"Deo... Beze...": mensagens indicam pagamentos a Deolane em esquema do PCC
Investigação diz que identificação da influenciadora surgiu após análise de celular, comprovantes bancários, cruzamento financeiro e quebra de sigilos
A investigação que levou à prisão preventiva da influenciadora e advogada Deolane Bezerra sustenta que o nome, dados bancários e movimentações atribuídas a ela apareceram de forma recorrente em mensagens, registros financeiros e documentos obtidos ao longo do inquérito policial, que apura suposta lavagem de dinheiro e integração de organização criminosa atribuída ao PCC.
Segundo o relatório final, o ponto de partida que levou os investigadores até Deolane não teria sido patrimônio, redes sociais ou atividade empresarial, mas sim a análise de conversas e registros atribuídos ao núcleo financeiro da organização.
Contas de Deolane apareceram em mensagens sobre “fechamento”
De acordo com o relatório, o avanço da investigação ocorreu após o aprofundamento da análise sobre Everton de Souza, apontado pelos investigadores como operador financeiro ligado ao esquema, o "Player".
Segundo o documento, mensagens atribuídas a Everton mencionariam números de contas bancárias que deveriam ser utilizados para depósitos relacionados ao chamado “acerto” ou “fechamento” financeiro da estrutura investigada. Entre as contas indicadas, segundo a polícia, apareciam contas vinculadas a Deolane.
Os investigadores afirmam que essas referências deixaram de ser apenas menções em conversa após a localização de registros bancários.
Segundo o relatório, “nas conversas analisadas Everton de Sousa informa números de contas a serem utilizadas nos depósitos, dentre as quais, uma delas, aponta diretamente para a investigada Deolane Bezerra Santos.”

Comprovantes encontrados em celular reforçaram apuração
A investigação afirma que as informações obtidas nas mensagens teriam sido confrontadas com arquivos encontrados em aparelho celular apreendido durante as diligências.
Segundo o relatório policial, foram localizadas imagens de comprovantes de depósitos realizados em conta bancária de titularidade atribuída a Deolane. O documento descreve que foram identificadas duas contas vinculadas à influenciadora que teriam recebido valores apontados como provenientes da estrutura investigada.
Para os investigadores, esse cruzamento entre mensagens e registros bancários foi um dos elementos que transformaram Deolane em alvo central da apuração. O relatório afirma que “foi exatamente o recebimento desses recursos que funcionou como gatilho investigativo.”

Investigação cita movimentações milionárias e quebra de sigilos
Após o surgimento das referências bancárias, a polícia afirma ter solicitado medidas de aprofundamento, incluindo afastamento de sigilos bancário, fiscal e financeiro.

Segundo o relatório, as análises posteriores identificaram movimentações superiores a R$ 40 milhões em nome da pessoa física de Deolane, além de operações realizadas por empresas ligadas ao seu grupo empresarial.
O documento sustenta que parte relevante dos créditos analisados não teria sido identificada e menciona incompatibilidades entre movimentação financeira e dados declarados.
Também são descritas movimentações atribuídas à empresa Deolane Bezerra Comércio e Serviços Ltda., incluindo recebimentos de valores por intermediadoras e créditos classificados como sem identificação direta de origem.
Sistema Detecta e transações com cunhada de Marcola
Além dos dados financeiros, os investigadores mencionam registros no Sistema Detecta. Segundo o relatório, Deolane aparece em ocorrências relacionadas a Everton de Souza, em situações nas quais teria figurado em momentos distintos como representante ou testemunha.
Para além disso, entre os pontos destacados no documento aparece o nome de Francisca Alves da Silva, identificada pela investigação como pessoa relacionada ao núcleo de Marcos Willians Herbas Camacho e esposa de seu irmão, Alejandro Camacho. De acordo com a invetsigação, Francisca figurou em levantamentos paralelos compartilhados com outras frentes investigativas e aparece em cruzamentos financeiros feitos pelos órgãos de inteligência.
A investigação aponta que a cunhada de Marcola, que figura como intermediária nos atos de lavagem de capitais e que é investigada em uma operação policial desencadeada no Ceará, transacionou direta ou indiretamente com Deolane Bezerra. Em um dos trechos da análise, os investigadores afirmam que "Francisca Alves da Silva, como pessoa física ou pessoa jurídica manteve transações com Leonardo Camacho, assim como Deolane Bezerra Santos.”
O documento faz referência ao relatório técnico do Laboratório de Tecnologia Contra Lavagem de Dinheiro (LAB-LD), utilizado para consolidar cruzamentos bancários e patrimoniais realizados durante a apuração.


O documento sustenta que esse conjunto de mensagens, depósitos, dados bancários, registros administrativos e análise patrimonial, foi utilizado para construir a tese de que haveria atuação no que os investigadores descrevem como fase de integração da lavagem de dinheiro.
Por que a investigação considera esse dado relevante
O ponto central para os investigadores não é apenas a existência de transferência financeira isolada.
Na lógica apresentada ao longo do relatório, a relevância está na formação de uma rede de relacionamento econômico entre pessoas que aparecem simultaneamente em diferentes camadas da investigação, incluindo integrantes da família Camacho, operadores financeiros e pessoas jurídicas ligadas aos investigados.
O relatório sustenta que esse tipo de cruzamento busca identificar o que, em investigações de lavagem de dinheiro, costuma ser chamado de integração patrimonial: quando recursos circulam entre pessoas físicas e empresas para reduzir rastreabilidade e conferir aparência formal às movimentações.
Relembre o caso
Deolane foi presa preventivamente na Operação Vérnix, investigação conduzida pela Polícia Civil e pelo Gaeco, do Ministério Público de São Paulo.
Segundo os investigadores, o caso apura suposta estrutura de lavagem de dinheiro atribuída ao PCC, com uso de empresas e movimentações patrimoniais para inserção de recursos na economia formal.
As apurações ainda estão em andamento e as alegações deverão ser analisadas pela Justiça, com direito à ampla defesa.
O que diz a defesa
Procurada, a defesa de Deolane afirmou que a influenciadora “conhece muita gente e circula em muitos meios”, mas que isso não pode ser interpretado como elemento de responsabilização criminal. Os advogados sustentam que todos os valores atribuídos a ela estão declarados e têm origem lícita, incluindo quantias recebidas no início da investigação que, segundo a defesa, correspondem a honorários advocatícios.
A defesa também afirmou que não teve oportunidade de apresentar esclarecimentos durante os quatro anos de apuração e disse que pretende demonstrar, no processo, a origem dos recursos mencionados pela investigação.
Veja pronunciamento na íntegra
“Deolane é uma figura pública que realmente conhece muita gente, circula em muitos meios e isso não pode ser criminalizado de modo algum. A atividade dela, todas são atividades lícitas, todos os valores estão declarados. Ainda não tivemos espaço nem momento nessa investigação para explicar os valores a ela atribuídos porque ela nunca foi chamada na polícia para prestar qualquer esclarecimento. Vamos ter que fazer isso, então, dentro do processo.
Com relação aos valores recebidos no início da investigação, que são mencionados no início da investigação, dizem respeito a honorários advocatícios perfeitamente lícitos e que ela vai explicar no curso do processo.
O problema é que a investigação, depois desse pagamento, lá em 2020, faz uma devassa na vida pessoal e profissional dela e da família e mistura valores oriundos da atividade dela como empresária, como influencer, mistura tudo e atribui uma origem lícita. Por quê? Porque eles não sabem qual é a origem contábil disso tudo. E nós temos, nós temos como explicar absolutamente todos os valores, só que não nos foi dada nenhuma oportunidade no curso dessa investigação, que está aberta há quatro anos e que só agora vem uma prisão totalmente desnecessária, extemporânea, absolutamente ilegal.
Então, tudo vai ser explicado no seu momento no processo.”
O espaço segue aberto para demais declarações.


