um exemplo é o antigo Armazém da Cidade, conhecido por eventos gastronômicos e culturais, atividades na rua e o mural de Tom Zé feito pelo artista Kobra. O endereço agora abriga o Caos Brasilis, inaugurado na última quarta-feira – um dos mais de dez restaurantes e lanchonetes abertos na Vila na pandemia.

O espaço é comandado pelo chef paulistano Bruno Hoffmann, de 29 anos, conhecido também por ter participado da edição de 2020 do reality show Mestre do Sabor, da TV Globo. Desde o fim do ano passado, ele procurava um ponto para abrir seu primeiro restaurante na Vila Madalena após experiências em endereços do entorno.

“A Vila Madalena se encaixa perfeitamente no conceito do restaurante, que é agregador, tem uma coisa jovial, mas não ofensiva a quem é mais tradicional”, define. “Respira novidade, brasilidade, diversidade, onde todas as tribos circulam.”

No local da antiga hamburgueria Black Trunk, na rua Purpurina, hoje funciona a loja-conceito da rede americana Johnny Rockets. “Pensamos no Itaim-Bibi (zona sul), na Vila Madalena, nos bairros mais boêmios”, conta Renan Troccoli, sócio do espaço. A ideia é atrair “um público mais jovem, boêmio, de bar”. Uma das estratégias são os drinques inusitados e “instagramáveis”, como o inspirado em uma arte de Banksy e outro servido dentro de patins. Na parte interna, há um “Beco do Johnny”, com murais e inspirado no vizinho Beco do Batman.

Outra novidade é a adesão de três estabelecimentos da região ao programa Ruas SP, da Prefeitura – um na Girassol e três na Aspicuelta. Isso permite mesas nas calçadas e nas vagas de estacionamento de carros.

Sobreviventes

A descrição usada em rede social por um dos poucos bares dos anos 1980 que persistiu na região resume a mudança: “Foi reduto de intelectuais de esquerda e de cineastas (…). O público ficou mais eclético, recebendo universitários de todos os cantos da cidade, patricinhas e mauricinhos, atletas e neo-hippies e também quarentões e cinquentões saudosos de uma época em que o Empanadas Bar era só deles.”

No Martin Fierro, a sócia Ana Maria Massochi, de 70 anos, diz manter alguns clientes desde o início da trajetória do restaurante, aberto há mais de 40 anos. “O espírito da casa se mantém igual. Não é a mesma garagem, as cadeiras não são de lata, mas a proposta é a mesma.” O restaurante, especializado em empanadas e cortes de carne argentinos, se adaptou. Foi um dos primeiros do entorno a oferecer cafés expressos e a carta de vinhos foi ampliada. “Foi virando um point”, diz ela.

Outro espaço há mais tempo na região é o Ó do Borogodó, aberto há 20 anos. Na época, os sócios-proprietários frequentavam rodas de samba no entorno e a escolha de um endereço na Vila parecia natural. “A gente criou ali um ambiente como um fundo de quintal”, diz Stefânia Gola, sócia do espaço, que segue exclusivamente com atividades virtuais na pandemia e permanece com o aluguel em dia por conta de uma vaquinha aberta após o anúncio de um possível fechamento.

Não que as contas sejam motivo de despreocupação, ainda mais na região valorizada. “No pré-pandemia, já estava em momento complicado. O ‘Ó’ é uma espelunca, feito de outras matérias. A gente tinha aluguel barato (no início). Na medida em que a Vila foi crescendo, sofre com o aumento de aluguel.”

O espaço enfrenta resistência da vizinhança anualmente para o desfile do próprio bloco de carnaval, de pequeno porte. Mesmo assim, a intenção é ficar. “Ali carrega uma história, um jeito de viver uma cidade.

Ampliação

A transformação também é territorial. Espaços antes lidos como parte do Sumarezinho, da Vila Ida e de outros bairros do entorno hoje são identificados por Vila Madalena. “Era restrita a três ou quatro ruas”, diz Yvone Dias Avelino, professora de História da PUC-SP. “A cidade de São Paulo se tornou grande do ponto de vista do povoamento, e a Vila acompanhou isso. É uma cidade dentro da cidade.”

Ela resume a trajetória da Vila no último século em quatro fases: a dos imigrantes (principalmente portugueses), a religiosa (marcada pelas festividades católicas), a da chegada dos alunos da USP e artistas (especialmente nos anos 1970) e da fundação da Pérola Negra, e a atual. “Era uma boêmia mais comportada, que se misturava ao habitante da Vila. Hoje, tomou outra dimensão.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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