Polícia aponta elo com PCC em estrutura nacional do Comando Vermelho

Operação deflagrada no RJ aponta estrutura de cartel da facção, com conselhos de comando, articulação interestadual e indícios de cooperação entre organizações criminosa

Camille Barbosa e Cleber Rodrigues, da CNN Brasil, no Rio de Janeiro
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A Polícia Civil do Rio de Janeiro identificou indícios de cooperação entre o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) em um projeto de expansão nacional da facção carioca.

A informação consta nas investigações da Operação Contenção Red Legacy, deflagrada nesta quarta-feira (11). De acordo com a polícia, o grupo atua com estrutura semelhante à de um cartel, com divisão territorial, conselhos de comando e articulação entre criminosos em diversos estados.

Segundo a DCOC-LD (Delegacia de Combate ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro), responsável pela investigação, o Comando Vermelho mantém um conselho nacional permanente responsável por decisões estratégicas e conselhos regionais que executam determinações nas áreas dominadas. A apuração também aponta articulação com outras facções do país, incluindo indícios de cooperação com o PCC.

Durante coletiva de imprensa, o secretário de Polícia Civil do Rio, Felipe Curi, afirmou que o grupo ampliou sua atuação nos últimos anos.

“O Comando Vermelho hoje não é mais um grupo criminoso somente traficante de drogas. O Comando Vermelho hoje age num esquema de cartel com atuação nacional e transnacional”, afirmou.

Segundo Curi, a investigação também reuniu provas de alianças com outras organizações criminosas. “Temos provas disso na investigação: o Comando Vermelho se aliou ao PCC e também a diversas outras facções criminosas atuantes em todo o país”, disse.

O secretário afirmou ainda que o modelo de atuação da organização inclui esquemas complexos de financiamento e lavagem de dinheiro. De acordo com ele, diferentes fases da Operação Contenção já resultaram no bloqueio de cerca de R$ 15 bilhões ligados à facção.

“Isso não é movimentação de uma simples facção criminosa. O esquema que envolve essa organização é muito mais complexo e envolve políticos, maus agentes públicos e uma teia criminosa muito grande”, afirmou.

Curi também classificou a organização como um grupo de caráter “narcoterrorista” e disse que o tipo de armamento e tática utilizados pelos criminosos ultrapassa o padrão do crime organizado tradicional.

“Eles utilizam armamentos que muitas vezes as polícias não podem usar, como fuzis .50 e .30, granadas e drones que lançam explosivos. O que enfrentamos hoje no Rio de Janeiro já é uma questão de segurança nacional”, declarou.

Estrutura e liderança

De acordo com os investigadores, mesmo após quase três décadas no sistema prisional, Márcio dos Santos Nepomuceno, conhecido como Marcinho VP, continua exercendo influência na estrutura de comando da facção, apontado como integrante do chamado conselho federal permanente do grupo.

A investigação também identificou outros integrantes com funções estratégicas na organização. Entre eles estão Edgar Alves de Andrade, o Doca, apontado como principal liderança nas ruas; Luciano Martiniano da Silva, o Pezão, responsável pela gestão financeira; e Carlos da Costa Neves, o Gardenal, apontado como operador de determinações da cúpula.

As apurações também indicam a participação de familiares de Marcinho VP no funcionamento da organização. Segundo a polícia, Márcia Gama, esposa do traficante, atuaria na intermediação de interesses da facção fora do sistema prisional. Já Landerson, sobrinho do criminoso, seria responsável por conectar lideranças da facção a integrantes que atuam nas comunidades e a atividades econômicas exploradas pelo grupo, como serviços e imóveis. Ambos são considerados foragidos.

Suspeita de interferência política

Outro eixo da investigação aponta tentativa de influência política em áreas dominadas pelo tráfico.

De acordo com a Polícia Civil, o vereador Salvino Oliveira (PSD-RJ) teria negociado com o traficante Doca autorização para realizar campanha eleitoral na comunidade da Gardênia Azul, na Zona Oeste do Rio, área sob domínio do Comando Vermelho.

Em contrapartida, o parlamentar teria articulado benefícios ao grupo apresentados publicamente como ações voltadas à população local. Um dos episódios investigados envolve a instalação recente de quiosques na região. Segundo a polícia, parte dos beneficiários teria sido definida diretamente por integrantes da facção.

Policiais investigados

A operação também cumpriu mandados contra policiais militares investigados por participação no esquema.

Procurada, a Polícia Militar informou que a Corregedoria acompanhou a Polícia Civil no cumprimento de mandados de prisão temporária e de busca e apreensão contra seis PMs. Os agentes foram levados para a Cidade da Polícia e depois serão transferidos para a unidade prisional da corporação em Niterói.

Em nota, o comando da PM afirmou que “não tolera desvios de conduta ou crimes cometidos por seus integrantes” e que pune rigorosamente os responsáveis quando as irregularidades são comprovadas.

O que dizem as defesas

Na chegada à Cidade da Polícia, o advogado Flávio Fernandes, que faz a defesa de Márcia Gama, esposa de Marcinho VP, afirmou que ainda não teve acesso aos documentos da investigação, mas disse confiar na Justiça.

A defesa também informou ter recebido a notícia com surpresa e afirmou que Márcia estava viajando “como pessoa livre” desde segunda-feira (9). Segundo o escritório que a representa, ela deverá ser orientada juridicamente e há expectativa de que se apresente às autoridades.

Já a assessoria de imprensa do vereador Salviano Oliveira informou que o gabinete não recebeu qualquer comunicação oficial sobre o caso. Segundo a nota, a assessoria jurídica foi acionada e aguarda esclarecimentos das autoridades para compreender os fatos.

Ao todo, sete pessoas foram presas na operação. As investigações continuam para aprofundar a responsabilização penal dos envolvidos e avançar no combate às estruturas financeiras e operacionais do Comando Vermelho.