Arábia Saudita resiste a metas de transição e antecipa embates da COP30
Posição saudita reflete o desconforto de um grupo de nações que teme que a descarbonização acelerada ameace suas receitas e estabilidade política

A Arábia Saudita voltou a liderar o movimento de resistência nas negociações climáticas internacionais. Durante a Pré-COP30, realizada em Belém (PA), representantes sauditas reagiram com veemência às propostas de incluir, nos documentos preparatórios, o compromisso de “transitioning away”, expressão que indica o afastamento gradual do uso de combustíveis fósseis.
O episódio antecipou um dos debates mais tensos que devem marcar a COP30, programada para novembro na capital paraense.
Apesar da pressão crescente por metas mais ambiciosas, países produtores de petróleo, liderados por Riad, argumentam que a transição energética deve considerar “realidades econômicas distintas” e não pode “criminalizar” o petróleo, o gás e o carvão.
A posição saudita reflete o desconforto de um grupo de nações que teme que a descarbonização acelerada ameace suas receitas e estabilidade política.
A tensão sobre os combustíveis fósseis pautou parte das discussões da Pré-COP, mesmo com o esforço do Brasil, país que preside a conferência, para concentrar o debate em temas de maior consenso, como adaptação climática e financiamento.
Para diplomatas envolvidos nas conversas, a forte reação saudita demonstrou que o conflito entre metas de redução e interesses econômicos ainda será central na COP30.
Durante o evento, o Brasil lançou um pacto que visa quadruplicar o uso de combustíveis sustentáveis até 2035, em parceria com países como Itália, Japão e Índia. O Itamaraty ainda deseja anunciar novas adesões até o início da COP30.
Além do impasse sobre o petróleo, a reunião também expôs as dificuldades em torno do financiamento climático, considerado outro pilar da negociação. Países em desenvolvimento cobraram que as economias ricas cumpram promessas antigas de repasse de recursos para mitigação e adaptação, enquanto nações do Norte Global argumentaram que parte das metas depende de mecanismos privados e de novas fontes de arrecadação.
Segundo o embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, a Pré-COP mostrou avanços na maturidade do diálogo entre blocos, mas não eliminou divergências profundas. Ele afirmou que as rodadas em Belém devem ser decisivas para medir a disposição política de cada país em transformar compromissos em ações concretas.
Com mais de 160 delegações confirmadas, a COP30 deve enfrentar uma agenda carregada de temas sensíveis, entre eles, a criação de métricas globais de adaptação, a expansão de energias renováveis e a definição de mecanismos financeiros para países vulneráveis.
A estratégia brasileira, segundo fontes do Itamaraty, é usar Belém como espaço para recompor pontes e evitar que a disputa sobre o petróleo dificulte avanços em outras frentes.



