Avanço do EAD muda perfil do ensino superior privado no Brasil, revela pesquisa

Para o primeiro semestre de 2022, modalidade semipresencial apresentou maior ritmo de crescimento, puxado por cursos da área da saúde

Institutos federais de ensino superior puderam trocar aulas presenciais pela modalidade a distância em razão da pandemia de coronavírus
Institutos federais de ensino superior puderam trocar aulas presenciais pela modalidade a distância em razão da pandemia de coronavírus Foto: Divulgação/MCTIC

Stéfano Sallesda CNN

no Rio de Janeiro

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O enfraquecimento da pandemia de Covid-19 resultou em um aumento de 35% no número de matrículas de estudantes em cursos universitários em instituições privadas no primeiro semestre de 2022. O dado foi divulgado nesta terça-feira (24) pela pesquisa “Observatório da Educação Superior”, da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes).

De acordo com a entidade, a crise sanitária acelerou mudanças no comportamento dos consumidores do segmento, que se tornaram mais receptivos à oferta de ensino à distância.

O maior crescimento foi na modalidade semipresencial, aquelas na qual há, além de aulas virtuais, encontros periódicos para atividades práticas. A escolha por essa categoria subiu 43%, seguida por 39% das aulas presenciais e 22% no Ensino a Distância (EAD).

Apesar do menor crescimento, o segmento presencial responde por maior volume de calouros: 68,7% de novos estudantes, seguido por 23,6% do EAD e 7,5% do semipresencial.

O estudo confirma também uma tendência que já havia sido sinalizada por pesquisas anteriores: de maior procura de estudantes por cursos que até então o mercado demonstrava preferência por aulas presenciais. É o caso dos cursos de Direito e da área de Saúde.

Outro destaque é a mudança do perfil de alunos: deixou de englobar apenas estudantes mais velhos, que trabalham ou estão em busca de uma segunda graduação.

Celso Niskier, presidente da Abmes, vê o conjunto de mudanças como benéfico e aponta para as tendências que a entidade percebe para o mercado de educação privada.

“O jovem provou o EAD durante a pandemia e gostou. Esse crescimento enorme que os números demonstram é prova de que não seguiremos mais do mesmo jeito que seguíamos. A cultura do EAD se implantou e hoje o jovem já a busca como opção mais flexível, mesmo em carreiras mais tradicionais”, diz.

“Em um futuro próximo, não fará mais sentido falar em presencial ou EAD. Falaremos em educação superior mediada por tecnologia. Vamos para o pleno uso dos quadrantes híbridos da aprendizagem”, afirma Niskier.

Carreiras mais buscadas

O estudo divulgou também os cursos mais procurados pelos calouros no primeiro semestre de 2022. Direito lidera a lista, com 20,9% da preferência dos ingressantes, seguido por Enfermagem (11,8%), Psicologia (9,7%), Odontologia (6,8%), Administração e Farmácia (5%), Fisioterapia (4,8%), Arquitetura e Urbanismo (3,6%), Biomedicina (3,3%) e Medicina Veterinária (2,7%).

O estudo conclui ainda que, na modalidade presencial, há maior concentração de estudantes em menor número de cursos: 80% da demanda se concentra em 12 carreiras. No ensino a distância, esse mesmo nível de procura está diluído entre 23 opções.

No EAD, as maiores procuras são por Administração (12%), Pedagogia (9,2%), Biomedicina (6,7%), Ciências Contábeis (6,3%), Fisioterapia (4,9%), Educação Física (4,6%), Gestão de RH (4,3%), Farmácia (3,7%), Estética e Cosmética (3,6%) e Nutrição (3,3%).

Daniel Infante, sócio da consultoria Educa Insights, parceira da Abmes e responsável pela realização do estudo, destacou que a hibridização, isto é, a combinação entre o ensino à distância e o presencial, é uma tendência cada vez mais clara no mercado privado, e que o EAD superou as barreiras impostas pelas dificuldades regionais.

“O EAD é menos difundido no Sudeste, por conta da complexidade do mercado e da evolução da oferta. Em São Paulo, ainda não superou o presencial, mas está quase lá. Em todo o país, cursos como Biomedicina, Nutrição e Fisioterapia dobraram o volume de alunos, em um fenômeno de migração entre formatos de cursos da área da Saúde, iniciado em 2020. São cursos que não podem ser 100% EAD. Por isto, são semipresenciais”, avalia Infante.

A pesquisa mostra ainda que, em 2017, 81% dos consultados queriam ensino presencial e apenas 19% consideravam o EAD uma opção. Essas proporções passaram para 60% e 40% em 2020, no período pré-pandemia.

No mesmo ano, mas com a crise sanitária já instalada, o avanço da curva inverteu as tendências: o ensino a distância passou a ser uma alternativa para 78% do público, enquanto apenas 22% queriam apenas a modalidade presencial. Até então, os cursos mais maduros, com oferta mais consolidada nas plataformas on-line eram os voltados para as áreas de Negócios e Pedagogia.

O estudo foi realizado em um período de 30 semanas, entre setembro de 2021 e abril de 2022 e reuniu 22 pequenas e médias instituições de ensino superior que não são geridas por grandes grupos econômicos.

A metodologia selecionou apenas cursos com ofertas em diferentes formatos. Para o EAD, só foram levadas em conta as instituições com base de captação superior a 1.000 alunos.

Em fevereiro deste ano, a Abmes já tinha divulgado, com base no Censo da Educação Superior de 2020, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), autarquia vinculada ao Ministério da Educação, que as matrículas para o EAD superior foram, pela primeira vez, maiores que as do presencial (53,4% a 46,6%) naquele ano. A publicação, neste caso, levou em conta todas as instituições de ensino do país.

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