Polícia investiga caso de discriminação racial e homofobia dentro de igreja

”Para de ficar postando coisa de gente preta, de gay”, diz mulher durante discurso

Foto: Reprodução/Redes sociais

Cleber Rodrigues, da CNN, no Rio de Janeiro

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 A Polícia Civil abriu inquérito para apurar um caso de discriminação racial e homofóbica durante uma pregação na Igreja Sara Nossa Terra em Nova Friburgo, Região Serrana do Rio. No vídeo que circula nas redes sociais, Karol Cordeiro, membro da igreja, pede para que as pessoas deixem de fazer postagens sobre temas raciais e ligados à causa LGBTQIA+, momento em que ela utiliza as expressões que são alvos da investigação. 

“É um absurdo pessoas cristãs levantando bandeiras políticas, bandeiras de pessoas pretas, bandeiras de LGBTQIA+, sei lá quantos símbolos tem isso aí. É uma vergonha, desculpa falar, mas chega de mentiras, eu não vou viver mais de mentiras. É uma vergonha. A nossa bandeira é Jeová Nissi. É Jesus Cristo. Ele é a nossa bandeira. Para de querer ficar postando coisa de gente preta, de gay, para! Posta palavra de Deus que transforma vidas. Vira crente, se transforma, se converta!”, diz Karol em um trecho de sua pregação. 

 Após tomar ciência do vídeo, a 151ª DP em Friburgo decidiu abrir um inquérito. De acordo com o delegado Henrique Pessoa, o vídeo indica a prática dos crimes de discriminação racial e homofobia. 

“Ali tem um teor claramente racista e homofóbico, o que configura transgressão típica. De tal modo que a pena é de três a cinco anos, com circunstâncias qualificadoras por ter sido feito em mídias sociais e através da imprensa”, explicou Pessoa. 

Ainda segundo o delegado, a mulher prestará seu depoimento na quinta-feira (05), às 10h. 

*Fala gerou indignação entre autoridades e movimentos em defesa da igualdade *

Em nota de repúdio, o Coletivo Negro Lélia Gonzalez NF lamentou as expressões usadas na pregação e afirmou que o discurso alimenta o ódio. 

“Ao se colocar de forma superior, ofende nossa população, concorda com extermínio da juventude negra assim como as operações em territórios periféricos e favelados resultando em chacinas, normaliza desaparecimento de nossas crianças, naturaliza o feminicídio que  incidente nas mulheres negras cis e trans, o primeiro lugar de morte de mulheres trans e travestis no Brasil, nosso encarceramento em massa nas senzalas modernas, aceita a política de genocídio através da pandemia e não o seu combate e prevenção”, diz trecho da nota. 

O deputado estadual Wanderson Nogueira (PDT) também fez uma postagem condenando o comportamento. 

“Tenho certeza que esse não é o pensamento cristão. Machuca ouvir”, disse o político.

Primeira mulher negra eleita na Câmara de Vereadores de Nova Friburgo, Maiara Felício (PT) discursou sobre o tema na sessão ordinária desta terça-feira (03/08).

“Infelizmente a gente tem que ver nas redes sociais e na televisão uma pessoa que se diz pregadora, disseminando o ódio. No lugar que a gente espera que tenha acolhimento e amor”, lamenta, Maiara.

A defesa de Karla Cordeiro afirmou que sua cliente não teve a intenção de ofender ninguém. 

“Ela vai se apresentar à delegacia de polícia, vai prestar os esclarecimentos necessários para explicar toda essa confusão ocorrida e que não era a intenção dela”, disse o advogado Paulo Donin.

A CNN não conseguiu contato com a Igreja Sara Nossa Terra para comentar o ocorrido.

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