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    Maurício Pestana: a solidão do homem preto

    Situação de Vinicius Júnior mostra que o racismo não é apenas a atitude isolada de uma parcela da torcida espanhola

    Vinicius Jr. foi às lágrimas em entrevista coletiva antes de amistoso contra a Espanha
    Vinicius Jr. foi às lágrimas em entrevista coletiva antes de amistoso contra a Espanha Reprodução/CBF/X

    Maurício Pestana

    Desde que estudo questões raciais e de inclusão, eu me deparo com o tema da solidão da mulher negra. São relatos, pesquisas e estudos que dão conta da complexidade de uma das faces mais nefastas que o racismo imputa a esta parcela da população.

    Embora sejam a maioria – quando o percentual é dividido entre homens, mulheres, brancos e negros, mulheres negras representam quase 30% do contingente, o que torna esse grupo majoritário – essa maioria não se traduz nos cargos de direção das empresas, onde elas são minoria.

    Também são minoria na parcela economicamente ativa da sociedade, minoria inclusive nas relações afetivas com seus pares, o que se traduz no que denominamos hoje de “mãe solos”. Tristes números submergem quando o foco é a mulher negra.

    O tema que chamo à atenção hoje raramente encontro na literatura. Porém, um fato midiático desta semana literalmente “levantou a bola”. Falo da solidão do homem negro.

    Poderia começar lembrando os números de encarcerados nas prisões brasileiras – a maioria deles é formada por homens negros – ou os números de desempregados no Brasil, que, segundo o IBGE, também afetam os homens negros, pois, para esse contingente, nem a reserva de mercado dos serviços domésticos direcionado às mulheres negras, herança dos quase 400 anos de escravização, foi deixada.

    Poderia ainda falar do aliciamento do crime organizado, visto que, em qualquer reportagem policial, é visivelmente perceptível a presença majoritariamente de crianças e jovens negros, que, ao invés de estarem carregando mochilas, cadernos e livros para escola, estão empunhando metralhadoras maiores que elas mesmas nas periferias abandonadas pelo Estado brasileiro.

    Mas vou falar de um negro, milionário, talentoso que conseguiu com maestria e competência driblar todas as reservas de mercado para negros em uma sociedade racista como a nossa.

    Hoje, esse personagem tem um dos maiores salários do mundo em seu ofício e, assim mesmo, não conseguiu vencer o racismo presente em um  dos mais populares esportes do planeta, o futebol.  Falo de Vinicius Júnior.

    A solidão esboçada aos menos afortunados descrita por mim até agora não poupa nem a fama, talento ou dinheiro de um dos maiores jogadores de futebol da atualidade, e a coletiva de Vini Jr. mostrou bem isso.

    No púlpito da coletiva antes do amistoso contra a Espanha, não havia um dirigente do Real Madrid ao lado do jogador. Também nenhum dirigente da Seleção Brasileira. Também não havia jornalistas negros na sala de imprensa. As falas e as perguntas da imprensa eram como se Vinicius, a vítima, pudesse dar as respostas e as soluções para o racismo espanhol.

    O choro daquele homem preto que venceu a pobreza, venceu a violência e outras investidas letais do racismo aqui no Brasil, não conseguia esconder a solidão dos que resolvem enfrentar este mal mesmo num lugar em que a solidão parece não existir.

    O futebol que consagrou tantos jogadores negros, inclusive o maior deles, Pelé, expõe hoje, na figura e solidão de Vinicius Júnior, que o racismo não é apenas a atitude isolada de uma parcela da torcida espanhola. O racismo também se esboça na atitude da inércia de seus dirigentes.