‘Fabricado’ em banheiros, álcool em gel clandestino tem até gel de cabelo

Amostras indicam que o produto não foi eficaz para matar bactérias e não seria útil contra o coronavírus

Pedro Durán e Matheus Caselato,

da CNN, em São Paulo

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Caixas de papelão com um tecido fino improvisado serviam de suporte para frascos e mais frascos de álcool em gel falsificado. Na região da 25 de Março, a reportagem da CNN encontrou quatro ambulantes vendendo o produto em diferentes apresentações. Recolhemos duas amostras do produto e enviamos para o laboratório da farmacêutica e bioquímica Eliane Delgado.

O teste revelou que o produto não era álcool em gel como os vendidos em farmácias e mercados. Ele continha uma mistura de gel cosmético com álcool de cozinha. A substância misturada também não foi capaz de matar as bactérias introduzidas na amostra e cultivadas por dias.

O produto foi coletado no dia 19 de março, véspera da quarentena na cidade de São Paulo. O comércio ainda estava aberto, e os ambulantes circulavam livremente nas ruas.

Resultado do teste

Para avaliar a eficácia dos produtos como o álcool em gel, que deveriam ter poder bactericida, o laboratório separa uma pequena quantidade da substância em vários frascos. Em cada um deles é injetada uma solução com um combinado de bactérias, como a Escherichia coli, encontrada em fezes de humanos e animais e causadora de problemas intestinais, como a diarreia.

A capacidade de matar as bactérias também vale para os vírus, como o coronavírus, mas eles não são manipulados nesse tipo de laboratório pelo risco que oferecem.

“Esse álcool não tem uma atividade bactericida, porque a função dele, um ‘gel higienizante’, que é como é vendido, ele tem que ter a função de matar essas bactérias. Existe um teste que nós fizemos, um teste de eficácia, para ver se esse produto funciona ou não”, explica Eliane.

Ela diz ainda que se esse produto não matou as bactérias, ele não vai matar o coronavírus. “Um gel cosmético semelhante a um gel de cabelo ou mesmo um gel para passar no corpo, com cheiro de álcool, um pouquinho de álcool, mas que não tem uma atividade bactericida”, diz.

Riscos para a saúde

Há três riscos principais no uso desse tipo de produto, segundo os especialistas:

– Não há controle sanitário: muitas vezes o produto não tem rótulo nem garantia de que funcione

– Pode oferecer risco para a pele: já que não segue padrões recomendados

– Há a chance de já chegar contaminado

Se você não tem acesso ao produto certificado, comprado em farmácias ou mercados, pode usar água e sabão para lavar as mãos e o corpo –o sabão tem a mesma capacidade do álcool de matar o vírus.

No caso da higienização de talheres, pratos e utensílios de plástico, por exemplo, a água fervente cumpre essa função.

Apreensões e prisões

Nos últimos dias, a Polícia Civil de São Paulo prendeu 37 pessoas vendendo ou produzindo álcool em gel falsificado em meio à pandemia. Foram apreendidos pelo menos 5 mil frascos com cerca de 60 litros do produto, e 40 litros de álcool puro, além de etiquetas, impressoras e barris.

Os presos podem responder por crime contra a saúde publica, falsificação, adulteração de produtos terapêuticos e crime contra a ordem tributária. 

“Ele fazia esse procedimento dentro da residência, com materiais totalmente enferrujados, ou seja, sem higienização. Gel de cabelo e etanol de posto, fazia a mistura e colocava à venda. Olha só: a água vinha do vaso [sanitário], e ele misturava com uma furadeira toda enferrujada”, disse o delegado Mário Palumbo, do Garra/Dope.

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