Ararinhas-azuis são infectadas por circovírus em criadouro na Bahia
ICMBio afirma que o local não estava seguindo os protocolos de biossegurança; organização do criadouro nega negligências e questiona o resultado dos exames

O ICMBio (Instituto Chico Mendes) afirmou, nesta quarta-feira (26), que 11 Ararinhas-Azuis (Cyanopsitta spixii) que estavam soltas na natureza testaram positivo para circovírus, um vírus letal para as aves.
O Instituto multará em R$ 1,8 milhão a BlueSky, empresa que gerencia o criadouro em Curaçá (BA), que atualmente conta com 103 ararinhas. Após investigações, foi constatado que os protocolos de biossegurança não estavam sendo seguidos.
Durante as vistorias feitas em parceria com INEMA (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos) e a Polícia Federal, o ICMBio afirmou ter identificado que os comedouros, onde era fornecida a alimentação diária às aves de vida livre, estavam extremamente sujos, com acúmulo de fezes ressecadas.
Além disso, medidas como limpeza e a desinfecção diária das instalações e dos utensílios não estavam sendo realizadas de maneira correta. Os funcionários também foram flagrados utilizando chinelos, bermuda e camiseta durante o manejo dos animais.
“Se as medidas de biossegurança tivessem sido atendidas com o rigor necessário e implementadas da forma correta, talvez a gente não tivesse saído de apenas um animal positivo para 11 indivíduos positivos para circovírus”, relata Cláudia Sacramento, coordenadora da Coordenação de Emergências Climáticas e Epizootias do ICMBio.
O Criadouro Ararinha-azul rejeitou as acusações de negligência e afirmou, em nota, seguir "os protocolos rígidos de biossegurança e bem-estar animal", além de contar com "instalações e equipamentos adequados ao manejo das aves".
"A instituição contesta ainda a informação de que 'as últimas ararinhas-azuis na natureza' estariam sob risco iminente em razão do circovírus. Até 2019, não havia nenhuma ararinha na Caatinga. Com a construção do criadouro, 101 aves foram trazidas para o bioma. Hoje, segundo o criadouro, há 103 ararinhas-azuis sob seus cuidados, sendo 98 com exames negativos para o vírus e 5 com detecção de circovírus em ao menos um exame", afirmou a organização.
O criadouro criticou o governo e disse que ainda não teve acesso ao laudo técnico completo fundamenta a multa de R$1,8 milhão aplicada pelo ICMBio.
"Em vez de atuar em cooperação para enfrentar um problema sanitário que existe no Brasil há mais de 30 anos, o Estado prefere transferir a culpa e buscar punições contra uma entidade privada que investe recursos próprios na conservação de uma espécie ameaçada", completou.
O criadouro é parceiro da organização alemã Associação para a Conservação de Papagaios Ameaçados (ACTP, na sigla em inglês), que detém 75% das ararinhas registradas em todo o mundo.
No momento, investigações vêm sendo realizadas para conhecer a origem do vírus nas ararinhas. As aves serão separadas entre animais positivos e negativos, para garantir que as medidas de biossegurança sejam incorporadas à rotina de manejo do animal. .
Ararinhas-azuis são soltas na natureza 20 anos depois de extinção
As araras foram soltas em uma região de preservação de Curaçá, na Bahia, em 2022, após serem repatriadas da Europa e mantidas em um criadouro até a reintrodução na natureza. As aves foram recapturadas no início de novembro por suspeita de circovírus.
O primeiro caso de circovírus foi detectado em uma ararinha-azul, em maio deste ano. Após a detecção, foi instaurado um sistema de comando de incidente, pelo ICMBio, para impedir a disseminação do vírus para os indivíduos de ararinha-azul e demais psitacídeos da região.
A espécie é considerada extinta na natureza desde o ano 2000, quando desapareceu o último animal selvagem, que era acompanhado por pesquisadores.
Circovírus dos psitacídeos
O circovírus dos psitacídeos é o principal causador da doença do bico e das penas em psitacídeos, um grupo de aves que inclui araras, papagaios e periquitos. A enfermidade não tem cura e mata a ave na maior parte dos casos.
Os sintomas incluem a alteração na coloração das penas, falhas no empenamento e deformidades no bico. O vírus é oriundo da Austrália e não infecta humanos e nem aves de produção.
Extinção
A ararinha-azul foi descoberta em 1819 e sofreu gradual processo de extinção na natureza, devido a fatores como a destruição do ambiente e a captura para o comércio ilegal de animais silvestres.
Em 1986, a última população selvagem conhecida tinha apenas três indivíduos. O último indivíduo conhecido, um macho, desapareceu em 2000, decretando-se assim a extinção da espécie na natureza.
A ararinha só não desapareceu por completo porque havia cerca de 50 indivíduos vivendo em criadouros espalhados pelo Brasil e o mundo.
Ainda na década de 90, o governo brasileiro começou um projeto de manejo para reprodução desses animais e a negociação do retorno, para o país, de parte das aves que estavam no exterior.
O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) criou, em 2012, um Plano de Ação Nacional (PAN) para aumentar a população cativa, proteger o habitat e promover a reintrodução da ararinha-azul.
Em 2016, o criadouro alemão Association for the Conservation of Threatend Parrots (ACTP) e o ICMBio lançaram o Projeto de Reintrodução da Ararinha-azul, que permitiria a repatriação dos 52 animais quatro anos depois. Hoje, a população mundial de ararinhas é de quase 200 indivíduos, dos quais três nasceram no viveiro de Curaçá.


