Morte de Genivaldo foi causada por asfixia mecânica e inflamação de vias aéreas

Informação consta nos laudos periciais; a vítima morreu após uma abordagem de agentes da Polícia Rodoviária Federal na cidade Umbaúba, em Sergipe

Júlia Vieira e Giulia Alecrim, da CNN
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A perícia criminal do Sergipe confirmou nesta sexta-feira (2) que a morte de Genivaldo de Jesus Santos após uma abordagem de agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) na cidade de Umbaúba, em maio deste ano, foi causada por asfixia mecânica com inflamação de vias aéreas.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Estado, dois laudos foram preparados pelo Instituto de Análises e Pesquisas Forenses (IAPF) e o Instituto Médico Legal (IML).

Primeiro, as equipes realizaram o exame toxicológico padrão. “Como todos os casos relacionados ao trânsito, embora não tenha sido acidente de trânsito, seguimos o que fazemos comumente. Verificamos se ele havia ingerido álcool, o que deu negativo. E investigamos o uso de drogas e medicamentos. Encontramos a quetiapina, medicamento utilizado no tratamento da esquizofrenia. Quantificamos e verificamos que a concentração é compatível com a terapêutica", revelou o perito criminal Ricardo Leal, do IAPF.

A identificação da substância permitiu confirmar que Genivaldo estava sob efeito do medicamento, ou seja, ele não estava um surto no momento.

Os peritos também verificaram a quantidade de monóxido de carbono no sangue da vítima. "A bomba de gás lacrimogêneo, quando é detonada, forma alguns gases, entre eles o monóxido de carbono, que é tóxico, e havia essa suspeita. Realizamos essa análise e verificamos que ele não foi intoxicado por monóxido da bomba de gás lacrimogêneo", afirmou.

Leal acrescentou, que, no entanto, outros gases são formados. “Por exemplo, ácido clorídrico, que é isso que provoca a irritação das mucosas. E essa substância pode ser formada. Com esses resultados todos, concluímos o laudo pericial solicitado pelo IML”, finalizou o perito do Instituto de Análises e Pesquisas Forenses.

O exame cadavérico do IML já tinha atestado a asfixia mecânica. "Inicialmente, no exame cadavérico, nós já tínhamos a certeza de que Genivaldo faleceu em decorrência de um processo de asfixia mecânica, isso constatado com as alterações macroscópicas, verificadas a olho nu, analisando tecido o pulmão, das vias aéreas e da traqueia”, detalhou o diretor do IML, Victor Barros.

Em seguida, amostras do pulmão e das vias respiratórias de Genivaldo foram encaminhadas para o laboratório de anatomopatologia. “Recebemos esse resultado, que indicou que Genivaldo apresentou uma reação inflamatória intensa nas vias aéreas, com predomínio nas vias respiratórias inferiores e, essa reação, gerou o fechamento da árvore respiratória da vítima, provocando a morte”, especificou.

O IML também constatou que a vítima não permaneceu reinalando monóxido de carbono. "Chegamos à conclusão que o óbito se deu logo no início do processo por uma reação inflamatória intensa, que gerou o fechamento da via aérea com predomínio da via aérea inferior, gerando a morte de Genivaldo", concluiu Vitor Barros.

Fase final do inquérito

Em 3 de agosto, o Ministério Público Federal (MPF) concedeu mais 20 dias para a conclusão do inquérito que apura a morte de Genivaldo. O pedido de extensão foi feito pela Polícia Federal (PF).

Na época, o MPF afirmou que as investigações se encontravam em fase final, restando a conclusão resultado das perícias, inclusive o laudo necroscópico, pelo Instituto Médico Legal (IML) de Sergipe e pelo Instituto Nacional de Criminalística em Brasília.

Ricardo Leal, do IAPF, justificou a demora na entrega dos resultados. “Alguns exames e análises de toxicologia são mais céleres, por serem mais simples, outros demoram mais pois precisam de uma técnica ou de metodologias específicas. As análises que deveriam ser realizadas foram concluídas no domingo e, a partir daí, o laudo pericial foi enviado à autoridade requisitante”, explicou.

Conforme o perito, para a confecção do laudo toxicológico sobre a morte de Genivaldo, o IAPF utilizou uma técnica denominada de espectrometria. “E precisávamos de um gás específico para calibrar nosso equipamento, porém esse gás demorou muito para ser fornecido pela empresa. Então era um fator que não dependia do laboratório, para as condições que precisávamos, da pureza do gás e da pressão”, detalhou.

Após a entrega do material, segundo o perito do IAPF, os profissionais levaram quatro dias para fazer a análise e concluir o laudo pericial.

Relembre o caso

Um homem de 38 anos foi morto durante abordagem pela Polícia Rodoviária Federal na cidade de Umbaúba, em Sergipe, na quarta-feira (25/6). Vídeos compartilhados em redes sociais mostram a viatura da PRF sendo usada como uma “câmara de gás” com a vítima presa no porta-malas.

Genivaldo de Jesus Santos, de 38 anos, sofria de distúrbios mentais, segundo relatos de familiares. O laudo inicial do Instituto Médico Legal confirmou o óbito por asfixia e insuficiência respiratória. As polícias Civil e Federal investigam o caso.

“Foi dada a ordem de parada, ele parou, botou a moto no descanso e atendeu todos os comandos. O policial pediu para ele levantar a camisa, ele fez e falou que estava com o remédio no bolso e com a receita médica indicando que ele tem problemas mentais, foi quando o policial chamou reforço”, relata Wallyson de Jesus, sobrinho de Genivaldo.

Segundo Wallyson, outros dois policiais chegaram e iniciaram o que o sobrinho chamou de “sessão de tortura.”

“Pegaram ele pelos braços e pelas pernas. Quiseram colocar algemas nos pés dele, mas não coube e pegaram uma fita lá dentro e amarraram nele. Começaram a pisar nele e depois de tudo isso ocorrido, eles pegaram meu tio, colocaram na viatura e colocaram uma granada daquela de gás”, relata o sobrinho da vítima.

As imagens mostram dois policiais segurando Genivaldo dentro da viatura, com as pernas para fora.

De acordo com o depoimento de Wallyson, os presentes continuavam dizendo aos policiais que Genivaldo tinha problemas de saúde.

“A viatura cheia de gás lacrimogêneo lá dentro e ele no porta malas, foi quando a população não aguentou que estava todo mundo vendo aquilo e começaram a gravar”, relata.

Amigos, familiares de Genivaldo e moradores da cidade, a cem quilômetros de Aracaju, fizeram um protesto na entrada da cidade na manhã desta quinta-feira (26), bloqueando a BR-101, onde aconteceu a abordagem.

A Polícia Federal emitiu nota informando que “instaurou inquérito para apurar morte durante abordagem policial” e que diligências já estão sendo feitas.

Segundo nota da PRF, o “homem de 38 anos, resistiu ativamente a uma abordagem (…) Em razão da sua agressividade, foram empregados técnicas de imobilização e instrumentos de menor potencial ofensivo.”

Ainda de acordo com o comunicado do órgão, “durante o deslocamento, o abordado veio a passar mal e socorrido de imediato ao Hospital José Nailson Moura, onde posteriormente foi atendido e constatado o óbito.”

A PRF afirma que abriu processo disciplinar para investigar a conduta dos policiais.