Grande Recife registra alta histórica de balas perdidas e jovens baleados

Dados do Instituto Fogo Cruzado mostram aumento de 650% nas disputas armadas, 72 vítimas de balas perdidas e recorde de 148 crianças e adolescentes baleados na região em 2025

Gabriela Bento, colaboração para a CNN Brasil, no Recife
Compartilhar matéria

A Região Metropolitana do Recife (PE) registrou, em 2025, um salto de 650% nos tiroteios motivados por disputas entre grupos armados, com 46 confrontos desse tipo espalhados por ao menos oito municípios.

No mesmo período, a região atingiu recordes históricos de vítimas de balas perdidas e de crianças e adolescentes baleados, segundo o relatório anual do Instituto Fogo Cruzado, divulgado nesta quinta-feira (26).

De acordo com o levantamento, o avanço das disputas armadas deixou de se restringir a áreas isoladas e passou a atingir ao menos oito municípios da Região Metropolitana do Recife. Para o Instituto Fogo Cruzado, o crescimento desse tipo de confronto expõe a fragilidade de uma política de segurança pública centrada majoritariamente no patrulhamento ostensivo.

“O aumento do efetivo policial é uma medida necessária para conter a violência, mas não basta para enfrentar problemas estruturais que continuam alimentando as dinâmicas de risco. Combater o crime organizado requer ações articuladas e integradas de longo prazo, como o rastreamento e a desarticulação de fluxos financeiros e de suas lideranças. Além disso, o fortalecimento de políticas públicas de proteção e promoção social é fundamental para impedir a expansão dessas redes, que se alimentam da vulnerabilidade e cooptam principalmente os mais jovens”, explicou a coordenadora regional do Instituto Fogo Cruzado em Pernambuco, Ana Maria.

O agravamento do cenário também se reflete no aumento das balas perdidas. Ao longo de 2025, 72 pessoas foram atingidas na Região Metropolitana do Recife em situações alheias a confrontos armados, o maior número desde o início da série histórica, em 2019. Desse total, oito morreram e 64 ficaram feridas, um crescimento de 47% em relação ao ano anterior.

O relatório aponta que março concentrou o maior número de vítimas desse tipo, com 17 pessoas baleadas, inclusive durante grandes eventos públicos. Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu no carnaval de Olinda, quando um tiroteio na Praça do Carmo deixou sete feridos em meio a um dos principais polos da festa.

“A bala perdida é um retrato contundente do descontrole da violência armada. Sua gravidade se evidencia no fato de que as vítimas não estão envolvidas em diretamente em confrontos, pois são pessoas que seguiam suas rotinas, em momentos de lazer, deslocamento ou trabalho, e foram, literalmente, atravessadas por tiros e pelo trauma físico e psicológico que permanece. Trata-se de um evento que amplia a sensação coletiva de insegurança da população”, afirma Ana Maria França.

A violência armada também atingiu, em 2025, o maior número já registrado de crianças e adolescentes baleados na região metropolitana. Ao todo, 148 pessoas de até 17 anos foram atingidas por disparos de arma de fogo. Entre elas, 16 eram crianças de até 11 anos, quatro mortas. Já entre adolescentes de 12 a 17 anos, 132 foram baleados e 93 morreram.

Segundo o levantamento, 96% dos adolescentes baleados foram vítimas de ataques diretos, classificados como homicídios ou tentativas de homicídio. Entre abril de 2018 e dezembro de 2025, a Região Metropolitana do Recife acumulou 902 adolescentes baleados.

Apesar de uma redução de 15% no número total de tiroteios em relação a 2024, os níveis de letalidade permaneceram elevados. Em 2025, 1.718 pessoas foram baleadas na RMR, sendo 1.233 mortas e 485 feridas, o equivalente a quase cinco vítimas por dia.

Onde a violência se concentra na Região Metropolitana de Recife

Municípios com mais tiroteios

Recife lidera, com 561 registros, o equivalente a 38% do total mapeado na região metropolitana. Em seguida aparecem Jaboatão dos Guararapes, com 228 ocorrências, Cabo de Santo Agostinho, com 146, Olinda, com 123, e Paulista, com 95.

Bairros com mais pessoas baleadas

Muribeca e Dois Unidos aparecem no topo, com 35 vítimas cada. Depois vêm Nova Descoberta, com 33, Prazeres, com 31, e Ponte dos Carvalhos, Cohab e Água Fria, com 25 cada.

Locais onde ocorreram os disparos

A maioria das vítimas foi baleada dentro de casa, com 229 registros. Também houve ocorrências em eventos, bares, automóveis, barbearias, presídios, postos de gasolina, lava jatos, transporte público e uma unidade de ensino.

Quem são as vítimas

  • Agentes de segurança: ao menos 15 foram baleados em 2025. Oito estavam fora de serviço, quatro em serviço e três eram aposentados ou exonerados;
  • Trabalhadores informais: foram atingidos 33 mototaxistas, 19 motoristas de aplicativo, seis vendedores ambulantes e cinco entregadores ou motoboys;
  • Balas perdidas: 72 pessoas foram vítimas. Oito morreram e 64 ficaram feridas.

Motivação dos disparos

Homicídios e tentativas de homicídio somaram 1.312 casos. Em seguida aparecem roubos ou tentativas de roubo, com 93 registros; ações ou operações policiais, com 87; e disputas entre grupos armados, com 46.

A reportagem procurou a SDS (Secretaria de Defesa Social de Pernambuco) para comentar os dados do relatório, mas não obteve resposta até a publicação.