“Fiz de tudo para sair com vida”, diz advogado sequestrado pelo PCC em SP
Rafaell Roque foi mantido refém pela facção criminosa por seis horas após ser atraído para um cativeiro; sete pessoas são investigadas pelo crime

Um advogado que foi sequestrado por integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital) na Baixada Santista relatou à CNN Brasil como foi mantido refém por cerca de seis horas após ser atraído para um cativeiro sob o pretexto de prestar um serviço profissional.
A vítima, Rafaell Roque, é advogado criminalista e contou que o objetivo do grupo era obrigá-lo a abandonar uma ação judicial em que ele defendia um cliente envolvido em uma disputa empresarial.
O caso levou à uma operação do Ministério Público de São Paulo, em conjunto com a Polícia Militar, na última quarta-feira (12). Em busca de sete integrantes da facção, três pessoas foram presos e um suspeito foi morto. Quatro celulares, uma pistola, 19 munições e dois “tubos” de maconha foram apreendidos.
Segundo Rafaell, o sequestro ocorreu em 11 de junho, poucos dias antes de uma audiência sobre a disputa envolvendo três quiosques de venda de peixe no Guarujá, no litoral paulista.
A batalha teria iniciado após uma das partes reivindicar a propriedade dos três pontos comerciais, enquanto o cliente do advogado alegava ter direito à metade do negócio. O conflito se agravou no fim de 2025 quando, segundo o advogado, seu cliente foi retirado da empresa após um acordo de R$ 2 milhões que não teria sido pago.
Com isso, Rafaell foi chamado para tentar negociar o caso, mas não houve qualquer tipo de acordo entre as partes. Posteriormente, ele afirmou ter recebido ameaças do homem apontado como responsável pelo sequestro, que acusava seu cliente de roubo.
O advogado, diante dos desacordos, ingressou com uma ação judicial contra o suspeito, o que acabou gerando revolta.
Poucos dias antes da audiência, Rafaell recebeu uma ligação do homem pedindo para que fosse ao seu encontro para discutir os detalhes do acordo. O conflito, no entanto, serviu como pretexto dos criminosos para atrair o advogado ao cativeiro.
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Sequestro
O advogado contou que recebeu uma ligação de um homem conhecido como “Bel”, que afirmou precisar de um advogado porque uma pessoa havia sido presa. Acreditando que se tratava de um trabalho profissional, ele foi até o endereço indicado.
“Baseado nessa informação, como era alguém conhecido, eu acreditei que fosse um trabalho mesmo. Quando eu cheguei lá, ele me levou pra um cativeiro”, relatou.
Segundo o advogado, inicialmente ele foi levado para uma empresa onde havia pessoas conversando sobre um esquema de tráfico de drogas para o exterior. Depois, foi conduzido até um barraco, onde o número de pessoas aumentou.
Ele estima que cerca de 30 integrantes do PCC tenham participado presencialmente do episódio, além de outros 10 a 20 que teriam acompanhado a situação por chamadas de vídeo.
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Tribunal do Crime
Rafaell afirmou que percebeu que havia caído em uma emboscada pouco depois de chegar ao local. Ele contou que já havia sentido que havia algo errado durante o trajeto, mas teve certeza quando viu um dos integrantes do grupo em uma chamada de vídeo.
“Assim que eu entrei no barraco, eu imaginei que fosse, mas eu tive certeza mesmo quando eu vi um dos integrantes no telefone. Aí eu sabia do que se tratava”, contou.
De acordo com o relato, durante o chamado “tribunal do crime”, os integrantes do grupo queriam descobrir o endereço do cliente de Rafaell, a quem acusavam de ter roubado um integrante da organização.
Como o advogado se recusou a fornecer a informação, passou a ser ameaçado. Segundo ele, os criminosos também pegaram seu celular, acessaram conteúdos pessoais e o obrigaram a gravar um vídeo sobre informações encontradas no aparelho.
“Eles me ameaçaram, falaram que iam me matar, o tempo todo me ameaçando, colocando o dedo na minha cara”, disse.
O advogado afirma que não chegou a ser agredido fisicamente, mas descreveu as ameaças como mais traumáticas do que uma agressão física.
Em nenhum momento me agrediram, mas a agressão verbal foi muito pior do que a física. Seria melhor eu ter apanhado do que passar pelo que eu passei.
Libertação
Segundo o advogado, a situação mudou quando os criminosos perceberam que ele não forneceria o endereço procurado. A partir daquele momento, ele afirma que ficou claro que o objetivo era pressioná-lo a deixar a ação judicial.
“Eles só queriam uma coisa: queriam que eu saísse do processo junto com o meu cliente, para ele ficar com a empresa inteira”, afirmou.
Durante as horas em que permaneceu no cativeiro, o advogado afirmou que tentou manter a calma inicialmente. Ele disse que imaginava que conseguiria apresentar sua versão aos integrantes do grupo e que seria submetido a uma espécie de julgamento interno.
Com o avanço das ameaças, porém, ele disse que entrou em pânico e passou a tentar criar estratégias para deixar o local com vida. “Eu comecei a fazer um certo teatro, fingir que estava passando mal, para ver se eles teriam alguma dó de mim”, contou.
O advogado estima que permaneceu no local entre aproximadamente 19h e 1h. Ao ser libertado, afirmou que precisou agir como se nada tivesse acontecido.
“Eu tava com muita raiva, muito triste, chorando, com sentimentos de injustiça, de indignidade, de podridão, de ver o que é o ser humano, de ver o que é o crime organizado”, relatou.
Denúncia
Segundo o advogado, mesmo depois de ser libertado, as ameaças continuaram. Ele afirma que integrantes da facção passaram a procurá-lo para cobrar o cumprimento do acordo feito no cativeiro e exigir documentos relacionados ao processo.
“Se eu não cumprisse o que eu tinha combinado, a minha vida corria perigo, eles iam me matar”, afirmou sobre as ameaças que recebeu.
O profissional disse que respondeu às mensagens e entregou o conteúdo ao Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), que investigava o caso. A investigação resultou na Operação Patrocínio Fiel, deflagrada em 12 de agosto pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Militar.
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A ação mirou sete suspeitos de envolvimento no sequestro, extorsão, tortura e ameaças contra o advogado, com mandados cumpridos em Guarujá, São Vicente, Praia Grande e Cubatão, no litoral paulista, além de Florianópolis (SC).
A OAB de Cubatão informou que acompanha o caso e solicitou à entidade estadual atuação institucional junto ao Ministério Público e às autoridades responsáveis pela investigação.

