Justiça decide que Marinha terá que indenizar filho de João Cândido
União é condenada a pagar R$ 300 mil por ofensas à memória do líder da Revolta da Chibata; decisão reconhece dano moral reflexo a descendente direto

A Justiça Federal condenou a União ao pagamento de uma indenização de R$ 300 mil por danos morais ao filho de João Cândido Felisberto, conhecido como o "Almirante Negro".
A sentença, proferida pela 4ª Vara Federal do Rio de Janeiro, fundamenta-se em manifestações oficiais da Marinha do Brasil consideradas ofensivas à honra e à memória do líder da Revolta da Chibata.
O processo teve origem em um documento encaminhado pela Marinha à Câmara dos Deputados em 2024. No texto, a instituição classificou o movimento de 1910 como uma "deplorável página da história nacional" e utilizou termos que desqualificavam seus participantes.
A decisão judicial destacou que, embora a Força Naval tenha liberdade para apresentar interpretações históricas, tal prerrogativa não permite o uso de linguagem estigmatizante contra um personagem que já foi anistiado pelo próprio Estado brasileiro.
O Código Civil Brasileiro, em seu Artigo 12, resguarda o direito de exigir que cesse lesão a direito da personalidade, estendendo aos descendentes a legitimidade para buscar reparação em nome de parentes falecidos.
Acolhimento parcial e anistia
A sentença seguiu o parecer do Ministério Público Federal (MPF), que atuou como fiscal da ordem jurídica e defendeu a preservação da memória de João Cândido como parte do patrimônio histórico-cultural do país.
Para o MPF, a imagem do marinheiro está intrinsecamente ligada à luta contra castigos físicos e ao racismo estrutural na caserna.
Contudo, a Justiça acolheu os pedidos apenas de forma parcial. Foram negados os pleitos relativos aos efeitos econômicos e financeiros da anistia concedida em 2008, como promoções retroativas, contagem de tempo de serviço e pensões militares.
O entendimento foi de que tais pretensões já estavam prescritas ou esbarravam em restrições da Lei nº 11.756/2008, que anistiou os revoltosos, mas teve vetados os dispositivos de reparação financeira.
Importância histórica
A Revolta da Chibata, ocorrida em 1910, foi um levante de marinheiros contra os floguinhos e punições corporais impostos pela hierarquia da época.
A condenação da União reforça a jurisprudência sobre a responsabilidade civil do Estado em casos de danos à honra de figuras históricas e o direito de seus sucessores à compensação pecuniária por atos ilícitos cometidos pela administração pública.
Em nota, a Marinha do Brasil informou que não se manifesta sobre casos discutidos pela via judicial. Além disso, ressaltou que pauta sua conduta pela fiel observância da legislação.


