Diretor e empresa que opera aterro são indiciados por crimes ambientais

Além de denúncias, perícia da Polícia Civil da Bahia constatou prática “típica de degradação ambiental" no local em Salvador

Camila Tíssia, da CNN
O local entrou em funcionamento desde 1999, operando pela Battre, empresa privada ligada ao Grupo Solví  • Reprodução
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A Battre – Bahia Transferência e Tratamento de Resíduos, responsável pela operação do aterro sanitário de Salvador, e o diretor Ângelo Teixeira de Castro Carvalho foram indiciados pela Polícia Civil da Bahia por crimes contra o meio ambiente. A decisão foi tomada após a conclusão de um inquérito conduzido pela 12ª Delegacia Territorial (DT), no bairro de Itapuã, que investigou diversas denúncias contra a atuação da empresa na área do aterro.

A reportagem teve acesso ao inquérito policial, que possui mais de 200 páginas e inclui laudos periciais, fotos e depoimentos de moradores e trabalhadores da região. Segundo o documento, uma equipe da Coordenação de Perícias dos Crimes Contra o Meio Ambiente esteve no local, na tarde do dia 27 de agosto deste ano, e constatou o desmatamento de aproximadamente 11 mil metros quadrados de Área de Proteção Ambiental (APA) na região do bairro Nova Esperança, incluindo parte dos rios Joanes-Ipitanga.

Além disso, foram identificados assoreamento e coleta de amostras de água para verificar possível contaminação por chorume — as análises ainda estão em andamento.

Durante a perícia, os agentes também observaram solo exposto, manilhas de concreto dispostas de forma irregular, e flagraram uma retroescavadeira operando nas margens de um rio, o que, segundo os peritos, caracteriza prática “típica de degradação ambiental”.

O inquérito aponta ainda que a região era rica em fauna silvestre — como tatus, raposas, teiús e camaleões — e hoje encontra-se desmatada, sem a presença dos animais e com aumento significativo de pragas. Moradores relataram para polícia que o rio próximo à área apresenta mau cheiro, coloração barrenta e material com aparência de ferrugem nas margens.

Depoimento por petição

Durante a investigação, o diretor da empresa foi chamado a depor, mas, segundo o inquérito, respondeu às perguntas por meio de petição apresentada por dois advogados, que se esquivaram de responder de forma direta a diversas questões sobre as denúncias.

A Battre, integra o Grupo Solví, e opera o Aterro Metropolitano Centro (AMC) desde 1999. As primeiras denúncias de possíveis crimes ambientais remontam aos anos de 2000 e 2001. A CNN vem relatando em reportagens sobre as suspeitas de irregularidades que pairavam sobre o empreendimento. Em janeiro de 2025, a Prefeitura de Salvador renovou o contrato com a empresa por mais 20 anos, sem licitação, ao custo de R$ 2,6 bilhões.

O indiciamento da Battre e do diretor Angelo Teixeira de Castro Carvalho foi feito com base no artigo 50-A da Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998), que trata do “desmatamento de áreas públicas ou devolutas com cobertura nativa ou plantada”.

O que diz a empresa

Procurada, a Battre enviou nota negando o indiciamento e alegando que a área onde a degradação ambiental foi constatada não pertence à empresa, embora reconheça que é vizinha ao aterro.

“A área mencionada não está sob jurisdição da empresa. A própria perícia apresentou uma foto georreferenciada do local e foi esclarecido que, apesar de ser uma região vizinha ao aterro, a área não pertence à Battre”, afirmou em texto.

A empresa também declarou que nem a Battre, nem o diretor Ângelo Teixeira foram formalmente indiciados no processo. Por fim, reafirmou o compromisso com a legislação ambiental e se disse aberta ao diálogo com os órgãos de controle.