O Grande Debate: Politização da pandemia atrasa medidas econômicas?

Os debatedores abordaram a aprovação projeto de socorro aos estados e o possível uso político do DEM na crise entre Bolsonaro e Mandetta e mais

Da CNN, em São Paulo

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O Grande Debate desta terça-feira (14) levanta a seguinte pergunta para o o advogado Thiago Anastácio e a economista Renata Barreto: a politização da pandemia atrasa medidas econômicas?

Além do tema principal, os debatedores ainda falaram sobre a aprovação do projeto de socorro aos estados e do possível uso político do DEM na crise entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que é filiado ao partido. Os dois também avaliaram se o debate sobre a saída de Mandetta é ideológico ou partidário e abordaram a conduta dos filhos do presidente diante da crise.

Ao iniciar a discussão, Renata Barreto afirmou acreditar que “tudo é motivo de disputa política”, mas defendeu as medidas econômicas anunciadas. “Em 45 dias, o governo federal, junto com a Caixa Econômica Federal, conseguiu colocar um plano muito ousado e importante de ajuda, não só às pessoas físicas, mas também às microempresas”, pontuou ela.

A economista ainda disse que vê como óbvio que “nem tudo possa ser feito muito rapidamente”, mas que o “governo está tomando medidas muito corretas e muito acertadas nesse momento. Mais importante de tudo, ainda, é que o ministro [da Economia] Paulo Guedes entende a necessidade da responsabilidade fiscal, mesmo em momento de pandemia, sabendo que isso deve ser algo temporário e fazendo um planejamento de longo prazo para que isso não seja ainda pior para o Brasil”, concluiu.

Thiago Anastácio divergiu parcialmente das afirmações da economista. “Me parece bastante claro que o governo federal tem tentado fazer algumas coisas, mas entra em choque com suas próprias ideias e, fundamentalmente, com suas próprias ideologias”, argumentou ele. 

O advogado citou a inexperiência de Guedes na política e um “jogo constitucional das coisas”. “O ministro Paulo Guedes, que a Renata colocou como uma figura econômica relevante, tem tentado fazer algo e encontra uma barreira política no Congresso Nacional”, afirma. “É muito difícil para esses novos governantes, que não estiveram dentro de governos e agora estando diretamente na União, compreender que existe não apenas um jogo político, mas, em regra, um jogo constitucional das coisas. Então, de fato, é um confronto político”, acrescentou.

Mediador do debate, Reinaldo Gottino pôs um novo tema em pauta e questionou os debatedores sobre a aprovação, na Câmara dos Deputados, do projeto desidratado do Plano Mansueto.

Renata Barreto classificou que há “desconfiguração na pauta aprovada” pelos deputados. “A ideia inicial era um valor fixo, mas eles fizeram uma aprovação em que esse valor vai ser a compensação do que foi feito do ano passado, para qualquer perda desses três meses. Então isso, na realidade, é um cheque em branco”, considerou. “E a gente vê governadores e prefeitos com a farra de dinheiro público o tempo todo”, acrescentou.

Thiago Anastácio concordou, citou excesso de gastos e privilégios estatais e afirmou que a “irresponsabilidade com o dinheiro público é evidente na história do Brasil”. “Me parece que esse debate sobre o equilíbrio de contas e a responsabilidade nas ações de prefeitos e governadores já vêm há longo tempo e coincidiu com esse momento de crise. Evidentemente que governadores, quando fazem dívidas com a União, é óbvio que eles precisam primeiro ajeitar a casa para que depois possam pagar, inclusive, a União”, afirmou.

Gottino voltou a somar outro tema ao debate. De olho na sequência de crises entre o presidente Bolsonaro e o ministro Mandetta, que é filiado ao DEM, o mediador lançou a pergunta: o partido utiliza Mandetta para acumular capital político?

Thiago citou que, além de ser um erro, esse uso político da questão sobre Mandetta é, ainda, “cruel, abominável e um desrespeito às pessoas que estão morrendo e que irão morrer nessa pandemia”. Renata disse entender que essa “acumulação de capital político está acontecendo já há algum tempo” e lembrou que Mandetta, além de médico, é político. “E tem se tornado cada vez mais evidente, para mim, que ele atua como político”, afirmou a economista.

Os debatedores também falaram sobre a eventual demissão do ministro Mandetta e responderam se consideram que tem ligação com questão partidária ou ideológica.

Para o advogado, as últimas 48h foram decisivas e ele não vê uma reconciliação política entre os dois. “Me parece que, em algum momento, esse essa corda vai estourar para o lado mais fraco, que é o do Mandetta, porque ele é o ministro diante de um presidente da República que está em pleno conflito com ele”, avaliou.

A economista, por sua vez, disse que “Mandetta tomou para si essa popularidade” e Bolsonaro começou a entender que poderia ser ruim demitir o ministro diante disso. “Então, o que que foi feito de errado, na minha opinião, pelo presidente Jair Bolsonaro? Essa ameaça constante e não uma conversa nos bastidores para resolver isso”, criticou ela.

Por fim, os dois responderam a outra questão: os filhos do presidente politizam as medidas de contenção ao coronavírus ao criticar o uso de tablets para que presos vejam os familiares?

Thiago Anastácio citou o chamado ‘gabinete do ódio’, que teria participação direta do vereador Carlos Bolsonaro, e atacaria os rivais políticos de Bolsonaro. “O fato é que quem aparece é abatido. Por quem? Pelos filhos daquele mesmo que se disse um capitão de artilharia, que sabe matar”, afirmou.

Renata Barreto analisou a questão de forma técnica e defendeu a medida do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro. Sobre as declarações dos filhos do presidente, a economista apenas avaiou que elas “sempre podem ser interpretadas de diversas formas”, já que eles falam como políticos, mas também como cidadãos.

Argumentos finais

O Grande Debate: o advogado Thiago Anastácio e para a economista Renata Barreto
O Grande Debate: o advogado Thiago Anastácio e para a economista Renata Barreto
Foto: CNN (14.abr.2020)

Em suas considerações finais, Thiago Anastácio puxou a questão das tablets em presídios e começou dizendo que “tem horror quando se fala em ‘pessoas de bem'”. “‘Pessoas de bem’ significam aquelas pessoas que estão em casa trabalhando, honestamente. E parece que as pessoas que são do mal são as pessoas condenadas”, avaliou ele.

Em relação a esse assunto, Renata Barreto disse acreditar que “os direitos das pessoas que trabalham e não cometem crimes devem ser mais elevados do que as pessoas que cometem crimes”. “Eu entendo a indignação das pessoas quando elas falam sobre isso”, defendeu.

Para fechar o debate, ela reafirmou o posicionamento econômico liberal. “Irresponsabilidade fiscal não pode acontecer de novo e também não pode ser desculpa para a pandemia”, concluiu.

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