Negra Li: ‘Multidão unida contra racismo dá esperança no futuro’

A artista ainda apontou o papel da tecnologia no combate ao racismo e diz sentir que nada mudou muito em relação a esse aspecto na sociedade, mas há união

Da CNN

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A cantora e atriz Negra Li falou sobre racismo e disse ver com esperança os protestos após a morte de George Floyd – homem negro, de 46 anos, asfixiado por um policial em Minneapolis, no estado norte-americano de Minnesota. Os atos têm ocorrido, diariamente, nos Estados Unidos há mais de uma semana e se espalharam pelo mundo, com registros em Londres, na Inglaterra, em Paris, na França, e no Brasil.

Negra Li afirmou, em entrevista à CNN, nesta quarta-feira (3), sentir que nada mudou muito em relação ao racismo da sociedade, mas que as pessoas parecem mais unidas. “Por mais que eu sinta que não mudou em relação ao racismo, que ele continua forte e presente, mudou a força e a união das pessoas combatendo isso. Olha essa multidão se juntando em prol disso. Alguma coisa vai ter que mudar e isso dá esperança no futuro”, disse ela, que defendeu os atos.

“O que está acontecendo hoje é uma revolução. As pessoas não aguentam mais. Faz muito tempo que a gente não aguenta mais. Tem fases em que a gente tentou lidar com a situação de diversas formas, e hoje precisou chegar nesse ponto e nessa quantidade de protestos. Mesmo com essa pandemia rolando, se fez necessário e estou junto nessa”, classificou ela, que ainda apontou a importância de criar crianças antirracistas.

“Temos que colocar esperanças nas crianças, o futuro da nossa nação, para que eles façam diferente e possam viver dias sem racismo, sem preconceito e com uma liberdade realmente verdadeira. Acredito que a gente ainda pode mudar o futuro da nossa nação”, completou.

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A artista ainda apontou o papel da tecnologia no combate ao racismo. “O que diferencia também é que está sendo filmado e as pessoas estão vendo, mas a gente que é negro, que nasceu na periferia, já vive isso desde que veio ao mundo. Eu sofro racismo desde que me conheço por gente. A diferença hoje é que temos a internet para disseminar a informação e a revolta, então está tendo uma união”, acrescentou.

A cantora Negra Li fala à CNN
A cantora Negra Li fala à CNN
Foto: CNN (03.jun.2020)

Para ela, é banal questionar a uma pessoa negra se ela já sofreu racismo, porque considera que não é um problema individual. “Não tem por que essa pergunta. Se alguém estiver sofrendo racismo, eu vou estar também. Quem ataca pela cor da pele não ataca uma pessoa, mas toda uma etnia. Como eu sendo negra não sofri racismo? Impossível”, refletiu.

Negra Li também cobrou que pessoas brancas busquem conhecimento para ter noção dos próprios privilégios. “Você deve olhar ao redor. Quantas pessoas negras vocês estão vendo? Quais as funções delas nesses ambientes? Ela está sendo servida ou está servindo? [Tem que] questionar, pesquisar, conversar, ouvir e dar apoio a pessoas de etnias diferentes da de vocês”, ressaltou.

Sérgio Camargo

Perguntada sobre a permanência de Sérgio Camargo na presidência da Fundação Cultural Palmares, mesmo após críticas e um áudio no qual ele chama o movimento negro de “escória maldita”, Negra Li lamentou.

“É muito triste ver que alguns negros ainda não entenderam a dor que a gente carrega com o que aconteceu com a escravidão. Infelizmente, além de lidar com o racismo de pessoas de outras etnias, ainda temos que lidar com a ignorância de alguns dos nossos, porque só consigo ver que é uma ignorância”, analisou.

Para ela, Camargo vive na escuridão. “Prefiro acreditar que essas pessoas ainda estão vivendo em uma escuridão e falta de liberdade, principalmente na que está dentro da nossa cabeça. Espero que, no futuro, esse homem e os filhos dele possam abrir os olhos e entender realmente a nossa história”, completou.

Nesta quarta (3), Camargo respondeu à reportagem feita pelo jornal O Estado de S. Paulo, que publicou áudios com conversas em que ele é gravado chamando o movimento negro de “escória maldita”, menosprezando a agenda da Consciência Negra e afirmando que Zumbi era um “filho da puta que escravizava pretos”. 

Em nota, ele disse que a fundação agora “está sob um novo modelo de comando, mais eficiente, transparente, voltado para a população e não apenas para determinados grupos” . Camargo também lamentou o que classificou como “gravação ilegal de uma reunião interna e privada”.

(Edição: Sinara Peixoto)

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