Velejadores que dão volta ao mundo buscam abrigo na costa brasileira na pandemia
Casal de americanos foi impedido de atracar em Granada; logo depois, eixo da hélice quebrou e eles acabaram atracando em Cabedelo, na Paraíba, para reparos
Os norte-americanos Larry e Margie Linder deixaram a ilha de Santa Helena, localizada no Oceano Atlântico, entre a África e a América do Sul, no dia 8 de março. O casal dava continuidade a uma das últimas etapas de uma jornada pelo mundo que já dura seis anos. O próximo destino, antes de voltar para casa, nos Estados Unidos, seria Granada, no Caribe, a 40 dias de viagem.
Conhecida como a “Ilha das Especiarias”, por causa do grande volume de exportações de noz-moscada, Granada atualmente vive da prestação de serviços como turismo, construção, transporte e educação particular – esses quatro pilares somaram 50,1% do PIB no país em 2017. Mesmo estando a cerca de 160 km do continente mais próximo – América do Sul – a ilha não foi poupada da pandemia do novo coronavírus.
O casal velejava a todo pano havia 10 dias, desde a saída da ilha de Santa Helena, quando recebeu a notícia de que não poderia aportar em Granada, porque o primeiro caso de Covid-19 tinha sido confirmado. Enquanto redesenhavam a rota de viagem, tiveram que enfrentar um período sem vento – impossibilitando o uso da vela. E após dois dias utilizando o motor para navegar, o eixo da hélice quebrou, fazendo com que água vazasse para dentro do casco do veleiro Althea.
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Apesar de Larry ter conseguido consertar o barco provisoriamente, o casal precisava encontrar um porto o quanto antes para que o veleiro pudesse ser reparado da maneira correta. O velejador achou que a melhor saída seria tentar chegar à cidade de Cabedelo, na Paraíba, onde sabia que outros amigos haviam atracado, quando estrangeiros ainda podiam desembarcar.
Desde o dia 26 de março, o Brasil vem restringindo o desembarque de estrangeiros em porto ou ponto, por causa da situação de emergência em saúde pública causada pelo novo coronavírus. A Polícia Federal, porém, pode permitir a permanência de embarcações na costa brasileira pelo tempo que for necessário em casos de necessidade de reabastecimento de combustível ou mantimentos.

No caso do veleiro Althea, os reparos foram acompanhados por policiais que tiraram fotos para registrar os consertos e inspecionaram a embarcação algumas vezes. ‘’As autoridades têm sido muito transparentes. Esses são tempos sem precedentes”, explica Larry.
O aposentado, porém, mostrou preocupação sobre o que fazer depois que o barco estivesse consertado. Em uma rede social, escreveu: “nossa viagem tem tantas incertezas no momento (...) Nós não sabemos para onde ir. A maioria dos países caribenhos não está permitindo a entrada de veleiros de bandeira estrangeira e estamos próximos da temporada de furacões”.
Após terem ficado por cerca de um mês atracados na Paraíba, Larry e Margie seguiram para as Ilhas Virgens, onde fizeram a última parada antes dos Estados Unidos.
Para escapar do período de tempestades no Caribe, que ocorre entre os meses de junho e novembro, velejadores costumam migrar ao norte. Segundo o coordenador de marinas da Associação Brasileira de Construtores de Barcos e Implementos (Acobar), Klaus Peters, os portos fechados em outros países podem ter deixado os navegadores sem alternativa, a não ser encontrar abrigo em costas do hemisfério sul, como no Brasil. “Nesses primeiros meses do ano, por causa do coronavírus, nós tivemos poucos barcos brasileiros visitando a costa brasileira. Entre esses barcos, talvez o que surpreende é uma maioria americana”. Segundo o Comando de Operações Navais da Marinha, entre janeiro e março, 252 veleiros estrangeiros deram entrada no Brasil. A maioria -- quase 20% do total -- são embarcações dos Estados Unidos.
A diretora de turismo da Associação Náutica Brasileira (Acatmar), Michele Castilho, explica que a frequência é atípica, pois apesar de velejadores dos Estados Unidos terem o hábito de navegar em grupos grandes, ainda é mais comum encontrar europeus na costa brasileira. “O norte-americano que passava pela costa brasileira durante a pandemia fez uma parada estratégica importante, principalmente em busca de serviços”. Mesmo assim, a Acatmar estima que o país deixou de receber metade dos veleiros esperados para esse período do ano.

O novo coronavírus impactou fortemente o setor náutico, principalmente as marinas -- locais que oferecem estruturas para barcos estacionarem. Por causa da pandemia, serviços oferecidos, como restaurantes e pousadas, tiveram que ser interrompidos.
A busca por suprimentos básicos como água e comida é um dos motivos pelos quais velejadores que dão volta ao mundo costumam fazer paradas estratégicas. Durante a chegada ao país, além de pedir autorização de desembarque para a Polícia Federal, navegadores precisam avisar a Receita Federal, a Marinha e notificar a Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Segundo a Anvisa, caso um velejador tenha suspeitas de Covid-19, é indicado que ele cumpra quarentena de 14 dias dentro do barco, ou utilize máscara para desembarcar no local em terra firme onde pretende cumprir o tempo em isolamento.
Para o norte-americano Chris Barry, que veleja ao redor do mundo desde 2015, as medidas são importantes, mas ele lembra que muitas vezes os navegadores já estão no mar há mais de três semanas, o que para ele, por si só, poderia ser considerado uma espécie de isolamento. “Alguns países exigem duas semanas de quarentena para embarcações que chegam ao país. Parece uma boa ideia, mas você precisa lembrar que barcos que vêm da África estiveram no mar por duas ou três semanas. Então, por definição, já passaram por quarentena. E não teria um problema de trazer coronavírus para o Brasil. Deixando um barco desses em quarentena é desnecessário”.

Chris não encontrou restrições ao aportar no Brasil, pois chegou antes do período da pandemia. Mas com o fechamento de fronteiras em países que pretendia visitar, teve que manter o veleiro Spill The Wine por mais tempo do que esperava nas docas de uma marina em Cabedelo, na Paraíba. Ele foi um dos velejadores que receberam Larry e Margie Linder, quando o Althea estava quebrado. Depois de ficar por quase três meses no Brasil, seguiu viagem para o Suriname, pois é um dos países da América do Sul com um dos menores números de casos confirmados de coronavírus. Além disso, fica mais próximo de seu destino final, no México. Para o optometrista aposentado, os navegadores precisam ter paciência com a confusão causada pela pandemia. “Regulamentações para entrar em países são sempre diferentes, e vivemos tempos confusos. As políticas de imigração no Brasil estão mudando periodicamente, à medida em que a pandemia se alastra e as circunstâncias mudam. É inconveniente, mas compreensível”.
Força-tarefa
A quantidade cada vez maior de relatos de velejadores sem destino ou em busca de informações em meio à pandemia fez com que Silvio Ramos criasse um grupo para ajudar velejadores brasileiros e estrangeiros durante a pandemia da Covid-19. O especialista em computação aposentado juntou um grupo, que atualmente conta com 19 voluntários espalhados por diferentes regiões da costa brasileira, e criou um site chamado “Força Tarefa SV’s (sigla para ‘veleiro’ em inglês)”, para ajudar velejadores que estejam chegando ao país.
O brasileiro, que começou a velejar aos 58 anos e saiu para primeira volta ao mundo dois anos depois, já é conhecido internacionalmente no universo da vela. Ramos costuma auxiliar pessoas que buscam informações sobre navegações pelo Brasil. “Lá pelo finalzinho de março, o volume desses e-mails começou a aumentar. Logo eu percebei que nessa situação da Covid não tem para onde ir, os portos estão fechando, vem vindo a estação dos furacões por aí (...) [velejadores] têm que se mexer”.
Após vencer a principal barreira - da falta de informações para abastecer o banco de dados, a força-tarefa ficou mais conhecida pelo mundo. Atualmente há 38 veleiros cadastrados no site, que vêm de diferentes países e ilhas, como Cabo Verde, Namíbia, África do Sul, Panamá, Santa Helena, além do Brasil.
As solicitações dos velejadores variam de dúvidas a respeito de tramites burocráticos para entrar no Brasil, até pedidos de navegadores que precisam de comida e não podem sair do veleiro por estarem em quarentena. Uma das atuações da força-tarefa que demandaram maior planejamento foi no auxílio a um casal de velejadores brasileiros que estava voltando do Caribe para o Brasil, quando o mastro partiu ao meio, a cerca de mil milhas (1852 km) de qualquer costa.
Léo Pereira e Bárbara Brunelli tinham deixado a Ilha de Marie-Galante, no arquipélago de Guadalupe, havia 11 dias, pois as fronteiras da região onde estavam tinham sido fechadas por causa da pandemia. “Resolvemos voltar para organizar, porque sabíamos que ia demorar muitos meses”, conta o velejador. Com a quebra do mastro, Léo ficou sem conseguir se comunicar com terra, pois o rádio também foi danificado. Privado de algumas das principais peças do barco, o casal improvisou uma pequena vela na proa - parte da frente do barco – e decidiu voltar utilizando o motor.
A cerca de 400 milhas (741 quilômetros) da costa, porém, o diesel acabou, deixando-os completamente à deriva. Com dificuldades de comunicação, o casal usou um sistema de emergência para enviar uma mensagem de socorro. “Deixamos para a última hora, pois não queríamos assustar os familiares pela longa distância que estávamos”, conta Léo, “os meus familiares entraram em contato com outras pessoas e com a Marinha, e foi onde que apareceu essa abençoada força-tarefa aqui do Norte”.
A equipe de Silvio, que monitorava a movimentação de veleiros na costa, já tinha percebido que o barco de Léo, Galápagos, apresentava um comportamento errático, e após a confirmação do pedido de socorro, a força-tarefa desenvolveu uma mega operação de resgate. Um amigo de um dos voluntários emprestou um avião para que a equipe de resgate pudesse ir o mais rápido possível à cidade de São Luís, no Maranhão, de onde sairia a embarcação do resgate, carregada de combustível, para que o veleiro pudesse retornar ao Brasil com segurança.

O casal foi resgatado no 23º dia de mar. “Realmente foi mágico ver um catamarã (tipo de embarcação com dois cascos) bem grande, ainda mais que nós esperávamos chegar um rebocador, um barco de pesca grande, alguma coisa assim”, conta Léo, “A força-tarefa foi fundamental. É um grupo de pessoas voluntárias (...) Nós não temos como agradecer essa situação”.
A Covid-19 não só não parou, mas afundou o mundo com o peso descomunal de uma âncora até então desconhecida. Planos, rumos e destinos mudaram de uma hora para outra. Mas a tempestade proporcionou reencontros, como no caso dos norte-americanos em Cabedelo, e demonstrações de solidariedade, como no resgate do Galápagos. Silvio recebeu um certificado da organização internacional de náutica Ocean Crusing Club. No documento, está escrito em reconhecimento ao enorme serviço fornecido a velejadores de cruzeiro durante a Covid-19. Durante a imensa temporada de furacões que vivemos atualmente, o velejador comemora a vitória, “nós fomos o único país no mundo que teve uma atitude e uma ação dessas”.
