Pandemia agravou problemas estruturais nas favelas do Rio, aponta pesquisa

À CNN Rádio, Aristenio Gomes, do coletivo Movimentos, destacou que isolamento social, por exemplo, foi ‘privilégio de poucos’

Complexo da Maré, na zona norte do Rio, foi uma das áreas estudadas
Complexo da Maré, na zona norte do Rio, foi uma das áreas estudadas ESTADÃO CONTEÚDO

Amanda Garciada CNN*

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Uma pesquisa realizada pelo coletivo Movimentos detalhou dados sobre a situação dos moradores da Cidade de Deus e complexos do Alemão e Maré, no Rio de Janeiro, durante a pandemia.

O estudo, batizado de “Coronavírus nas Favelas: Desigualdade e Racismo sem Máscaras”, escancarou “problemas estruturais que estão presentes desde antes da pandemia, mas que foram acentuados por ela”, de acordo com Aristenio Gomes, coordenador do Movimento CPX da Maré.

Em entrevista à CNN Rádio nesta terça-feira (28), ele chamou a atenção para alguns dos dados. Nada menos que 74% das pessoas que responderam ao levantamento disseram que perderam seus empregos durante a pandemia. “Elas ficaram sem recursos, é um dado chocante”, afirmou.

Paralelamente, 37% relataram que não conseguiram atendimento médico em unidades públicas de saúde, tanto por estarem lotadas, quanto por sucateamento.

A pesquisa, que abordou aspectos da violência, saúde e economia, de acordo com Aristenio, revelou “problemas rotineiros, que são do dia a dia” em todos esses eixos, mas que “são violações de direitos básicos e não chegam para muitos moradores da favela do Rio de Janeiro.”

“A gente percebe, durante o período crítico da pandemia, que fazer isolamento foi privilégio para parte da sociedade, desempregados ou informais tiveram que continuar nas ruas, oferecendo serviços gerais e não conseguiram ficar em casa, estiveram mais expostos e muitos faleceram”, exemplificou.

Aristenio analisa que o fato da primeira pessoa que morreu de covid-19 ter sido uma mulher negra e doméstica “revela o diagnóstico da situação” desfavorável.

O coordenador do movimento CPX também reforçou um aspecto que, segundo ele, não é muito discutido: a saúde mental. “A população preta e favelada é a que mais sofre violência, não só policial, mas em todos os âmbitos, é a que estará à margem, isso gera depressão, ansiedade, e não tem assistência.”

A maioria (63%) daqueles que sofreram racismo na pandemia apresentaram algum nível de depressão.

Doações

Segundo Aristenio Gomes, houve muita ajuda do setor privado e de organizações não-governamentais para auxiliar a população das comunidades durante a pandemia.

“Deveria ser o dever do Estado de evitar a fome, mas foi exercido por organizações privadas para amenizar o impacto, foi enorme o número”, contou,

No entanto, ele alerta que percebe “diminuição dramática” das doações desde que começou a “sensação de que a pandemia foi amenizada, com menor número de mortos, vacinação avançando, isso gerou desmobilização.”

“A favela continua organizada para a doação de cestas, é possível que as pessoas estejam piores, a situação ainda é muito grave”, acrescentou.

*Com produção de Bel Campos

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