Laurentino Gomes: Números, violência e complexidade da escravidão me surpreendem

Autor fala sobre memória do processo escravista e lições aprendidas na produção do segundo volume da trilogia ‘Escravidão’, que será lançado dia 22

Carga das canoas, de Oscar Pereira da Silva - uma das obras usadas para ilustrar o segundo volume de 'Escravidão'
Carga das canoas, de Oscar Pereira da Silva - uma das obras usadas para ilustrar o segundo volume de 'Escravidão' Foto: Hélio Nobre/José Rosael/Acervo do Museu Paulista

Leda Balbino, colaboração para a CNN

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Durante quase três séculos e meio, o Brasil foi o maior território escravista do hemisfério ocidental. Sozinho, recebeu 40% dos 12,5 milhões de africanos embarcados à força para o continente americano. O auge desse desenraizamento humano ocorreu do início do século 18 até meados do 19. Num intervalo de 150 anos, desembarcaram no país 4 milhões dos 4,9 milhões de africanos enviados ao Brasil desde o século 16.

É principalmente sobre o século 18, início do auge do tráfico negreiro que coincide com a descoberta de pedras e minérios preciosos em território brasileiro, que o jornalista e escritor Laurentino Gomes se debruça no segundo volume da trilogia ‘Escravidão’ (Globo Livros). Com o subtítulo ‘Da corrida do ouro em Minas Gerais até a chegada da corte de dom João ao Brasil’, o livro, será oficialmente lançado na terça-feira (22), com tiragem inicial de 80 mil.

O primeiro volume, que vendeu mais de 300 mil cópias desde 2019 e ganhou o Prêmio Jabuti no ano passado, aborda os 250 primeiros anos dessa tragédia humanitária. As obras são resultado de uma pesquisa que já soma sete anos. Além de ter lido cerca de 200 livros brasileiros e estrangeiros, Gomes fez pesquisa de campo em viagens à África, América e Europa. A investigação de fôlego o fez entender em profundidade não somente a raiz da desigualdade brasileira, mas também o despiu de preconceitos.

“Achava besteira ter que dizer escravizado e não escravo, não poder falar mulato”, disse à CNN. “Mas, ao mergulhar na bibliografia, ao conversar com pessoas negras, percebi que não era apenas um posicionamento político. Havia ali dores acumuladas e que se refletem no vocabulário.” Para Gomes, os debates crescentes sobre o legado da escravidão e sobre racismo se devem à redemocratização, que acabou com um Brasil de faz de conta.

O terceiro volume, que vai abordar o movimento abolicionista no Brasil e a Lei Áurea, está previsto para o ano que vem. Além disso, ele também planeja uma edição juvenil de volume único em 2023. No dia 9 de julho, Gomes participa do CNN Nosso Mundo. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

CNN Brasil – Quais aspectos da pesquisa mais te surpreenderam? 

Laurentino Gomes – Primeiro, os números. Foram 12,5 milhões de pessoas embarcadas nos navios negreiros – toda a população atual da cidade de São Paulo. Delas, 1,8 milhão morreu na travessia do Atlântico. Se somarmos a mortalidade no próprio continente africano, entre a zona de captura e sequestro e o litoral, e depois os três primeiros anos no Brasil, só um de cada dois sobrevivia. Depois, a violência. Entrei na pesquisa com essa ideia de que a escravidão brasileira era patriarcal e boazinha, muito influenciado pelo Gilberto Freyre. Mas quando se vai no detalhe…

Havia africanos que chegavam ao Brasil com cinco marcas de ferro quente. Quando se leem os anúncios de jornais sobre fugitivos, compra e venda de pessoas no século 19, as descrições mostram um massacre. Por último, a complexidade do escravismo.

Laurentino Gomes

 

Em que sentido?

Por exemplo, no século 18 e depois 19, a escravidão se tornou algo tão banal, rotineira e aceita, que mesmo pessoas que conseguiam alforria e juntavam uma poupança, compravam escravos. O exemplo mais famoso é o de Chica da Silva, que nasceu escrava, teve 11 filhos com o contratador de diamantes João Fernandes e, quando ele morreu, também teve escravos. Essa complexidade e o fato de que a resistência não estava apenas na fuga, na rebelião armada, mas em formas sutis de colaboração com o sistema em busca de alguma vantagem, de um espaço de sobrevivência, me surpreenderam bastante.

No primeiro volume, o senhor compara Brasil e Estados Unidos, mostrando que aqui se alforriava mais e a expectativa de vida dos escravos era menor. A explicação para isso está no segundo volume?

No capítulo ‘O Sonho’, falo que o escravo no Brasil lutou, sempre que possível, para alcançar a liberdade, trabalhando mais horas, contrabandeando ouro, fazendo serviços extras, vendendo a produção do quintal da senzala na feira de domingo, aliando-se a seus senhores, lutando guerras civis entre os brancos. E, quando isso não deu certo, lutou, rebelou-se, fugiu, formou quilombos. Agora, nos EUA a alforria era praticamente impossível, e como lá acabaram com o tráfico negreiro em 1807, os senhores de escravo perceberam que ou cuidavam deles ou não teriam mão de obra escravizada. Assim, embora os EUA tenham importado um pouco mais de 500 mil africanos, na Guerra da Secessão (1861-1985) já eram 4 milhões. O Brasil foi o contrário: importou 4,9 milhões e, na Lei Áurea, eram apenas 700 mil.

O tratamento aos escravos era diferente, então?

O tráfico negreiro era tão industrial e volumoso que no Brasil era mais prático repor o escravo por meio da compra do que lhe dando boas condições de vida.

 

Outro aspecto é que aqui existia um mecanismo muito bem elaborado de punição e recompensa, que fazia com que os escravos de certa forma “ajudassem” a preservar o sistema. A possibilidade de cultivar uma horta, formar ou não famílias, comprar ou não a própria alforria, participar de irmandades religiosas que permitissem a integração no universo do branco, de adquirir um certo status social.

O senhor fala sobre os cuidados que tomou para evitar o uso de vocábulos de conotação pejorativa e racista. Já tinha isso em mente antes de escrevê-los ou foi algo que aprendeu no processo?

Confesso que entrei nessa trilogia, lá atrás, repleto de preconceitos.

Achava besteira ter que dizer escravizado e não escravo, não poder falar mulato, não pode usar o verbo denegrir. No fundo achava que era “mimimi”, expressão horrorosa que se usa nas redes sociais.

 

Se o objetivo é se comunicar livremente e as pessoas entenderem, vou falar escravo, mulato, denegrir e pronto. Mas, ao mergulhar na bibliografia, ao conversar com pessoas negras, ao observar o que diziam, percebi que não era melindre, não era apenas um posicionamento político. Havia ali dores acumuladas e que se refletem no vocabulário. Num ambiente de democracia, essa discussão se tornou tão intensa ao ponto de afetar o vocabulário. Estamos discutindo detalhes do problema, não mais o jogando debaixo do tapete. Agora, para um escritor e jornalista, isso é um desafio enorme, porque estamos tratando de signos da linguagem que foram usados e compreendidos pela imensa maioria dos brasileiros durante séculos. Toda vez que topava com alguma dessas palavras, parava: “E agora?” Trilhei com as pontas dos pés, mas sem perder a naturalidade. Usei sempre que necessário escravo, sempre que possível escravizado, sempre que apareceu na documentação histórica, grafei mulato. Mas toda vez que não estava na documentação histórica, preferi mestiço. Tentei com muito esforço e honestidade fugir de vocábulos que são obviamente racistas, mas que estão tão entranhados na nossa cultura que é muito difícil fazer uma linguagem asséptica do racismo.

Laurentino Gomes, autor do livro "Escravidão"
Laurentino Gomes, autor do livro “Escravidão”
Foto: Vilma Slomp/GloboLivros

Nesse sentido, como é abordar esse tema como autor branco quando, no contexto atual, tanto se discute o “lugar de fala”?

A história do Brasil e a história da escravidão são contadas majoritariamente por brancos. Quanto a isso não há dúvida, até porque somente 8% dos livros publicados no Brasil são de autores negros. Agora, tem gente muito boa como Clóvis Moura, Abdias do Nascimento, que uso como referência, especialmente no segundo e no terceiro volumes. Seria uma ilusão minha tentar preencher cotas bibliográficas, porque provavelmente desprezaria fontes como Luiz Felipe de Alencastro, Gilberto Freyre, João José Reis, e não teria número suficiente de produção acadêmica negra para equilibrar isso. O que fiz foi ter um olhar atento. Olhar as diferenças de visões, de interpretações. O lugar de fala não é exclusividade de narrativa, de interpretação, mas a atenção em relação ao que o outro fala. Quando o negro brasileiro reivindica lugar de fala, não acredito que esteja reivindicando exclusividade. Reivindica o direito de ser ouvido. Ter uma narrativa, uma interpretação da história diferente da que predominou até agora. O que me conforta é que a acolhida dos livros foi a melhor possível na população afrodescendente até agora. Isso é muito recompensador.

Mesmo quando põe em xeque personagens como Zumbi, como fez no primeiro volume?

A escravidão é muito complexa. Não permite uma interpretação simplista. Esses personagens históricos são âncoras de identidade: as lançamos no passado para tentar entender nossa identidade de hoje. Por isso construí o capítulo sobre Zumbi não propriamente sobre quem de fato foi Zumbi, até porque isso seria impossível, a documentação é muito difusa. Existem dúvidas até se existiu um ser humano chamado Zumbi, talvez fosse uma nomenclatura militar, teriam existido vários e o último morreu em 20 de novembro de 1695. O que me encantou foi essa mudança na construção do mito. É por isso que uso o livro ‘Três Vezes Zumbi’, de Jean Marcel França. Zumbi vai mudando de formato, de roupa, de imagem ao longo da história. E essa construção recente dele tem muito a ver com as lutas sociais do século 20. Zumbi emerge como herói dos trabalhadores, dos excluídos. Há a visão de que existiram assembleias populares em Palmares, que era um ideal socialista. Ou a ideia de que Zumbi foi um abolicionista, um anacronismo, porque o abolicionismo só surgiria depois na Inglaterra e nos EUA. O que procuro fazer é jogar luz sobre diferentes aspectos e deixar que as pessoas cheguem às suas conclusões.

 

No livro, o senhor aborda que a vinda ao Brasil forçou a população escravizada a se transformar, mas também mudou o país. 

A questão da identidade revela um dos aspectos mais fascinantes do ser humano, que é a impossibilidade de matá-la. Existe um estudo clássico sobre a escravidão africana na América, de Orlando Patterson, que fala da morte social do escravo. A primeira etapa do processo de escravização é matar socialmente o escravo, dando-lhe um novo nome, marcando com ferro quente para dizer quem era seu proprietário, arrancando de suas raízes culturais e jogando num universo que lhe era até então estranho. O que Patterson não elabora bem, mas fica claro, é que há um processo de morte e de ressureição dessa identidade. Por isso, falo dessas Áfricas que emergem no Brasil e no Novo Mundo e que mesclam elementos africanos, mas não são mais a África original como também não são a identidade do colonizador português. É algo novo. Mas, sem dúvida alguma, há um esforço de apagamento. O maior território escravista do hemisfério ocidental, que é o Brasil, nunca teve um grande museu nacional da escravidão.

Fête de Ste. Rosalie, patrone des négres
Fête de Ste. Rosalie, patrone des négres, Louis-Jules-Frédéric Villeneuve a partir de Rugendas, Johann Moritz, 1802-1858. Viagem pitoresca
Foto: Acervo da Fundação Biblioteca Nacional – Brasil

Como avalia o esforço atual de apagamento por meio de discursos negacionistas na internet, principalmente redes sociais?

É importante lembrar que a história é ferramenta de construção de identidade. Olhando o passado procuramos entender o presente e construir o futuro. Essa identidade tem uma dimensão real, de fatos e personagens que existiram, mas também tem uma dimensão mitológica, que é imposta pelas diferentes correntes ideológicas. Por isso a história é tão sujeita à manipulação por partidos políticos, de governo ou oposição, porque é com base nessa identidade construída que as pessoas tomam decisões a respeito do futuro. Não surpreende o fato de que escravidão, que teoricamente acabou lá em 1888, esteja presente nas redes sociais. Palavras do então candidato Jair Bolsonaro, em 2018, afirmando que os portugueses nem entravam na África e quem escravizava eram os próprios africanos, renderam voto, colocaram no poder um projeto político que está em andamento e tenta se perpetuar nas redes sociais. Mas acho que tem a beleza da democracia. Ela não permite que uma narrativa única se consolide. E, à medida que esse projeto de poder é erodido pelas próprias contradições, essa narrativa também perde legitimidade.

No longo prazo, a memória e o legado da escravidão vão ser provavelmente o que de fato são: o que está nos documentos, nas estatísticas, nos indicadores sociais, nos livros de história.

 

Há o negacionismo, mas também um reconhecimento crescente de intelectuais negros, como Djamila Ribeiro e Silvio Almeida, e de obras abordando o tema racismo e escravidão. O que isso indica?

Até a redemocratização, vivemos num país de faz de conta. Um Brasil que procurava impor determinados traços da identidade nacional, como caracterizar o povo brasileiro como pacífico, que nunca se rebelou, sempre aceitou tudo de forma pacata, mito criado durante o Segundo Império (1840-1889). E hoje, quando você olha as estatísticas, o Brasil é um dos países mais violentos do mundo, e a população negra é majoritariamente a vítima. Esse Brasil de faz de conta não fica de pé. Uma das coisas mais importantes a fazer na democracia é justamente reconstruir nossa identidade. Quem somos de fato? Quem fingíamos ser e não somos? Quem gostaríamos de ser? E aí a questão racial, que sempre foi escamoteada, está vindo à tona. Quando se pega a lista dos best-sellers, há vários livros sobre esse assunto. Você citou duas pessoas que respeito muito, Djamila Ribeiro e Silvio Almeida, há meus livros, não é por acaso. Nós estamos admitindo a ideia de que temos uma questão racial grave, que está matando pessoas, que deixa milhões na pobreza, sem oportunidades. É como se fosse uma semente brotando do solo da democracia brasileira e que tem de ser regada diariamente, para não voltamos ao Brasil de faz de conta.

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