Vereador de SP é preso em operação contra lavagem de dinheiro do PCC

Além do político, outras duas pessoas foram presas; entre os alvos estão integrantes da facção e o presidente da empresa de transporte coletivo Transunião

Vitor Bonets, colaboração para a CNN Brasil, Carolina Figueiredo, da CNN Brasil, em São Paulo
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O vereador Senival Moura (PT) foi preso na manhã desta quinta-feira (25) durante uma operação do MPSP (Ministério Público de São Paulo) e da Polícia Civil contra um esquema de lavagem de dinheiro do PCC (Primeiro Comando da Capital) no transporte público.

Além do político, outras duas pessoas foram presas. Entre os alvos dos cinco mandados de prisão, além do vereador, estão integrantes da facção e o presidente da empresa de transporte coletivo Transunião. A ação faz parte da "Operação Última Parada".

Segundo apuração da CNN Brasil, os alvos dos mandados de prisão são Jair Ramos de Freitas, conhecido como 'Cachorrão', réu pelo assassinato do ex-presidente da Transunião; Devanil de Souza Nascimento, também réu pelo assassinato do ex-presidente da Transunião; o vereador do PT Senival Moura; Leonel Moreira Martins, que seria o operador financeiro do esquema; e Lourival de França Monario, atual presidente da Transunião

Até o momento, foram presos Jair Ramos de Freitas, Devanil de Souza Nascimento e o vereador.

O que diz a defesa do vereador?

Em nota, a defesa do vereador, representada pelo advogado Marcio Sayeg, disse que recebeu "com profunda indignação" a prisão temporário e afirmou ter se surpreendido com a medida, uma vez que ela foi tomada às vésperas das eleições. Veja nota na íntegra:

"O Vereador Senival Pereira de Moura recebeu com profunda indignação a notícia da decretação de sua prisão temporária no âmbito de investigação em curso.

A medida causa enorme surpresa, sobretudo porque foi determinada em um momento extremamente sensível, às vésperas do período eleitoral, circunstância que inevitavelmente desperta questionamentos e exige que todos os fatos sejam rigorosamente esclarecidos pelas autoridades competentes.

O Vereador reafirma que confia na Justiça e tem absoluta convicção de que, ao longo da investigação, ficará demonstrada a inexistência de qualquer conduta ilícita de sua parte.

Desde o primeiro momento, sua defesa técnica está adotando todas as providências jurídicas cabíveis para ter acesso integral aos autos, compreender os fundamentos da decisão e apresentar os esclarecimentos necessários, exercendo plenamente o direito constitucional ao contraditório e à ampla defesa.

Senival Pereira de Moura sempre pautou sua trajetória pública pelo compromisso com a população, pela transparência e pelo respeito às instituições democráticas. Por isso, recebe a investigação com serenidade, certo de que a verdade prevalecerá."

A CNN Brasil tenta contato com a defesa dos outros citados. O espaço segue aberto.

Investigações

A investigação, que começou a partir do assassinato de Adauto Soares Jorge, até então presidente da Transunião, em 2020, reuniu provas no que diz respeito ao uso da concessionária pelo PCC para lavar dinheiro.

A empresa, só em 2025, auferiu mais de R$ 300 milhões do sistema de transportes paulistano.

Entre as medidas da operação, a Justiça decretou o sequestro e bloqueio de R$ 194 milhões de contas bancárias ligadas aos investigados e à empresa, bem como 117 veículos, 21 imóveis e três embarcações.

O Poder Judiciário também determinou o afastamento dos diretores da Transunião e a comunicação à prefeitura para adoção das providências administrativas, regulatórias e contratuais cabíveis, incluindo intervenção administrativa.

Em nota, a prefeitura de São Paulo, por meio da SMT (Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte) e da SPTrans, informou que a operação dos ônibus da empresa Transunião segue funcionando, com a frota atendendo normalmente as linhas sob sua responsabilidade e sem prejuízo ao atendimento da população.

A administração municipal disse que aguarda a notificação oficial da decisão judicial para avaliar seus termos e definir as providências necessárias.

"Estamos acompanhando o desdobramento da operação ao mesmo tempo em que temos toda a atenção para que o serviço funcione plenamente, o que tem ocorrido normalmente desde as primeiras horas da manhã. Gostaria de lembrar que assinei dois decretos em 2024 para romper contratos com uma empresa de ônibus que teria relação com o crime organizado. Nossa gestão mantém o compromisso de oferecer o melhor serviço para os 7 milhões de passageiros diariamente na cidade. As medidas cabíveis em relação à empresa Transunião serão tomadas assim que a administração for notificada pelos órgãos competentes", afirmou o prefeito Ricardo Nunes (MDB).

Núcleo paralelo na empresa

As apurações indicam ainda a existência de um núcleo paralelo que toma as decisões relativas à Transunião, como a transferência de valores para criminosos ligados ao PCC. Além disso, a própria mudança societária da companhia, segundo a investigação, partiu do crime.

Foi registrado um salto no capital social da empresa de pouco mais de R$ 100 mil para uma cifra superior a R$ 50 milhões. A origem do dinheiro não ficou clara para os investigadores.

Outro fator que chamou a atenção dos apuradores foi o fato de o circuito econômico usado para a lavagem de capitais detectado na Operação Última Parada ter pontos de contato com os dos esquemas investigados nas operações Carbono Oculto, Vérnix e Mafiusi.

A última foi deflagrada pela Polícia Federal com foco no tráfico internacional de drogas envolvendo o PCC e a 'Ndrangheta, grupo mafioso sediado na Itália.

Esquemas do PCC no transporte

Em 2024, o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado de São Paulo) deflagrou a Operação Fim da Linha e desarticulou duas organizações criminosas que lavavam dinheiro do PCC vindo do tráfico de drogas, roubos e outros delitos por intermédio da UPBUS e da Transwolff.

As duas empresas de ônibus eram responsáveis pelo transporte de cerca de quase 700 mil passageiros diariamente na maior cidade do país.

Segundo as investigações, elas receberam mais de R$ 800 milhões de remuneração da Prefeitura de São Paulo em 2023.

Posicionamento do PT

O Partido dos Trabalhadores apresentou à CNN Brasil uma nota sobre a prisão do vereador Senival Moura. Veja a nota completa:  

"Sobre a prisão do vereador Senival Moura, ocorrida na manhã desta quinta-feira, 25 de junho, o Diretório Municipal do PT de São Paulo tomou conhecimento dos fatos e acompanhará atentamente o desenrolar das investigações. 

A direção partidária determinou o encaminhamento do caso à Comissão de Ética, nos termos do Estatuto do PT. O procedimento poderá resultar nas medidas disciplinares cabíveis, inclusive no afastamento cautelar e na eventual expulsão do filiado, assegurados o amplo direito de defesa, o contraditório e o devido processo legal. 

O Diretório Municipal do PT de São Paulo não compactua com qualquer prática ilícita e reafirma que todos os fatos devem ser rigorosamente apurados pelas autoridades competentes, com respeito à lei e às garantias constitucionais. 

O Diretório Municipal do PT de São Paulo reitera seu compromisso intransigente com o combate ao crime organizado, apoia ações das forças de segurança, como a Operação Carbono Oculto, e defende o fortalecimento dos instrumentos de enfrentamento às organizações criminosas, entre eles a aprovação, pelo Senado Federal, da PEC da Segurança Pública proposta pelo Governo Federal".