Vítima de atentado fala sobre crime e invasão de grileiros em quilombos no MA

Marianne Bufalo*

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Valdirene nas gravações da série documental ‘Brasil, Terra de Quem?’, exibida no programa Séries Originais
Foto: Foto: DOC. Films

“Sentimento de impotência! Um pouco de descaso, porque a gente observa que eu não sou a primeira. Eu só entrei nessa estatística, sou mais uma”. A entrevista com Valdirene Chagas da Cruz começa com um desabafo.

A quilombola, moradora do município de Cururupu, no interior do Maranhão, e presidente da associação do Quilombo Soledade, hoje é integrante do Programa de Proteção à Testemunha do Estado do Maranhão e mora na capital São Luiz. Ela foi vítima de uma tentativa de assassinato dentro da própria casa, em 28 de agosto de 2019.    

Valdirene dormia quando ouviu os primeiros disparos. Dois tiros atingiram a quilombola: “Conseguiu perfurar a minha mão, a veia estourou. E atingiu a minha coxa”, revela.  Ela conta que já começou a ser perseguida desde que passou a lutar pela titulação do Quilombo Soledade.

Segundo Valdirene, o homem que está por trás desse conflito é Nilton Sobrinho, um agente de saúde da região. Ela o acusa de grilagem de terras e também de envolvimento no atentado. “Eu já vinha recebendo algumas ameaças não diretamente, mas indiretamente”, conta.

Nilton Sobrinho se defende. “Esse conflito que eles falam em Soledade, nunca existiu. Existe pela dona Valdirene”, rebate. Ele garante que tem o título da propriedade. “Eu quero provar que eu não estou com documento falso. Eu quero provar a minha dignidade, que essa daí ninguém abaixa”, diz.

Nilton também negou estar envolvido com a tentativa de assassinato da quilombola: “Não sou homem disso. Juro pela minha família, pelo meu filho”, garante.

A briga entre Valdirene e Nilton é um exemplo da disputa por terras que existe na zona rural do Brasil. Segundo levantamento da reportagem do CNN Séries Originais, compilando os relatórios da última década da Comissão Pastoral da Terra, em 2019, a violência no campo aumentou 14% em relação a 2018.

As tentativas de assassinato aumentaram 7% e as ameaças de morte, 22%. O Estado do Maranhão é o segundo em números de mortes de quilombolas do país.  

*da DOC. Films, especial para a CNN Brasil

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