Estudo: Fogo afetou mais de 90% das espécies de vertebrados e plantas da Amazônia

De acordo com o levantamento, desde 2001, entre 103 mil e 190 mil quilômetros quadrados de floresta foram atingidos pelas chamas

Incêndio em área da floresta amazônica perto de Porto Velho
Incêndio em área da floresta amazônica perto de Porto Velho 10/09/2019REUTERS/Bruno Kelly

Natan Novelli Tuda CNN

Em São Paulo

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Entre 93% e 95% das espécies de plantas e animais vertebrados da Amazônia sofreram impactos do fogo nas últimas duas décadas. É o que diz um estudo publicado nesta quarta-feira (1º) na Nature, uma das principais revistas científicas do mundo.

Assinam o trabalho pesquisadores da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, e brasileiros da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

A pesquisa cruzou dados de satélite de áreas da Amazônia atingidas por incêndios com as áreas de ocorrência de 11.514 espécies de plantas e 3.079 de animais vertebrados. Com isso, foi possível quantificar o impacto do fogo na biodiversidade da região.

Desde 2001, entre 103 mil e 190 mil quilômetros quadrados de floresta foram atingidos pelas chamas. Para algumas espécies, isso representou mais de 60% da área de ocorrência comprometida.

Espécies ameaçadas

O fogo é especialmente delicado a espécies listadas como ameaçadas pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), filiada à Unesco.

Segundo o estudo, 90% das espécies de plantas e animais vertebrados ameaçados da Amazônia (ou 472 de 520) tiveram a área de ocorrência impactada pelo fogo. A consequência direta é a redução da área de circulação dessas populações, que podem se tornar disfuncionais bem antes de perder a totalidade do habitat.

É uma realidade cumulativa ao longo dos anos que ainda pode ser pior do que os números mostram. Afinal, o conhecimento sobre a distribuição de biodiversidade na Amazônia ainda é limitado pela inacessibilidade da região, os dados de satélite tendem a subestimar os focos de incêndio e os vertebrados são parte bem reduzida do reino animal.

Dados de biodiversidade da Amazônia

  • 40% das florestas tropicais remanescentes no mundo estão na Amazônia
  • 10% de todas as espécies conhecidas no mundo estão na Amazônia
  • 1.000 espécies de árvore a cada km² de Floresta Amazônica

Os ciclos de incêndio na Amazônia

O estudo também constatou o resultado de políticas ambientais nos ciclos de fogo na Amazônia.

Até 2008, incêndios eram mais frequentes e impactavam áreas maiores. Entre 2009 e 2018, excetuando os anos de seca, políticas ajudaram a reduzir as taxas de incêndio. Em 2019, com o relaxamento de políticas, o impacto do fogo nos primeiros oito meses foi maior do que o esperado.

Os números só melhoraram nos últimos quatro meses do ano após pressão social e, então, esforço do governo para combater focos.

No início de 2020, o governo criou o Conselho da Amazônia e instalou operações das Forças Armadas para proteção do bioma. Mesmo assim, índices de desmatamento e incêndio seguiram batendo recordes.

Segundo o estudo, em 2019, o fogo chegou a regiões mais internas da Amazônia, onde não é costume. Se seguir esta tendência, o impacto ali pode ser maior, já que as áreas guardam um maior número de espécies.

O impacto do desmatamento

A Amazônia é caracterizada pelo clima úmido. Portanto, os incêndios naturais são raros. A maior parte dos incêndios é causada por ação humana, especialmente aquelas associadas ao desmatamento. A prática oferece mais material inflamável, afeta o ciclo de chuvas e abre novas frentes para o avanço do fogo.

Estimativas apontam que, com uma perda de 25% de cobertura vegetal, a Amazônia pode entrar em um processo de savanização. O termo se refere ao ponto em que a redução vegetal e alta da temperatura se tornaria inviável para uma floresta úmida. Hoje, 20% da cobertura vegetal da Amazônia já foi perdida.

Até o momento, a riqueza da biodiversidade ajudou a contornar os efeitos da crise climática no mundo. No entanto, desmatamento e incêndio associados podem aumentar a frequência, intensidade e extensão das secas na Amazônia. Com isso, a regeneração da floresta fica dificultada, e os ciclos futuros de destruição e impacto piores.

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