Os fatores que formam o orgulho da existência LGBTQIA+ no Brasil de 2021

Apesar dos avanços das últimas décadas, comunidade no Brasil ainda luta contra retrocessos, preconceito e rejeição familiar

Posto 8, em Ipanema, estampa a palavra “Orgulho” junto das cores da bandeira da comunidade LGBT+
Posto 8, em Ipanema, estampa a palavra “Orgulho” junto das cores da bandeira da comunidade LGBT+ Foto: Rafael Catarcione/Riotur

Gregory Prudenciano, da CNN, em São Paulo

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Uma zapeada na TV ou uma olhada rápida nas redes sociais são suficientes para constatar: no Brasil de 2021, estar identificado com alguma das letras da sigla LGBTQIA+ já não significa, necessariamente, muitos e sofridos anos dentro de um armário de repressão, violência e vergonha. A bandeira multicolorida, além de ostentada como símbolo de luta e militância, hoje ajuda a vender calçados, celulares, roupas e salgadinhos. 

Então, qual o sentido de se falar em orgulho LGBTQIA+ no Brasil de hoje – um país que conta diariamente, aos milhares, as mortes pela Covid-19, onde a pobreza cresce e a política divide?

O Brasil ainda registra índices altos de mortes violentas dessa população. O relatório “Observatório das Mortes Violentas de LGBTI+ no Brasil – 2020”, produzido por pesquisadores do Grupo Gay da Bahia e do grupo Acontece Arte e Política LGBTI+, mostra que nos últimos 20 anos mais de 5 mil pessoas da comunidade foram assassinadas ou se suicidaram por LGBTfobia. 

Hoje, a mera discussão de identidade de gênero é atacada em diversas frentes institucionais. Direitos conquistados depois de décadas de reivindicações são ameaçados. Neste 28 de junho, Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, a CNN discute a relevância e a urgência de tratar das histórias, conquistas e dificuldades dessa comunidade em nosso país. 

Em tempo: L, de lésbicas. G, de gays. B, de bissexuais. T, de trans. Q, de queer. I, de intersexo. A, de assexuais, arromânticas e agêneros. O sinal de mais abrange toda a diversidade que as letras anteriores não tenham alcançado, como pansexuais, não-binários, etc. 

Orgulho é presença

“Pode ter lgbtquzwntc… mas não pode glamourizar a frescura.” O comentário foi uma das centenas de reações a um post da CNN Brasil no Twitter contra um projeto de lei que tentava proibir a veiculação de publicidade com pessoas não-heterossexuais no estado de São Paulo. 

A publicação, na qual a CNN disse acreditar “em um mundo diverso, inclusivo, afirmativo e, sobretudo, justo”, foi feita no dia 23 de abril de 2021, cinco dias antes de o projeto sair da pauta da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp). 

Caracterizar a pauta da diversidade sexual e de gênero como “frescura”, explicaram especialistas ouvidos pela CNN, é uma das formas mais comuns da atualidade de minimizar as demandas do movimento – e tentar transformar em vergonha o orgulho.

Para Debora Baldin, que produz conteúdo sobre política e ativismo LGBTQIA+, ser acusada de fazer “mimimi” é o sintoma de algo bom: os avanços dos últimos anos na sociedade brasileira em direção à normalização dos afetos não heterossexuais acabaram produzindo esse muxoxo do “está tudo muito chato”.

Reduzir ao mimimi uma luta de décadas contra todo tipo de violência pode significar, segundo ela, que “as pessoas se sentem menos à vontade” para constranger indivíduos cuja sexualidade ou identidade de gênero não se encaixem nas expectativas mais conservadoras. 

“Nosso debate já não pode ser ignorado. Ainda que a gente tenha muitos problemas, é uma pauta que não vai mais sumir. É como acontece com o racismo: as pessoas têm que ter uma posição”, avalia a ativista de 28 anos.

Orgulho é dignidade

Antes que o orgulho se opusesse a “frescuras” ou “mimimis”, ele era o oposto de visibilidade. O advogado e ativista de direitos humanos Renan Quinalha lembra que, nos anos 1970, a palavra passou a batizar manifestações civis por direitos básicos da comunidade: reconhecimento da existência e da dignidade de pessoas que até então estavam abrigadas, genericamente, na definição de “gays”. 

Quinalha, coautor do livro “História do Movimento LGBT no Brasil”, explica que a afirmação de outras identidades sexuais que não as heterossexuais ganhou força mundo afora com a contracultura dos anos 1960 e guarda relação com outros movimentos civis de grupos subalternizados, como os movimentos negro e feminista. 

No caso da comunidade LGBTQIA+, a referência histórica é a Revolta de Stonewall, em 1969, quando uma série de motins eclodiu em Nova York como resposta à repressão policial a gays, lésbicas, travestis e outras minorias. A rebelião aconteceu em 28 de junho, que acabou se tornando o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+. “Nem tudo começa em Stonewall, mas muita coisa muda ali”, conta Quinalha. 

Essa revolta demoraria a chegar no Brasil. Enquanto travestis, drag queens, homens gays e mulheres lésbicas manifestavam sua fúria contra a opressão nas ruas de Nova York, o Brasil vivia o auge da repressão da ditadura militar. 

O fim da ditadura, no entanto, não representou grande avanço para as minorias sexuais. Os anos 1980 ficaram marcados pela epidemia de Aids, que deu fôlego extra à violência e à estigmatização da comunidade. 

Foi só nos anos 1990, quando a doença já não causava tanto pânico e quando surgiram no país as primeiras paradas do orgulho gay, que a situação começou a mudar, saindo da patologização da comunidade até drag queens atuando em propagandas no Brasil de 2021. 

Orgulho é liberdade

Ser, com orgulho, o que se é – em qualquer lugar. Para a comunidade LGBTQIA+, esse é um enfrentamento que começa, quase sempre, em casa. No núcleo familiar. Como acontece com tantos pais que descobrem que seus filhos não são heterossexuais, a psicóloga Carol Yumi reagiu muito mal ao ler no diário da filha Giovanna, então com 15 anos, que sua primogênita gostava de ficar com garotas. “Eu me achava uma pessoa livre de preconceitos, mas quando aconteceu em casa, vi que não era. Não conseguia aceitar”, contou.

“Fiquei me questionando onde foi que eu errei. Achei que não tinha educado a Giovanna como deveria, que tinha deixado ela muito livre. Pensei que era falta de Deus e a forcei a frequentar reuniões do espiritismo”, relembra Carol, cinco anos depois do baque. 

Giovanna, de 20 anos, e sua mãe, a psicóloga Carol Yumi
Giovanna, de 20 anos, e sua mãe, a psicóloga Carol Yumi, que hoje faz parte do Mães Pela Diversidade
Foto: Acervo Pessoal

À revelação involuntária de Giovanna seguiram-se meses de choro e estranhamento dentro de casa, conta a garota, que cursa publicidade e se define como bissexual. “Ninguém tocava no assunto, todo mundo fingia que não tinha nada acontecendo. Eu ainda estava me descobrindo, tinha decidido que não ia contar até que eu estivesse em um relacionamento com uma garota”, disse. 

Com o pai, a descoberta rendeu uma discussão constrangedora com a filha e com a ex-esposa, uma tentativa de tirar Giovanna do colégio onde estavam algumas “más companhias” e três meses de silêncio absoluto.

A situação começou a mudar quando Giovanna se apaixonou, engatou um namoro com outra menina e avisou a família. “Eu pensei: ‘pode ser que não aceitem, que eu tenha que lidar com muita coisa, mas eu prefiro falar e lidar com essa situação'”. 

No segundo relacionamento sério com uma menina, Giovanna finalmente experimentou a aceitação familiar que um dia temeu nunca acontecer. As aulas de sexualidade e gênero na faculdade de psicologia que Carol cursava foram determinantes. 

“Aprendi que orgulho é a liberdade de você poder ser quem você é. Hoje eu admiro tanto a coragem da minha filha, por ter ido contra tudo e todos e ter assumido quem ela é. Para mim, foi a oportunidade de refletir melhor sobre a questão”, diz Carol. 

Hoje, ela integra o Mães pela Diversidade, ONG composta por pais e mães de pessoas LGBTQIA+ e que trabalha para “tirar famílias da população LGBTQIA+ do ‘armário’, para que, juntos, possamos gritar mais forte contra o bullying, a opressão, a segregação e a discriminação que sofrem nossos filhos desde crianças”, segundo o site da entidade.

“Entrei para o Mães pela Diversidade para poder contribuir com esse olhar de desconstrução. O que traz sofrimento aos pais é não ter tido acesso à informação, não ter tido uma oportunidade de refletir sobre a questão por um outro ponto de vista”, afirma Carol, que guarda na carteira uma foto da ex-nora, motivo de irritação e riso da filha. 

A avó paterna de Giovanna, no entanto, ainda não percorreu até o fim o caminho do acolhimento. Desde 2018 não conhece o abraço da neta – foi quando se sentiu à vontade para falar sobre seu “nojo” em relação à sexualidade de Giovanna ao comentar uma foto no Facebook da estudante. 

Felizmente, a relação entre Giovanna e o pai tomou o sentido oposto. À semelhança de Carol, hoje ele não se importa em incomodar a filha com perguntas sobre como vai a ex-namorada dela, a quem havia se acostumado a receber em casa nos fins de semana. 

Giovanna se entende uma privilegiada e diz que tem amigas e amigos que não puderam contar com o acolhimento da família, foram vítimas de violência física e expulsos de casa. “Para mim, foi um final feliz, consegui contornar”, diz. “Se deu certo para mim, muitas vezes não está dando certo para alguém. O orgulho, para mim, é estar atrelada ao grupo como um todo, ter amigos que passam por situações terríveis e estar aqui para corrermos juntos.” 

Orgulho é pertencimento

Na cidade de São Paulo, o projeto da Casa1 tornou-se referência no acolhimento de jovens LGBTQIA+ entre 18 e 25 anos que procuram lugar para morar depois que suas casas se tornam ambientes ameaçadores. A acolhida pode durar até quatro meses, período em que os jovens são assistidos em direção à independência. 

De acordo com o organizador da Casa1, Iran Giusti, a procura pelo projeto não vem somente daqueles que foram expulsos de casa após saírem – ou serem arrancados – do armário. Ele explica que muitos jovens acabam deixando suas famílias quando o ambiente doméstico se torna insustentável. Outros são tocados para fora quando perdem um emprego que ajudava a compor a renda familiar. 

O ativista Iran Giusti, organizador do projeto Casa1
O ativista Iran Giusti, organizador do projeto Casa1, que acolhe jovens LGBTQIA+ na cidade de São Paulo
Foto: Divulgação/Casa1

A maior parte dos acolhidos, conta Iran, não retoma o contato com a família durante o período de acolhimento. “Leva um tempo. As tentativas de contato ou de retorno para a família são bem individuais, a grande maioria não trabalha essa frente”. 

O que é muito comum é a tentativa de reconhecer algum elo. Mãe, tia, padrasto, alguém que seja mais aberto. “Trabalhar esse vínculo com essa figura cuja relação ainda existe acaba sendo um ponto importante, enquanto quem vem com relações cortadas com toda a estrutura familiar passa por um processo mais delicado”, explica. 

Para Iran, o orgulho LGBTQIA+ experimentado na Casa1 significa justamente o acolhimento e o senso de pertencimento que falta nas famílias de onde saem os jovens que procuraram o projeto. O ativista explica que “orgulho LGBTQIA+ não é sobre se orgulhar simplesmente de ser um homem gay, por exemplo. É ter uma comunidade, uma cultura, uma linguagem, uma luta”. 

Iran, Debora e Renan defendem que a batalha da comunidade LGBTQIA+ no Brasil se dá, sobretudo, no campo da cultura. Os três falaram sobre como o movimento acabou se tornando alvo de políticos conservadores. Mas Iran ressalta: “no fim das contas, o ódio e a LGBTfobia são uma prática do país, não é uma prática exclusiva de um governo”. 

Nos últimos anos, a comunidade LGBQIA+ do Brasil experimentou algumas conquistas, como o direito à união civil, a criminalização da homofobia e o fim das normas que proibiam homens gays de doar sangue. Todas elas, contudo, produtos de entendimento do Judiciário. Ou seja, os avanços podem ser revertidos caso os magistrados mudem a maneira de ver tais situações.

O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) informou que tem trabalhado em parceria com diversas instituições durante o mês de junho, promovendo webnários e lives, enviando representantes do Departamento de Promoção dos Direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais à Câmara dos Deputados a audiências públicas, fazendo apresentações do Observatório sobre Violência LGBT e realizando visitas técnicas em São Paulo para conhecer projetos de empregabilidade LGBT.

Para o Dia Internacional de Orgulho LGBTQIA+, a pasta diz que “haverá uma oficina de Formação para funcionários do Banco Interamericano de Desenvolvimento”. E, no dia 2 de julho, haverá um webnário sobre Envelhecimento Saudável de Idosos LGBTI em parceria com a Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa (SNPI).

Em nota, o ministério informa que “visando a continuidade das ações que vinham sendo desenvolvidas, o MMFDH manteve toda a estrutura herdada do governo anterior, inclusive a equipe técnica”. Entre as ações prioritárias da pasta, estão o Pacto Nacional de Enfrentamento à Violência LGBTfóbica; a contratação de uma consultoria técnica para realizar o Diagnóstico da População LGBT no Sistema Prisional; a criação, em 2020, do Observatório Nacional de Denúncias de LGBTfobia, a partir do Disque Direitos Humanos; e a reestruturação do Conselho Nacional de Combate à Discriminação.

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