"Estão construindo prédios em cima de uma grande esponja", diz especialista
Região da comunidade Rio das Pedras, onde prédio desabou é composta por solos hidromórficos, que aumenta a chance de desabamentos, explica ambientalista
O tipo de solo da região da comunidade Rio das Pedras, na zona Oeste do Rio de Janeiro (RJ), rico em água e brejo, "é altamente plástico" e se torna "uma esponja" para edificações na região, sobretudo as irregulares, afirmou à CNN o biólogo e ambientalista Mário Moscatelli.
Um prédio desabou na comunidade Rio das Pedras na madrugada desta quinta-feira (3), deixando ao menos dois mortos.
Segundo Moscatelli, a região de Rio das Pedras é constituída por áreas inundáveis, por brejo e por solos hidromórficos, que são constituídos de água, tufa (material vegetal em decomposição), silte e argila. Construções realizadas na região devem seguir padrões específicos, caso contrário, ficam mais suscetíveis a desabarem.
"O que eu quero dizer é que as pessoas estão construindo em cima de uma grande esponja. E na medida que essa esponja é submetida a pressão de cima para baixo, você tem uma resposta, que são acomodações de edificações feitas sabe se lá com que técnica, que acabam acarretando desabamento, como esse que não é o primeiro e infelizmente não vai ser o último", afirmou.

Segundo ele, para poder construir em terreno desse tipo, é preciso primeiro colocar estacas a 15 metros de profundidade para buscar solo e areia para que as estruturas possam comportar construções acima. Ou ainda um volume de terra "monstruoso" para conseguir compactar esse solo hidromórfico.
"É um custo altíssimo e que infelizmente encontramos inúmeras situações como essa na região metropolitana do Rio, que é fruto da ausência de uma política de estado no que diz respeito às políticas habitacionais", afirmou.
Ocupação desordenada
Para Moscatelli, a ocupação urbana desordenada da cidade e da região metropolitana do Rio também contribuem para tragédias semelhantes à ocorrida em Rio das Pedras. O ambientalista afirma que o problema existe há mais de 100 anos nestas regiões sem soluções pontuais dos governos.
"Entra e sai governo e temos medidas pirotécnicas quando as tragédias acontecem, mas não há um trabalho permanente, uma política de estado voltada para política de habitação", disse ele.
“Infelizmente sobra dinheiro para Copa do Mundo e eventos megalomaníacos, mas a questão da política habitacional para classes econômicas menos favorecidas acontece depois das tragédias e por um prazo de tempo bem pequeno”, afirmou.
(Publicado por Camila Neumam)