RJ: 3,7 milhões vivem em áreas controladas por criminosos e pagam mais caro no gás

Levantamento feito pela CNN, com base em dados do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (GENI/UFF), mostra que essas pessoas podem pagar até 30% mais caro pelo produto por imposição de milicianos e traficantes de drogas

Maria MazzeiLucas Janoneda CNN

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Pressionado pela alta do dólar e pelos consecutivos reajustes da Petrobras, o preço médio de revenda do botijão de 13 kg do gás GLP, mais conhecido como gás de cozinha é de R$ 89,48. No entanto, para 57,1% da população carioca, ou seja, 3,7 milhões de pessoas que vivem em favelas e bairros controlados por algum grupo criminoso – milícia e tráfico de drogas -, esse valor, reajustado pela estatal do Rio, pesa ainda mais no orçamento.

Levantamento feito pela CNN, com base em dados do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (GENI/UFF), mostra que essas pessoas podem pagar até 30% mais caro pelo produto por imposição de milicianos e traficantes de drogas.

“O mercado do gás é um tradicional negócio da milícia. O morador dessa área sequer cogita comprar o gás fora do perímetro e das empresas determinadas pela milícia. Existe um monopólio e é complexo afirmar a vinculação com os comerciantes. Muitas vezes, essa pessoa está ali trabalhando e não é integrante da milícia, mas se tem um comerciante que atua numa área de milícia, ele é obrigado a pagar a taxa de segurança. E por outro lado recebe o “benefício” desse grupo paramilitar, que obriga o morador a comprar o produto com esse mesmo comerciante”.

“O que a milícia faz é um modelo de monopólio e ao mesmo tempo de extorsão. O que verificamos é que o tráfico também passou a explorar esse serviço, mas de uma forma mais tímida”, explicou o pesquisador Daniel Hirata, do Núcleo de Estudos de Cidadania, Conflito e Violência Urbana (NECVU-UFRJ) e professor de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF).

O levantamento produzido pela CNN aponta que os moradores da Ilha do Governador, Zona Norte da capital, pagam, em média, R$ 120 por um botijão de gás de cozinha. Em comunidades da mesma região o valor vai de R$ 100 à R$ 110, incluindo a taxa de entrega.

Já no complexo da Maré, favela dominada por uma facção de traficantes de drogas, o preço do botijão varia entre R$ 100 e R$ 120. Na Zona Sul o valor médio pago por moradores das comunidades que exploram a venda do gás de cozinha é R$ 115. O valor mais caro é na Zona Oeste, onde a maioria das comunidades e bairros estão sob o domínio da milícia. Em certas regiões o botijão cheio pode chegar a R$ 130, com a taxa de entrega.

Em algumas favelas dominadas pelo tráfico, não existe uma imposição explícita dos criminosos para comprar nas distribuidoras que funcionam dentro dessas comunidades. No entanto, os moradores esbarram em questões de logística, acesso e segurança porque os depósitos mais afastados ou que ficam fora dessas comunidades, por uma questão de segurança para os funcionários, optam por não entregar nessas favelas.

Resta ao morador carregar o botijão e percorrer uma distância a pé ou se submeter a pagar o valor mais caro cobrada na favela.

“O morador não é obrigado a comprar nos depósitos da comunidade, mas por questões de segurança, os depósitos da pista (fora da comunidade) não entregam na favela. Se o morador quiser ir comprar lá, pode, mas é mais longe e tem que carregar no braço. Então, de certa forma, acabamos pagando mais caro, mesmo sem condições. Fazer o que?”, contou uma moradora de uma comunidade na Ilha do Governador.

De acordo com pesquisa do GENI/UFF, da plataforma do Fogo Cruzado, do Núcleo de Estudos da Violência da USP e do Disque-Denúncia, as milicias que atuam no Rio controlam 25,5% dos bairros da cidade, o que corresponde a 57,5% do território da cidade. As três principais facções do tráfico de drogas dominam 34,2% dos bairros ou 15,4% do território.

Esses dados fazem parte de um estudo de 2019 e, até o momento, é o retrato mais recente dos grupos armados que atuam no Rio. A pesquisa considerou dados do Censo de 2010, que indicou 6,3 milhões de habitantes no Rio. A projeção para 2020 – quando aconteceria outro Censo, inviabilizado devido à pandemia da Covid-19 – era de 6,7 milhões de habitantes. O Instituto Pereira Passos (IPP), da prefeitura do Rio, mapeou 1.074 favelas na cidade atualmente.

A pesquisa do GENI/UFF mapeou de forma detalhada a distribuição territorial da milícia e do tráfico de drogas no Rio. De acordo com o levantamento, as facções criminosas do tráfico de drogas são mais antigas e ocuparam áreas mais centrais e fragmentadas dessas regiões no Rio de Janeiro. Já as milícias, ocupam áreas muito populosas, que estão no limite da expansão urbana entre a cidade e a região metropolitana e são movimentos mais recente, no começo dos anos 2000.

Para Daniel Hirata é necessário e urgente pensar formas diferentes de combater a milícia. “Temos que pensar em formas regulatórias e de fiscalização. Operação polícia simplesmente não tem sido eficiente para combater a milícia”, diz.

“O modelo de negócio da milícia se estrutura em modelos legais e em manipular esse mercado legal de forma ilegal e ameaçando, usando da violência, praticando lavagem de dinheiro e extorquindo comerciantes e moradores. Temos que fiscalizar a construção irregular, a grilagem, a abertura de empresas. O que precisa ser feito é impedir que a milícia continue a se expandir e usando meios legais”, completa o pesquisador.

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