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    Polícia do MS descobre esquema de manutenção clandestina de aeronaves

    Em cinco anos de atuação, a Operação Ícaro já apreendeu 50 aviões e helicópteros em todo o estado do Mato Grosso do Sul

    Evandro Cini, José Brito e Luiz Fernando Toledo,

    da CNN, em São Paulo

    Em agosto de 2015, o proprietário de uma oficina homologada de aeronaves, no Aeroporto Santa Maria, em Campo Grande (MS), denunciou à Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Deco) — órgão da Polícia Civil no estado —, que peças de hélices tinham sido furtadas de seu depósito. A partir da investigação do crime, a polícia descobriu que esses itens estavam sendo utilizados em uma oficina clandestina, sem autorização legal para funcionamento. Um verdadeiro ferro-velho de peças adulteradas.

    A investigação revelou um esquema em que aeronaves eram entregues para serviços em uma oficina regular, mas que o trabalho era terceirizado a outra sem autorização. No linguajar técnico, chama-se esta ação ilegal de Manutenção Aeronáutica Clandestina (Maca). Para os clientes, o diferencial era pagar muito mais barato do que na manutenção correta, assim como também acontece com o Transporte Aéreo Clandestino (Taca, como é conhecido o voo pirata). O achado deu pistas valiosas para que a corporação encontrasse uma vasta rede criminosa.

    Este tipo de operação no Mato Grosso do Sul é pioneira no país. A CNN entrou em contato com a Polícia Civil em todos os estados brasileiros, questionando se houve nos últimos cinco anos qualquer operação contra a Maca. Só o Mato Grosso do Sul confirmou ações do tipo.

    Leia todas as reportagens desta série sobre voos piratas:
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    “Nós não tínhamos noção, enquanto polícia judiciária. Nós não tínhamos noção, enquanto comandantes de aeronave, principalmente em forças de segurança pública. Nós não tínhamos noção enquanto agência reguladora da aviação civil. Foi um susto”, revela a delegada Ana Cláudia Medina, da Deco, que diante desse cenário inédito, criou a primeira equipe de policiais civis especializados em investigar crimes aeronáuticos no Brasil.

    Além da Maca, outras irregularidades passaram a entrar no radar da delegada Medina e de sua equipe, como atentado à segurança de voo, comercialização ilegal de combustível aeronáutico, enriquecimento ilícito por meio de crimes contra a ordem tributária e transporte aéreo clandestino.

    Peças de aeronaves destruídas em Dourados (MS)
    Peças de aeronaves destruídas em Dourados (MS), em março de 2018
    Foto: Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Deco)

    Em cinco anos de atuação, a Operação Ícaro já apreendeu 50 aviões e helicópteros em todo o estado do Mato Grosso do Sul. “Nós nos deparamos com um verdadeiro ferro-velho de peças que vinham sendo armazenadas e vulgarmente transformadas com o uso de lixas, com adulteração de sinal identificador e uma lata de tinta. E aquilo que já era condenado, que não podia ser reutilizado, nós tínhamos inserido em aeronaves”, revela Medina.

    “Nós temos aqui R$ 5 milhões em peças que foram retiradas de oficinas clandestinas, recolhidas de sinistro e que não foram informadas, que estavam escondidas dentro de residências. Nós temos, inclusive, peças que estavam dentro de oficinas homologadas, mas que também tinham fraude na sua manutenção e documentação”, diz a delegada.