Rio: 67% de trans e travestis já sofreram violência, aponta pesquisa inédita

Rio de Janeiro foi uma das 18 cidades do mundo escolhidas para executar programa de promoção à saúde dessa população financiado pela OMS

Bandeira do Orgulho Trans.
Bandeira do Orgulho Trans. Wikimedia Commons

Filipe Brasilda CNN

Rio de Janeiro

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Uma pesquisa realizada pela prefeitura do Rio mostra que 67% das pessoas trans e travestis cariocas já sofreram algum tipo de violência pelo fato de serem transexuais. O levantamento foi realizado com financiamento do projeto “Parceria para Cidades Saudáveis: Reposta para a Covid-19”, liderado pela organização sem fins lucrativos Bloomberg Philantropies e a organização Vital Strategies, em parceria com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

A capital fluminense foi uma das 18 cidades do mundo selecionadas para participar do programa.

A Prefeitura do Rio entrevistou 526 pessoas trans e travestis entre julho e outubro de 2021. O levantamento incluiu perguntas sobre a realidade socioeconômica, a escolaridade e o acesso ao mercado formal de trabalho por essa população.

Segundo o levantamento, 83% das pessoas entrevistadas sofreram violência dentro da escola. Dessas, 17% apontaram os próprios professores como agressores. Esse foi o fator que fez com que 29% das participantes deixassem os estudos. Já no momento de entrar no mercado de trabalho, 71% disse que sofreu preconceito durante entrevistas de emprego.

Sobre a situação socioeconômica, uma em cada três disse que faz apenas uma refeição por dia ou menos. Além disso, 43% das participantes relataram ter parado de estudar por falta de dinheiro. A pesquisa mostrou ainda que 60% delas têm renda incerta ou insuficiente.

De acordo com Associação Nacional de Travestis e Transexuais, essa situação se repete em todo o Brasil.

“O lançamento desses dados que evidenciam a ausência de políticas públicas para a população trans é muito importante porque revela coisas que nós sempre falamos em rodas de conversa, nas universidades, na rua e em diversos debates. É muito importante que eles venham à tona, porque consolidam demandas para que a gente adquira políticas públicas para nosso povo trans carioca”, afirma Wescla Vasconcelos, representante da Associação no Rio de Janeiro.

Ela também falou sobre as dificuldades que essa população tem no dia a dia. “As pessoas trans têm seus direitos negados, muitas são expulsas de casa, não têm condições de terminar os estudos. Educação, saúde, justiça, direito de mudar o nome, coisas que deveriam ser básicas, são negadas por conta da discriminação”, completa.

Escolha do Rio para o programa

O Rio de Janeiro foi uma das cidades selecionadas em todo o mundo para executar o programa de promoção à saúde da população trans e travesti. Segundo a Secretaria Municipal de Governo e Integridade Pública (Segovi), o município foi escolhido por meio de um edital lançado pela Bloomberg Philantropies para as 70 cidades que participam da Parceria para Cidades Sustentáveis.

As entrevistas foram realizadas no âmbito do projeto Garupa, lançado pela prefeitura em julho de 2021 com objetivo de diminuir os impactos da Covid-19 e facilitar o acesso ao sistema de saúde para população trans e travesti.

“A população trans é a mais invisibilizada e para termos políticas públicas precisamos de dados. O Projeto Garupa nasce da necessidade de chegar especialmente à população em situação de exclusão de seus direitos fundamentais e desconstruir a barreira de acesso aos serviços do poder público”, explica o coordenador executivo da Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio, Carlos Tufvesson.

O projeto ofereceu acompanhamento para vacinação contra a Covid-19 e orientação sobre os serviços de saúde municipais. Ao todo, 723 pessoas trans e travestis foram atendidas pelo programa na primeira etapa. A segunda está prevista para ser lançada ainda no primeiro semestre deste ano.

A execução foi feita pela Secretaria Municipal de Governo e Integridade Pública (Segovi), por meio da Coordenadoria Executiva da Diversidade Sexual, em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde e a Coordenadoria-Geral de Relações Internacionais e Cooperação.

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