Redes sociais podem ser armadilhas contra mulheres, afirmam especialistas
Especialistas do Caism alertam para o crescimento de casos de violência sexual iniciados em perfis falsos e aplicativos de relacionamento

Especialistas em saúde e segurança pública alertam que as redes sociais e aplicativos de relacionamento estão sendo transformados em ferramentas para articular crimes de violência sexual contra mulheres.
Criminosos utilizam perfis falsos para estabelecer vínculos de confiança e atrair vítimas para encontros presenciais, onde ocorrem agressões e abusos.
O fenômeno tem sido monitorado pelo Hospital da Mulher da Unicamp (Caism), que registra um aumento na frequência desses casos.
O mecanismo das abordagens virtuais
De acordo com profissionais do Caism, a estratégia dos agressores envolve a criação de uma identidade falsa para gerar uma "confiança ilusória" na vítima.
"Com o crescimento acelerado dos aplicativos e sites de relacionamento, aliado a uma vida cada vez mais conectada nas redes sociais e ao avanço das tecnologias de geração de conteúdo por inteligência artificial, os cuidados ao se expor nesse ambiente precisam ser redobrados", afirma Stephane de Freitas Schwarz que é doutoranda em Ciência da Computação, na Unicamp, na área de Análise Forense, e pesquisadora do Laboratório de Inteligência Artificial.
O contato evolui digitalmente até a marcação de um encontro físico, que se revela uma emboscada.
"Mesmo ao se sentir preparada para um relacionamento, a cautela continua sendo indispensável. Perfis falsos criados com o uso de tecnologias generativas são cada vez mais comuns, exigindo atenção", complementa Schwarz.
Segundo o coordenador do Ambulatório de Violência Sexual do Caism, José Paulo de Siqueira Guida, esse uso da tecnologia como "isca" é um desafio recente para as autoridades e profissionais de saúde.
A violência atinge mulheres de diversas idades e condições econômicas, embora as estatísticas apontem maior incidência entre mulheres pretas e pobres.
No Caism, 50% das pacientes atendidas após violência sexual são menores de 18 anos.
Impacto psicológico e escalada da violência
O impacto das agressões é descrito por especialistas como devastador, assemelhando-se ao transtorno de estresse pós-traumático observado em veteranos de guerra.
Os sintomas incluem ansiedade, hipervigilância e o distanciamento da rotina social e profissional.
O cenário digital é agravado pela proliferação de conteúdos misóginos na chamada "machosfera", como os grupos "redpills", que normalizam o ódio e a desumanização da mulher.
Prevenção e apoio às vítimas
Especialistas recomendam cautela redobrada ao interagir em ambientes virtuais. Entre as orientações de segurança estão:
- Verificar a consistência de perfis e desconfiar de comportamentos excessivamente perfeitos.
- Evitar o compartilhamento de dados pessoais sensíveis ou informações financeiras.
- Em caso de encontros presenciais, escolher locais públicos e movimentados e informar pessoas de confiança sobre o local e o horário.
Dados alarmantes e subnotificação
Para a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, o Brasil vive uma epidemia de violência de gênero, com 1.568 feminicídios registrados em 2025 — um aumento de 316% em relação a 2015.
O Caism oferece acolhimento especializado para vítimas, incluindo protocolos de escuta empática e acompanhamento multiprofissional para evitar a revitimização.
A subnotificação ainda é considerada um grande obstáculo para o dimensionamento real do problema no país.


