Investigação indica manipulação da cena para forjar suicídio de PM morta

Segundo apontado pela investigação, local onde Gisele Alves Santana foi encontrada morta passou por alteração de cena, de modo que parecesse ser uma ocorrência de suicídio

Bruna Lopes e Adriana De Luca, da CNN Brasil*, em São Paulo
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Segundo a decisão da prisão preventiva do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, decretada pela Justiça Militar do Estado de São Paulo na madrugada desta quarta-feira (18) e obtida pela CNN Brasil, o cenário onde a policial militar Gisele Alves Santana foi encontrada morta com um tiro na cabeça, foi alterado para parecer suicídio.

A linha de investigação apontou, com apoio nos laudos periciais, que o local teria passado por uma alteração da cena, se mostrando atípico. De acordo com o registro, durante todo o atendimento da ocorrência, o oficial reforçou a intenção de tomar banho e trocar de roupa, sendo inclusive advertido verbalmente pelos policiais militares presentes.

De todo o modo, o tenente-coronel teria ainda "imposto sua vontade em razão da ascensão hierárquica" e tomado o banho, mesmo após o resgate do corpo da esposa.

Conforme a decisão, a ação do oficial gerou questionamentos por parte dos policiais, que tentaram dissuadir Neto a realizar a ação, especialmente para preservar a integridade dos procedimentos investigativos.

Devido a sua posição hierárquica e por ser o oficial mais antigo presente naquele momento (reforçando a hierarquia militar), Geraldo teria tomado banho mesmo diante da resistência dos companheiros.

"Tal conduta revela-se particularmente relevante sob o ponto de vista investigativo, uma vez que pode ter comprometido a realização de exames periciais importantes, notadamente o exame residuográfico destinado à verificação da presença de resíduos de disparo de arma de fogo", diz trecho da decisão.

Câmeras de segurança registraram ainda o tenente-coronel no corredor e, minutos depois, novamente ao telefone, com os cabelos aparentemente molhados. No entanto, segundo relatado por uma das testemunhas, a sala do apartamento não se encontrava molhada.

O documento afirma que Geraldo teria apresentado uma narrativa incompatível com as provas obtidas, extraídas de imagens, áudios e registros telefônicos. O magistrado entendeu que ao surgir novamente com os cabelos molhados, embora o local não estivesse, e que a insistência em tomar banho e trocar de roupa se configura em uma conduta "potencialmente apta a comprometer vestígios periciais relevantes".

Preso por fraude processual e feminicídio

A Justiça Militar do Estado de São Paulo decretou, na madrugada desta quarta-feira (18), a prisão preventiva do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto por suspeita de feminicídio da policial militar Gisele Alves Santana e fraude processual.

Na decisão do TJMSP, obtida pela reportagem, é indicado que os elementos juntados até o momento apontam eventuais modificações na cena do crime, que teriam sido realizadas com o objetivo de ocultar o crime de feminicídio em investigação.

Geraldo foi preso em sua residência em São José dos Campos, no interior de São Paulo, após a Polícia Civil solicitar o mandado de prisão preventiva à Justiça, que foi concedido e cumprido pela Corregedoria da Polícia Militar com apoio do 8° DP.

Segundo a Justiça Militar, o pedido de prisão foi proferido com base na garantia da ordem pública, na conveniência da instrução criminal e na necessidade de preservação da hierarquia e disciplina militares. Além disso, o órgão entendeu que há risco de interferência nas investigações, inclusive pela possibilidade de influência do oficial sobre testemunhas.

O oficial deve passar por audiência de custódia nas próximas horas, com prazo para realização de 24h.

A CNN Brasil tenta contato com a defesa do tenente-coronel e aguarda retorno.

*Sob supervisão de Tonny Aranha