Dois homens ligados ao MBL são presos em SP; MP investiga lavagem de dinheiro

Polícia Civil informou que os envolvidos teriam desviado mais de R$ 400 milhões de companhias ligadas à disseminação de fake news

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Dois homens ligados ao Movimento Brasil Livre (MBL) e ao Movimento Renovação Liberal (MRL) foram presos, preventivamente, em São Paulo, nesta sexta-feira (10), durante uma operação do Ministério Público de SP, em colaboração com a Polícia Civil e a Receita Federal. Em nota, o MBL afirmou que os suspeitos nunca foram membros do grupo.

Segundo o MPSP, além dos dois mandados de prisão, foram cumpridos mandados de busca e apreensão na capital e em Bragança Paulista, em seis endereços correspondentes a empresas envolvidas na investigação sobre crimes de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. Um desses locais é a sede do MBL, na Vila Mariana, Zona Sul da capital paulista.

A Polícia Civil informou que os envolvidos teriam desviado mais de R$ 400 milhões em esquema envolvendo companhias ligadas à disseminação de fake news (notícias falsas). Os policiais apreenderam celulares, computadores, HDs e pen drives, além de documentos impressos e dinheiro. 

Os presos são Alessander Monaco Ferreira e Carlos Augusto de Moraes Afonso (conhecido como Luciano Ayan). De acordo com o MPSP, evidências mostraram que eles “construíram efetiva blindagem patrimonial composta por um número significativo de pessoas jurídicas, tornando o fluxo de recursos extremamente difícil de ser rastreado, inclusive utilizando-se de criptoativos (ativos digitais)”.

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Alessander Monaco Ferreira é preso e chega à sede da Polícia Civil em SP
Alessander Monaco Ferreira é preso e chega à sede da Polícia Civil em SP
Foto: Reprodução – 10.jul.2020 / CNN

O Ministério Público afirma que há “confusão jurídica empresarial” entre o MBL e o MRL, acusa o MBL de receber “doações de forma suspeita” através da plataforma Google Pagamentos – ao invés de doações diretas na conta do grupo -, e diz que o MBL constituiu e utilizou “diversas empresas em incontáveis outras irregularidades, especialmente fiscais”.

O órgão destaca que a “família Ferreira dos Santos, criadora do MBL, adquiriu/criou duas dezenas de empresas – que hoje se encontram – todas – inoperantes e, somente em relação ao Fisco Federal, devem tributos, já inscritos em dívida ativa da União, cujos montantes atingem cerca de R$ 400 milhões”.

Segundo o MP, Alessander Monaco Ferreira é suspeito de movimentação financeira extraordinária e incompatível; criação/sociedade em 2 empresas de fachada; realização de doações suspeitas através da plataforma Google; de viajar mais de 50 vezes para Brasília, entre julho/2016 a agosto/2018, para o Ministério da Educação com objetivos não especificados; solicitar emprego e ser contratado pelo governo de SP para trabalhar na Comissão de Avaliação de Documentos e Acesso (Cada) da Imprensa Oficial do Estado – função que gerencia tarefas de eliminação de documentos públicos e informações relativas ao recolhimento de documentos de guarda permanente.

Fake news

O MP também afirma que Carlos Augusto de Moraes Afonso é suspeito de ameaçar quem questiona as finanças do MBL; disseminar fake news; criação/sócio de ao menos 4 empresas de fachada; usar contas de passagem, indícios de movimentação financeira incompatível perante o fisco federal.

Carlos foi convocado para a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News, em outubro de 2019. Segundo o requerimento, “Carlos Augusto de Moraes Afonso era um dos donos da empresa Yey Inteligência (nome fantasia “Nox”), atualmente inativa, cuja atividade econômica era ‘consultoria em gestão empresarial’, de acordo com a Receita Federal”.

“Segundo registros da Junta Comercial do Estado de São Paulo, à época, esse nome era sócio de Pedro Augusto Ferreira Deiro – um dos fundadores do MBL. A página do movimento costuma divulgar publicações do Ceticismo Político com frequência, inclusive, o conteúdo divulgado através da página de “Luciano Ayan” no Facebook, sobre o assassinato da vereadora Marielle, foi reproduzido pela página do MBL na mesma rede social.”

Nota do MBL sobre prisões de Alessander Monaco Ferreira e Carlos Augusto de Mora
Nota do MPSP sobre a operação desta sexta-feira
Foto: Reprodução – 10.jul.2020 / CNN

A Operação Juno Moneta tem a participação do Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial (Gecep/MP) e do setor de Capturas do Departamento de Operações Policiais Estratégicas (Dope).

Resposta do MBL

Em nota enviada à CNN, o MBL afirmou que Alessander e Carlos Augusto – “não são integrantes e sequer fazem parte dos quadros do MBL. Ambos nunca foram membros do movimento”.

Em outra nota, divulgada nas redes sociais do grupo, o MBL disse, entre outros pontos, que “as atividades empresariais e familiares dos fundadores do MBL são anteriores ao próprio Movimento e não possuem qualquer conexão ou convergência de finalidade”.

“Com o respeito e acato ao órgão ministerial, importa esclarecer que as assertivas apontadas quanto ao MBL são completamente distantes da realidade, tratando-se de um devaneio tolo, totalmente despido de sustentação fatídica e legal com a única finalidade de macular a honra de um movimento pautado nos pilares da ética, da moral e da liberdade”, segundo o comunicado.

Sobre a operação desta sexta, um dos líderes do MBL, Kim Kataguiri (DEM-SP), afirmou que é “uma bizarrice o que estão fazendo” e “com o tempo vai ficar muito claro que o MBL não tem absolutamente nada a ver com isso”. Ele também qualificou a ação como “um inquérito completamente vazio”.

Sobre a confusão jurídica mencionada pelo MP, Kim disse que MBL é o nome fantasia do grupo e MRL é a pessoa jurídica. Com relação ao Google Pagamentos, ele falou que se trata do “Super Chat” do YouTube e não dá para recebê-lo diretamente na conta do MBL. Com relação à família Ferreira dos Santos, Kim afirmou que ela “trabalha com recuperação de empresa quebrada, que tem dívida trabalhista e tributária”, e para retomar as atividades delas, revende essas companhias.

O vereador Fernando Holiday (Patriota-SP), também líder do movimento, disse em sua conta no Twitter que “nenhum membro do MBL foi preso”. Ressaltou ainda que “de acordo com a própria nota do MP, os R$ 400 milhões são dívidas de empresas quebradas, não dinheiro lavado”, acrescentando que “os valores não são do MBL e não há nenhuma ilegalidade envolvendo o movimento”.

Em nota, o Google afirmou que “não comentamos casos específicos”. “O Google apoia, de modo consistente, o importante trabalho das autoridades investigativas. Esclarecemos que o Super Chat é um recurso pelo qual usuários podem comprar mensagens de chat em transmissões ao vivo no YouTube”, disse a empresa.

(Com informações de Roberta Russo e Julyanne Jucá, da CNN, em São Paulo)

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