Julgamento da Boate Kiss “não é vingança, é um exemplo” para Brasil, diz pai de vítima

"Ninguém é condenado por dolo eventual. É preciso parar com essa barbárie", diz Paulo Carvalho. Julgamento começa nesta quarta (1º) em Porto Alegre

Giovanna GalvaniJuliana Alvesda CNN

em São Paulo

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Com o início, nesta quarta-feira (1º), do julgamento do caso da Boate Kiss, o pai de uma das vítimas e integrante da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria, Paulo Carvalho, disse à CNN que a intenção não é se buscar “vingança”, mas sim uma condenação que sirva como “exemplo” para crimes onde exista dolo eventual – quando se sabe que pode causar a morte e o risco é assumido mesmo assim.

“O que a gente considera justo é o dolo eventual. Essa condenação não é vingança, é um exemplo para que o Brasil veja crime com dolo. Eles [réus] assumiram riscos inúmeras vezes e esses riscos são assumidos por inúmeras pessoas que não tem a virtude de ver os outros como vidas, como pessoas”, disse Carvalho.

“O que aconteceu nesses 9 anos é o que acontece em praticamente todos os casos [semelhantes]. Ninguém é condenado por dolo eventual. É preciso parar com essa barbárie”, complementou.

O incêndio dentro da Boate deixou 242 mortos e 636 feridos. Os quatro réus são dois sócios da casa noturna, Elissandro Callegaro Spohr e Mauro Londero Hoffmann; o músico Marcelo de Jesus dos Santos e o produtor cultural Luciano Bonilha Leão, ambos integrantes da banda Gurizada Fandangueira.

Segundo Paulo, o processo – que tem mais de 20 mil páginas – mostra como os proprietários da Boate Kiss “infringiram as normas” de segurança que deveriam existir no local, como a disponibilidade visível de extintores de incêndio e bloqueio da saída com “barras de ferro, evitando que os jovens saíssem sem pagar”, diz ele.

Ele ainda diz que, por parte da banda, havia conhecimento de que o sinalizador disparado por um deles poderia ser utilizado apenas em ambientes abertos.

“Se obedecessem mínimas normas que existem no Brasil, a tragédia não teria acontecido”, afirma.

“Nós nunca desistimos, e finalmente eles [réus] serão julgados. Queremos que sejam punidos pela lei e que isso traga benefícios e outros casos”, declarou Paulo Carvalho ao comentar suas expectativas do julgamento.

“Pessoas não perderão seus filhos porque o receio da punição inibirá outros irresponsáveis que estão no Brasil todo”, disse.

Além disso, Carvalho também explicou planos da Associação para a construção de um memorial às vítimas no local da tragédia, em Santa Maria. Segundo ele, o projeto está na fase de elaboração dos requisitos para construção.

Também há uma preocupação do grupo com os sobreviventes. De acordo com Paulo Carvalho, 20% deles têm, até hoje, sequelas pulmonares graves pelo contato com a fumaça tóxica decorrente do incêndio do forro do teto. Grupos da iniciativa privada garantiram que esses jovens recebessem medicamentos de graça, afirmou.

*Com informações de Viviane Kulczynski, em colaboração para a CNN

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