Ideal seria apontar rumo a agro de baixo carbono, diz ex-ministra sobre Cúpula

Para Izabella Teixeira, indicação seria oferecer uma visão de futuro de fato, com um desenvolvimento sustentável da Amazônia

Iuri Pitta, da CNN
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A ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, responsável pela pasta durante a assinatura do Acordo de Paris, em 2015, disse à CNN que o Brasil poderia ter dado um sinal mais claro e estratégico na Cúpula do Clima se antecipasse compromissos por um "agro de baixo carbono".

"Isso seria oferecer uma visão de futuro de fato, olhar para um desenvolvimento sustentável da Amazônia, com restauração de áreas degradadas, substituição das atividades ilegais na floresta por uma nova base econômica, agricultura com a floresta em pé", avaliou a ex-ministra do governo Dilma Rousseff (PT). "Em setembro, teremos a Food Summit (Cúpula da Alimentação) e a produção sustentável de alimentos está na pauta."

Izabella lembra ainda que, ao citar que o Brasil responde por 3% das emissões globais atualmente, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) deixou de mencionar que esse índice é suficiente para colocar o país entre as 10 nações mais poluentes.

"Enquanto países desenvolvidos que mais emitem o fazem com base em atividades formais, no nosso caso quase 50% é fruto essencialmente de desmatamento ilegal."

Por isso, em um dos trechos do discurso, Bolsonaro afirmou que as emissões do país cairiam 50% com o fim do desmatamento ilegal até 2030.

A ex-ministra observa ainda que, da forma como o presidente citou os 23 milhões de brasileiros que vivem na Amazônia e o baixo índice de desenvolvimento humano (IDH) na região, é preciso explicar que 80% dessa população é urbana.

"O discurso foi feito diante de pessoas que não são amadoras, são conhecedoras profundas da realidade ambiental brasileira e é preciso fazer mais para convencer a comunidade internacional em relação ao que foi dito."

Credibilidade e comprometimento

A questão da credibilidade no discurso de Bolsonaro também foi apontada por diplomatas com conhecimento das questões ambientais. O embaixador e ex-ministro Rubens Ricupero avaliou que o discurso refletiu o "melhor" que o governo poderia fazer em relação à Cúpula do Clima. "Mas os fatos dos últimos dois anos desmentem o discurso", disse.

"Importante entendermos que a reunião é o ponto de partida para se chegar a Glasgow, e que a Cúpula é um gesto claro de que os Estados Unidos voltaram a ter protagonismo, ao lado da China", completou, referindo-se à sede da COP-26, Conferência do Clima que será realizada em novembro.

Para Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos, um aspecto positivo do discurso é que o próprio Bolsonaro se comprometeu com a comunidade internacional e a sociedade brasileira a reduzir o desmatamento ilegal e as emissões de gases de efeito estufa no país. 

"A cobrança pelo cumprimento desses compromissos agora deve ser feita diretamente ao presidente da República", afirmou à CNN.

A mesma avaliação foi feita pela cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida, uma das integrantes da Comissão Arns de Direitos Humanos que tem se debruçado sobre a questão ambiental - nesta semana, o grupo que reúne 22 ex-ministros e intelectuais brasileiros enviou uma carta aos líderes participantes da Cúpula do Clima sobre a realidade da região amazônica e a importância da preservação ambiental como um dos direitos humanos fundamentais.

"É importante o presidente ter sido obrigado a se reposicionar, diante da pressão da sociedade civil e da comunidade internacional", disse Maria Hermínia. "A questão é colocar esse novo posicionamento em prática. Faltou explicar como vai zerar o desmatamento ilegal, como vai melhorar a vida da população amazônica, incluindo indígenas e povos tradicionais, e como isso vai se refletir nas legislações em discussão no Congresso que vão na contramão desse discurso, como a mineração em terras indígenas."

A ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira
A ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira pediu um sinal mais claro do governo brasileiro na Cúpula do Clima
Foto: Elza Fiuza/Agência Brasil

Lugar de fala

Para os dois diplomatas, não foi por acaso a ordem de chamada dos líderes nacionais para fazerem seus pronunciamentos - Bolsonaro foi o 21º a falar, depois não só de chefes de governos de países desenvolvidos, mas também de nações em desenvolvimento, como Bangladesh, Indonésia e Ilhas Marshall, além da Argentina.

"Certamente, em outros tempos, o Brasil seria um dos primeiros a falar e com a presença do presidente dos Estados Unidos", afirmou Barbosa. "A ordem sempre tem uma mensagem, mesmo que não explicitada. Não foi por acaso que, logo depois dos Estados Unidos, quem falou foi a China", apontou Ricupero.

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