Caso Gisele: filha de PM recebe pensão 10 vezes menor que tenente-coronel

Acusado de feminicídio, tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto receberá R$ 20 mil mensais, enquanto órfã terá R$ 2,3 mil

Khauan Wood, da CNN Brasil*, Rafael Saldanha, da CNN Brasil, em São Paulo
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O valor depositado da pensão da filha da soldado Gisele Alves Santana, encontrada morta em fevereiro deste ano, é cerca de dez vezes menor ao que o tenente-coronel, acusado de matar a PM, irá receber. Os números foram divulgados pelo advogado da família em uma publicação feita nesta quarta-feira (8).

O pedido para o benefício foi protocolado pela família no dia 6 de março junto ao SPPrev (Instituto São Paulo Previdência).

De acordo com o advogado, o valor depositado foi de cerca de R$7,1 mil, referente ao acumulado de três meses, o que equivale a aproximadamente R$2,3 mil por cada mês. A expectativa dos advogados era que a quantia chegasse a pelo menos R$2,5 mil mensais.

O valor do último salário bruto de Geraldo Leite Rosa Neto, réu por feminicídio e fraude processual no caso da morte de Gisele, antes de ser preso, era de cerca de R$28 mil, conforme informações do site da Transparência do Governo de São Paulo.

O tenente-coronel foi transferido para a reserva da PM (Polícia Militar) a pedido próprio e baseado em "critérios proporcionais de idade". O valor da aposentadoria que o oficial deve receber ficará em cerca de R$20 mil, cerca de dez vezes mais do que a órfã irá receber.

Veja: Tenente-coronel réu por matar esposa PM é aposentado com salário integral

Diante disso, o advogado declarou que tomará as medidas legais e cabíveis para garantir que a filha de Gisele receba uma pensão digna e buscará fazer com que as despesas sejam pagas pelo próprio tenente-coronel.

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A CNN Brasil tentou contato com a defesa de Geraldo a respeito do assunto. O espaço segue aberto.

Relembre o caso

Inicialmente registrada como suicídio, a morte de Gisele, de 32 anos, foi reclassificada pela como feminicídio qualificado após investigações que revelaram inconsistências na versão apresentada por Geraldo, marido da vítima. O caso ocorreu na manhã de 18 de fevereiro, no apartamento do casal, no Brás, região central da capital paulista.

De acordo com o inquérito, o relacionamento entre eles era marcado por violência doméstica, controle excessivo e abusos psicológicos. O casal vivia junto desde 2023 e havia oficializado a união em 2024.

Mensagens analisadas pela polícia indicam comportamento possessivo por parte do oficial, que exercia domínio sobre a vida financeira e pessoal da esposa. Cinco dias antes do crime, Gisele teria comunicado à família sua decisão de se separar, relatando episódios recorrentes de violência.

Veja as conversas

Na data do ocorrido, o tenente-coronel afirmou que estava no banho quando ouviu um tiro e encontrou a esposa caída com a arma em mãos. No entanto, a perícia identificou uma diferença significativa entre o horário estimado do disparo, por volta das 7h28, e o acionamento do socorro, feito cerca de 30 minutos depois.

O exame necroscópico de Gisele apontou marcas de contenção no corpo da vítima, incluindo impressões digitais na mandíbula e arranhões no pescoço e rosto. A análise do padrão de sangue indicou que ela foi atingida em outra posição e posteriormente deslocada, sugerindo adulteração da cena do crime.

Saiba como foi a reconstituição

Além disso, exames com luminol detectaram vestígios de sangue na roupa de Geraldo e no banheiro do imóvel. A investigação também apontou indícios de que ele teria se lavado antes da chegada da perícia, o que configura possível destruição de provas.

O MPSP (Ministério Público do Estado de São Paulo) o denunciou por feminicídio qualificado, por motivo torpe e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima, além de fraude processual. O caso tramita em segredo de Justiça na 5ª Vara do Júri da Capital.

A Justiça decretou a prisão preventiva do acusado, tanto na esfera comum quanto na militar, e ele segue detido no Presídio Militar Romão Gomes. A defesa nega as acusações e sustenta que Gisele tirou a própria vida.

 

*Sob supervisão de Thiago Félix