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    Familiares de vítimas do incêndio na Boate Kiss pretendem processar Netflix por série sobre a tragédia

    "Todo Dia a Mesma Noite" foi lançada na sexta-feira (27), quando o incêndio completou 10 anos; Grupo formado por cerca de 40 famílias se queixa da exploração comercial da tragédia

    Série Todo Dia a Mesma Noite, produção da Netflix lançada no aniversário de 10 anos da tragédia na Boate Kiss.
    Série Todo Dia a Mesma Noite, produção da Netflix lançada no aniversário de 10 anos da tragédia na Boate Kiss. Guilherme Leporace/Netflix

    Gustavo ZanferBeatriz CarneiroBeatriz Gabrieleda CNN

    Uma parte dos familiares de vítimas do incêndio na Boate Kiss, tragédia que completou 10 anos na sexta-feira (27), planeja processar a Netflix após o lançamento de “Todo Dia a Mesma Noite”, série que retrata o acontecimento.

    O incêndio na casa noturna matou 242 pessoas e deixou outras 636 feridas em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, em janeiro de 2013.

    Um grupo formado por cerca de 40 famílias contratou a advogada Juliane Muller Korbm para representá-las no caso contra a Netflix.

    À CNN, Juliane afirmou que as famílias se queixam da exploração comercial da tragédia pela plataforma de streaming, “que sequer teve a sensibilidade de informá-los que uma série dramática seria produzida”.

    No entanto, a associação de familiares de vítimas da tragédia discorda do processo, afirmou que estava ciente da produção e se sentiu representada pela série.

    “Todo Dia a Mesma Noite”, baseada no livro de mesmo nome da jornalista Daniela Arbex, mistura realidade com ficção. No trailer da série, os atores reproduzem a cena de vários corpos dispostos no chão de um ginásio para reconhecimento pelos familiares.

    “Muitos pais não tiveram estrutura para entrar no ginásio com todos aqueles corpos e reconhecer os filhos, muitos nunca tiveram estrutura até hoje para ver as imagens dos corpos e essa cena é passada no trailer da série”, disse a advogada.

    “O pedido para a Netflix é de algumas adequações de exposição, especialmente do trailer, e que a série não seja só explorada comercialmente. Precisamos tratar da responsabilidade social sobre a dor desses pais. A que custo uma plataforma de streaming pode lucrar em cima de uma tragédia como essa?”, afirmou.

    Antes da formalização de uma representação judicial, o grupo de familiares orientado pela advogada pretende dialogar com a Netflix.

    Cenas da série Todo Dia a Mesma Noite, sobre a tragédia da Boate Kiss. Guilherme Leporace/Netflix

    Ainda segundo a advogada, os familiares integrantes do grupo não solicitaram nenhum tipo de indenização à plataforma de streaming.

    Um outro grupo que forma a Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de SM (AVTSM) informou que não tem relação com o caso. Em nota, a Associação informou que estava ciente de que a produção estava sendo realizada com base nos personagens do livro “Todo dia a mesma noite: a história não contada da Boate Kiss”, de Daniela Arbex.

    Confira a íntegra da nota da AVTSM:

    “Perante a divulgação em inúmeros veículos da imprensa acerca de um processo contra a empresa Netflix em função da série “Todo o dia a mesma noite”, a Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da tragédia de Santa Maria esclarece através dessa nota que estávamos sim cientes que a produção estava sendo realizada com base nos personagens do livro “Todo dia a mesma noite: a história não contada da Boate Kiss”, de Daniela Arbex, e sente-se representada por ela bem como pelo livro da autora.

    A produção não retrata de forma individual os 242 jovens assassinados, mas sim um recorte das quatro famílias de pais que foram processados. Todos familiares de vítimas e sobreviventes retratados por personagens da obra estavam cientes e em concordância. Além disso, reiteramos que não estamos movendo nenhum processo contra as produções, nem pretendemos, por acreditarmos na potência das produções na luta por justiça e a luta por memória.

    Acreditamos, acima de tudo, que tragédias como a que vivenciamos precisam ser contadas através de todas as formas. Recontar essa história significa denunciar as inúmeras negligências e tentativas de silenciamento que encontramos pelo caminho, além de auxiliar na prevenção para que esse tipo de tragédia não aconteça com mais nenhuma família, algo que temos como propósito desde o 1º dia de nossa fundação.

    Mostrar o que aconteceu na Kiss faz com que a morte de nossos filhos e filhas, irmãos e irmãs, pais e mães, amigos e amigas não tenha sido em vão. Mostrar a morosidade, a burocracia e como é o sistema judiciário brasileiro serve como denúncia e como protesto. É preciso falar, debate, produzir materiais sobre o que aconteceu naquela trágica noite de 27 de janeiro de 2013, pois só assim conseguiremos que as pessoas entendam o que a ganância, a negligência e a omissão são capazes de fazer. Em Santa Maria, esses fatores mataram 242 jovens e deixaram 636 com marcas físicas e psicológicas.

    Entendemos que rever a tragédia, principalmente nos dois primeiros episódios pode mobilizar os sentimentos, as lembranças e dimensionar a impunidade em sua ferocidade, e, com isso, a associação se disponibiliza a acolher e a promover ações para comporem o movimento por justiça.

    Por fim, esclarecemos que desde o dia 27 de janeiro de 2013, nós sofremos com a perda irremediável de nossos filhos, irmãos e amigos, sabemos o quanto isso nos dói. Não há nenhum valor sendo pago a nós com a produção, e o que ganhamos é a crença no fortalecimento na luta por justiça e pela memória. Para que não se repita.

    Santa Maria, 29 de janeiro de 2023.

    Gabriel Rovadoschi Barros
    Presidente da Associação dos Familiares de Vìtimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria.”

    Procurada pela CNN, a Netflix não retornou até a data de publicação deste texto.