MP: Ex-chefe da SPTrans tratava de interesses do PCC com empresas de ônibus
Operação Vectura Corrupta mira a infiltração da facção criminosa no setor de transporte público em SP; Levi dos Santos Oliveira e ex-verador Milton Leite estão entre alvos de mandado de prisão
O ex-presidente da empresa de transporte SPTrans, Levi dos Santos Oliveira, foi preso em uma operação que mira a infiltração do PCC (Primeiro Comando da Capital) no sistema de transporte coletivo em São Paulo, deflagrada na manhã desta quinta-feira (17). Ao todo, são 13 investigados nessa ação, dos quais nove já foram presos.
De acordo com a investigação do MPSP (Ministério Público de São Paulo), Levi é apontado como responsável por tratar dos interesses da facção com as empresas de transporte.
A Operação Vectura Corrupta busca cumprir 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão. O ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite (União Brasil), também é um dos alvos de mandado de prisão.
A ação foi finalizada com 10 presos. Milton é considerado foragido.
Levi tomou posse da presidência da SPTrans em 2020, mas trabalhava na empresa desde 1991.
A investigação é desdobramento de outra operação anterior, denominada "Decúrio" e realizada em agosto de 2024.
Na época, foi identificada uma complexa rede de informações utilizada pelo PCC para manter a comunicação entre os integrantes, presos ou nas ruas, com a utilização inclusive de advogados.
Na ocasião foram identificadas lideranças da organização criminosa vinculadas às denominadas “Sintonia Restrita” e “Sintonia dos Gravatas”, bem como um projeto de infiltração de agentes do crime organizado nas eleições municipais daquele ano, lançando candidatos aos cargos em disputa.
Nessa nova fase, novamente foi detectada a atuação de advogados em conluio com o crime organizado. Da mesma forma, foi identificada a contaminação de empresas de transporte coletivo de passageiros na capital e no interior, com a participação ativa de parte dos investigados.
De acordo com as investigações, a análise do conteúdo do material permitiu a identificação de possível infiltração da organização criminosa no sistema de transporte público da capital.
Foram identificadas pelo menos 12 empresas de transporte coletivo de passageiros em operação na Cidade de São Paulo, que seriam controladas direta ou indiretamente pelo PCC.
Além de Levi, também estão entre os presos Júlio Salvador Filho; Claudionor Aparecido Sabino Tomaz; Carla de Paula Muller, esposa de “Granada”, do PCC; Edivania Arruda Botelho Alves; André Cassali; José Ronaldo Alves de Sales; Edson Antonio de Souza; e Danilo Marco Morgado Silva, candidato a deputado estadual pelo PL (Partido Liberal).
Outro lado
Posicionamento de Milton Leite
O ex-vereador Milton Leite afirmou que não está foragido, mas sim em viagem. Ele ainda disse que se apresentará às autoridades em até 24 horas e provará inocência. Veja a nota na íntegra:
"Estou em viagem, não estou foragido, e vou me apresentar às autoridades em até 24 horas.
Vou provar minha inocência em todas as acusações."
Posicionamento Danilo Morgado (PL)
"Meses atrás Danilo foi alvo de um processo onde se pedia sua prisão, movido pelo prefeito de Praia Grande, Alberto Mourão.
Na época, o motivo do pedido de prisão foram vídeos publicados por Danilo, denunciando supostas licitações ligadas ao PCC dentro da prefeitura de Praia Grande, ou seja, Danilo trouxe a tona a mesma denuncia feita pelo delegado Dr. Ruy Ferraz Fontes.
Agora, em plena campanha eleitoral, e um dia antes da data que proíbe prisão de candidatos, Danilo é preso.
A sequência dos fatos fala por si.
O coronel nunca muda seu modo de agir: intimida e tenta calar quem não se curva.
Prenderam Danilo, mas despertaram milhares.
Esperamos que os fatos sejam apurados a fundo e tudo seja esclarecido em breve.
O que não dá pra engolir é a forma que aconteceu: às vésperas da eleição, numa prisão que temos motivo para considerar irregular.
Isso não é investigação, é perseguição."
Posicionamento da Prefeitura de SP
"A intervenção determinada pela Prefeitura de São Paulo na Transwolff, em abril de 2024, foi uma medida firme e decisiva para proteger o sistema municipal de transporte. Na mesma ocasião, a administração municipal também determinou, por iniciativa própria, a intervenção na UPBus, mesmo sem qualquer solicitação da Justiça.
Desde o início das investigações, a Prefeitura agiu com rigor, inclusive encerrando contrato a fim de preservar o interesse público e garantir que a população não fosse prejudicada.
A Prefeitura reforça que, na ocasião, também foi aberto um processo pela Controladoria Geral do Município contra a Transwolff e a UPBus e, desde então, atua em conjunto com o Ministério Público e a Polícia Civil no processo investigatório.
A operação realizada nesta quinta-feira (17) reforça a gravidade dos fatos que motivaram as providências adotadas pela Prefeitura. A administração colabora integralmente com o Ministério Público, fornecendo todos os documentos e esclarecimentos necessários."
Posicionamento da Câmara Municipal de São Paulo:
"A Câmara Municipal de São Paulo acompanha os desdobramentos das investigações promovidas pelo Ministério Público, em conjunto com a Polícia Civil e o Poder Executivo, aguardando as conclusões."
Posicionamento de ex-presidente da SPTrans
“O escritório Fernando José da Costa Advogados, que representa o Dr. Levi dos Santos Oliveira, foi surpreendido, na manhã desta quinta-feira, com a notícia de sua prisão. Levi dos Santos Oliveira, primário e sem antecedentes, construiu ao longo de décadas, uma trajetória de relevantes serviços públicos prestados à cidade de São Paulo, atuando na SPTrans, onde se consolidou como referência técnica em sua área. A defesa ainda não teve acesso aos autos, nem às circunstâncias que fundamentaram a medida. Tão logo tenha acesso ao conteúdo da decisão e aos elementos que a embasaram, adotará as medidas jurídicas cabíveis, com confiança nos meios legais para o pronto esclarecimento dos fatos e a revogação de sua segregação.”
A CNN Brasil tenta contato com a defesa dos outros citados. O espaço segue aberto.
Nota da A2 Transportes representando Paulo Siqueira Korek e Júlio Salvador Filho
"A A2 Transportes, por meio de seu presidente, Paulo Siqueira Korek, reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência, a ética e a seriedade na condução de suas atividades.
A empresa nega de forma categórica qualquer envolvimento com o Primeiro Comando da Capital (PCC), bem como qualquer prática de lavagem de dinheiro ou participação em atividades ilícitas.
A A2 Transportes esclarece, ainda, que todos os recursos financeiros que ingressam na empresa são provenientes exclusivamente dos contratos e pagamentos realizados pela Prefeitura pelos serviços regularmente prestados. Não existem outras fontes de entrada de recursos financeiros na empresa.
Diante das informações que vêm sendo divulgadas, a empresa está à disposição das autoridades competentes para apresentar documentos e prestar todos os esclarecimentos necessários, contribuindo para que os fatos sejam devidamente apurados.
Para o presidente Paulo Siqueira Korek, o movimento que vem ocorrendo em torno da empresa apresenta, em sua percepção, forte componente político. A A2 Transportes, entretanto, reafirma que seguirá colaborando com as instituições responsáveis pela apuração e respeitando rigorosamente o devido processo legal.
'A A2 Transportes nunca teve envolvimento com o PCC e jamais fez lavagem de dinheiro. Nossos recursos são provenientes exclusivamente dos contratos e pagamentos realizados pela Prefeitura pelos serviços que prestamos. Não temos outras fontes de entrada de recursos. Nossa história é construída com trabalho, seriedade e ética. Estamos à disposição para todos os esclarecimentos necessários e confiamos na apuração dos fatos e na Justiça.'
Paulo Siqueira Korek — Presidente da A2 Transportes
A A2 Transportes reforça seu compromisso com a verdade, a transparência e a legalidade, confiando que os fatos serão esclarecidos com base em documentos, provas e informações oficiais"
*Sob supervisão de Carolina Figueiredo