Empresário esteve no Corinthians no dia de repasse de comissão a "laranja"

Segundo relatório policial, Alex Cassundé transferiu mais de R$ 500 mil na mesma data que visitou o clube; o presidente do clube, Augusto Melo, afirmou em entrevista que só viu o intermediário duas vezes

Thiago Félix e Raul Moura, da CNN, São Paulo
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Pivô do caso VaideBet, Alex Cassundé, esteve no Parque São Jorge, sede do Corinthians, no dia em que começou a repassar valores da comissão recebida à empresa laranja, posteriormente os valores chegariam a uma conta vinculada ao PCC, conforme delação do empresário Vinícius Gritzbach, morto em novembro de 2024, no Aeroporto de Guarulhos.

De acordo com o Relatório Técnico Parcial de Análise de Dados Financeiros Bancário, que a reportagem da CNN teve acesso, Cassundé não revelou aos policiais que no dia 25 de março de 2024 esteve na sede do clube, data em que fez o pagamento de R$ 580.000,00 à empresa Neoway.

“É imperativo acentuar a presença de uma evidência das mais relevantes para o contexto investigatório ... No dia que a REDE SOCIAL (empresa de Cassundé) fez a primeira transferência à Neoway, Alex Fernando André (nome verdadeiro de Cassundé), surpreendentemente, esteve presente no Parque São Jorge”, aponta trecho do relatório elaborado pelo delegado Tiago Fernando Correia, responsável pela investigação.

Augusto Melo, presidente do Corinthians, que recentemente prestou depoimento a polícia, respondeu à CNN, em entrevista coletiva, no dia 10 de junho de 2024, que não tinha relação com Alex Cassundé. “Eu o vi duas vezes, a primeira vez foi na agência dele... e a segunda vez foi na transição [quando assumiu a presidência]. Nunca falei por telefone, se eu ver aqui talvez eu nem o conheça”, diz o presidente.

Ainda segundo o relatório, a polícia descobriu que o empresário esteve no Parque São Jorge pelo Estação Rádio Base (ERB), ou seja, método de investigação que confronta os dados do aparelho com as antenas de uma certa região, que pôde atestar que Cassundé esteve no Corinthians na parte da tarde entre 15:57 e 16:18.

Na sequência, um dia depois da visita ao Parque São Jorge, dia 26 de março de 2024, outro pagamento foi efetuado, já no valor de R$ 426.000,00.

O Corinthians aponta que não tem envolvimento com os repasses financeiros. “O inquérito policial está sob segredo de justiça, portanto não teremos nenhum comentário a adicionar. O Corinthians não tem responsabilidade por qualquer direcionamento de dinheiro que não esteja na conta bancária do Clube”,  diz trecho da nota.

Entenda o Caso

O Corinthians teria repassado, por meio de comissão, duas remessas de R$ 700 mil, em março de 2024 para a Rede Social Media Design, empresa de Alex Cassundé.

Depois disso, a empresa de Cassundé realizou dois repasses para a Neoway Soluções Integradas, empresa que tem como sócia Edna Oliveira dos Santos, mulher que mora em Peruíbe, no litoral de São Paulo, e afirmou, em entrevista ao Uol, desconhecer o caso. Os valores foram de R$ 580 mil e R$ 462 mil, citados acima.

Ainda em março do ano passado, a Neoway transferiu cerca de R$ 1 milhão para a Wave Intermediações Tecnológicas, que ainda fez mais três transferências para a UJ Football Talent Intermediação, na casa dos R$ 870 mil. A UJ foi citada por Gritzbach, em delação feita com promotores de Justiça.

O delator afirmou que a UJ seria controlada informalmente por Danilo Lima, conhecido como “Tripa”, apontado como integrante do Primeiro Comando da Capital (PCC). Ele já havia sido investigado pelo sequestro de Gritzbach em 2022.

Impeachment

A votação do impeachment de Augusto Melo já tem data marcada. A reunião do Conselho Deliberativo do Corinthians acontecerá no dia 26 de maio.

No dia 20 de janeiro, o Conselho do Corinthians se reuniu no Parque São Jorge para votar o impeachment de Augusto Melo. Após mais de quatro horas, a reunião foi suspensa depois do processo de admissibilidade do rito passar por 126 a 114.

Outro lado

Em nota à CNN, a defesa de Alex Cassundé afimou que o mesmo afirma categoricamente que teve sim contato com a VaideBet, e que sempre teve a melhor e mais cristalina conduta. De acordo com a defesa, documentos mostram o caminho que ele usou para chegar até a VaideBet. "Documentos sobre isso foram oportunamente juntados ao processo e são corroborados com as oitivas", diz a defesa, que completa que Cassundé manteve contato constante com assessores do clube.

A defesa afirma que Cassundé não tem informação sobre outros intermediários, pois a empresa dele foi a escolhida, após critérios internos do clube, uma vez que já havia participado de outras campanhas do clube.

"Os repasses são objeto da investigação no inquérito e não podemos dar mais detalhes além do que já é de conhecimento", conclui a nota.

Em nota nas redes sociais, o Corinthians afirmou que, até o momento, não há qualquer demonstração de autoria relacionada aos fatos mencionados.

"O presidente do Clube reafirma seu total apoio às investigações em andamento, bem como a todas as iniciativas que visem apurar eventuais envolvimentos do crime organizado no futebol brasileiro. O Corinthians destaca que é vítima das circunstâncias investigadas e reforça que não possui controle sobre o que terceiros fazem com valores recebidos em decorrência de contratos firmados. O Clube cumpre rigorosamente todas as suas obrigações legais e contratuais, prezando pela transparência e integridade em suas operações. O Corinthians reitera seu compromisso com a transparência, a responsabilidade e a justiça no esporte, apoiando todas as medidas necessárias para garantir a lisura das competições e combater práticas ilícitas no futebol", completa a nota do clube.