Avião da Voepass apresentava falhas no sistema antes da queda, diz Cenipa
Problemas não teriam sido relatados nos diários de bordo da aeronave conforme preconiza a legislação

O Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) informou, nesta quinta-feira (23), que o avião da Voepass que caiu no interior de São Paulo há quase dois anos já vinha apresentando falhas no sistema responsável por eliminar o gelo acumulado nas asas. A informação consta no relatório final sobre o acidente.
Segundo o tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, que integrou a equipe de investigadores, nos três voos anteriores ao que foi registrada a queda foram identificadas falhas no equipamento. No entanto, os problemas não teriam sido relatados nos diários de bordo da aeronave conforme preconiza a legislação.
Diante disso, o documento concluiu que que houve uma forte cultura organizacional de não fazer registros, com cultura de informalidade e serviços auxiliares de mecânicos feitos sem supervisão.
O Cenipa analisou 1.206 voos feitos entre agosto de 2023 até o dia da queda. O relatório final reúne as conclusões da investigação técnica conduzida pela FAB (Força Aérea Brasileira) para identificar os fatores que contribuíram para o acidente.
Antes de ser divulgado, o relatório passou pelas etapas previstas no protocolo internacional para investigações de acidentes aeronáuticos.
O documento foi analisado pelo BEA, o Bureau d'Enquêtes et d'Analyses pour la Sécurité de l'Aviation Civile, da França, país responsável pelo projeto e fabricação do ATR 72-500; e pelo TSB, sigla em inglês para Transportation Safety Board, do Canadá, responsável pelo projeto dos motores da aeronave.
O que diz a Anac e Voepass
Em nota enviada à CNN Brasil, a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) informou que iniciará a etapa de análise técnica detalhada das conclusões apontadas e das recomendações relacionadas às competências da Anac.
"As investigações conduzidas pelo Cenipa têm caráter exclusivamente preventivo e não se destinam à atribuição de culpa ou responsabilização, mas à identificação de fatores que contribuíram para o acidente e de recomendações para aprimorar o sistema de segurança operacional da aviação civil", diz a nota.
Em nota, a Voepass afirmou que desde o momento do acidente, a empresa esteve solidária às famílias. Além disso, a empresa ressaltou que durante as investigações, atuou de forma transparente junto ao Cenipa e às autoridades públicas.
"Em mais de 30 anos de operações na aviação brasileira, a companhia jamais havia enfrentado uma situação como essa. Ao longo de três décadas, sempre adotou procedimentos sérios de segurança, capacitação e orientação de tripulação", diz texto.
Memória
O voo 2283 da Voepass decolou de Cascavel (PR) na tarde de 9 de agosto de 2024 com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos. Durante a aproximação de São Paulo, o ATR 72-500 perdeu rapidamente sustentação e caiu em um condomínio residencial em Vinhedo, no interior paulista.
Os primeiros dados da investigação mostraram que a aeronave enfrentava condições severas de formação de gelo. O piloto chegou a relatar problemas no sistema de degelo, enquanto os gravadores registraram alertas como Cruise Speed Low e Degraded Performance, indicando perda progressiva de desempenho da aeronave.
As 62 pessoas a bordo - 58 passageiros e quatro tripulantes - morreram.


