Brasil tem uma morte para cada três casos de tentativas de feminicídio

Em 2025, 4.189 mulheres sobreviveram a ataques; dados do Anuário mostram que, para cada feminicídio consumado registrado no país, houve, em média, 2,7 tentativas de assassinato

Adriana De Luca, da CNN Brasil, São Paulo
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Enquanto o Brasil bate recorde de feminicídios, outro indicador revela a dimensão da violência contra as mulheres. Em 2025, 4.189 mulheres sobreviveram a tentativas de feminicídio, um aumento de 5,9% em relação ao ano anterior, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quarta-feira (23).

Os dados mostram que, para cada feminicídio consumado registrado no país, houve, em média, 2,7 tentativas de assassinato.

Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, esse indicador revela que milhares de mulheres escaparam da morte, mas permanecem expostas ao risco de novos ataques.

A coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Juliana Brandão, afirma que os números precisam ser interpretados à luz da definição jurídica da tentativa de homicídio.

Na definição do Código Penal, a tentativa ocorre porque circunstâncias alheias à vontade do autor impediram a consumação do crime. Ou seja, ele não desistiu de matar; ele não conseguiu.
Juliana Brandão, coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Segundo a pesquisadora, isso significa que essas mulheres continuam em situação de alto risco e precisam ser tratadas como prioridade pelas políticas públicas de proteção. “É uma população que demanda atenção imediata, porque a violência já chegou ao seu nível mais extremo e só não terminou em morte por fatores que escaparam ao controle do agressor”, afirma.

Na avaliação dos pesquisadores, as mulheres que hoje aparecem nas estatísticas de tentativa de feminicídio podem representar parte das vítimas de feminicídio consumado nos próximos anos caso não recebam proteção efetiva. Por isso, o estudo defende que essas sobreviventes sejam tratadas como grupo prioritário pelas políticas públicas de prevenção, com monitoramento contínuo e fortalecimento da rede de proteção.

Tentativas fazem parte de um ciclo de violência

O levantamento mostra que o feminicídio costuma ser o desfecho de uma sequência de agressões. Para cada feminicídio registrado no Brasil, foram contabilizados, em média, 501,9 registros de ameaça, 182,2 casos de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica, 84 registros de descumprimento de medida protetiva de urgência, 78,8 casos de perseguição (stalking), 38,7 episódios de violência psicológica e 2,7 tentativas de feminicídio.

Segundo Brandão, esses indicadores demonstram que a violência contra a mulher raramente começa com a tentativa de assassinato. “O feminicídio é o desfecho de um ciclo de violências que, muitas vezes, já era conhecido pelas instituições. O desafio é conseguir interromper essa escalada antes que ela termine em morte”, afirma.

Para os pesquisadores, esses indicadores mostram que a morte raramente ocorre de forma repentina.

Na maioria dos casos, ela é precedida por sucessivos episódios de violência que poderiam permitir uma intervenção do Estado antes do desfecho fatal.

Norte e Centro-Oeste lideram

As maiores taxas de tentativas de feminicídio foram registradas nas regiões Norte e Centro-Oeste, onde todos os estados apresentaram indicadores acima da média nacional.

O Amapá liderou o ranking, com 14,9 tentativas por 100 mil mulheres, quase quatro vezes a média brasileira. Em seguida aparecem Mato Grosso, com taxa de 12,5, e Acre, com 12,3.

Quando são analisados em conjunto os feminicídios consumados e tentados, o padrão regional permanece. O Centro-Oeste apresentou a maior taxa de violência letal de gênero do país, com 9,8 vítimas por 100 mil mulheres, seguido pela Região Norte, com 8,0. Já o Sudeste (4,2), o Nordeste (4,8) e o Sul (5,2) registraram os menores índices, evidenciando profundas desigualdades na distribuição da violência letal contra mulheres.

Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os dados reforçam que o enfrentamento ao feminicídio depende menos da resposta ao crime consumado e mais da capacidade do Estado de identificar mulheres em situação de risco, fortalecer a rede de proteção e interromper o ciclo da violência antes que ele termine em morte.

O que diz o Ministério da Justiça e Segurança Pública

"Os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública são importantes para acompanhar a evolução da violência contra a mulher. Ao mesmo tempo, os dados mais recentes do Monitoramento Nacional da Violência contra a Mulher, do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e do Ministério das Mulheres, apontam uma tendência de redução. No primeiro semestre de 2026, o Brasil registrou 741 feminicídios, contra 760 no mesmo período de 2025, uma queda de 2,5%.

Os dados estão disponíveis no seguinte release: https://www.gov.br/mj/pt-br/brasil-registra-reducao-de-2-5-nos-feminicidios-no-primeiro-semestre-de-2026

O enfrentamento da violência contra a mulher é uma prioridade do Governo Federal e do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). A redução observada no primeiro semestre ocorre em um contexto de ampliação das ações de prevenção, proteção às vítimas, integração entre as forças de segurança e responsabilização dos agressores.

O MJSP integra o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, principal política nacional articulada sobre o tema, que reúne os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e consolida o enfrentamento à violência contra a mulher como política de Estado.

Entre as principais ações está a Operação Integrada Mulher Segura, coordenada pelo MJSP e realizada em todo o país até o fim de 2026. A operação articula as forças de segurança dos estados e do Distrito Federal e envolve o cumprimento de mandados de prisão, o acompanhamento de medidas protetivas, o atendimento às vítimas e ações preventivas. Somente nas duas fases realizadas neste ano, mais de 20 mil pessoas foram presas, mais de 92 mil vítimas receberam atendimento e quase 99 mil policiais participaram das ações.

O Ministério também implantou o Centro Integrado Mulher Segura (CIMS), voltado à integração de dados e ao apoio à coordenação das ações relacionadas à violência contra a mulher.

Além disso, o MJSP coordena as Salas Lilás, destinadas ao acolhimento de mulheres em situação de violência, e promove capacitações permanentes para os profissionais do Sistema Único de Segurança Pública (Susp).

O Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio também prevê a atualização da Norma Técnica das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deams), do Protocolo Nacional de Investigação e Perícia nos Crimes de Feminicídio e das Diretrizes das Patrulhas Maria da Penha.

O Decreto nº 12.976/2026, editado pelo Governo Federal para estabelecer diretrizes de enfrentamento à violência contra as mulheres no ambiente digital, também integra esse conjunto de ações. A norma fortalece a responsabilização de agressores e reconhece que a violência de gênero também se manifesta nos ambientes digitais, contribuindo para o aperfeiçoamento das políticas de prevenção e proteção às mulheres.

Em relação às medidas protetivas de urgência, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), parceiro do MJSP no âmbito do Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, 85% dessas medidas são analisadas em até 24 horas, o menor prazo da série histórica. Para informações adicionais sobre os indicadores e a tramitação das medidas protetivas, recomendamos contato com o CNJ."

Sobre medidas protetivas

"O Ministério da Justiça e Segurança Pública reconhece a importância do monitoramento da vitimização de diferentes grupos populacionais e atua no aprimoramento da produção e da padronização das informações de segurança pública, com o objetivo de qualificar os dados que subsidiam a formulação de políticas públicas.

Como parte desse processo, a base nacional atualmente encaminhada pelas Secretarias de Segurança Pública das unidades da Federação está em processo de atualização para incorporar, de forma padronizada, o recorte por raça e cor das vítimas.

Paralelamente, a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) desenvolve ações voltadas à prevenção da violência, à qualificação dos profissionais de segurança pública e ao enfrentamento das desigualdades raciais, entre elas:

elaboração do Protocolo Nacional de Investigação Criminal com Perspectiva Racial e de Gênero;

elaboração do Protocolo Nacional de Atendimento em Segurança Pública às Pessoas e aos Grupos Vulneráveis;

formação continuada em Polícia Comunitária, com a capacitação de 222 multiplicadores e 1.112 operadores;

implantação dos Centros Comunitários pela Vida, com previsão de investimento de R$ 360 milhões;

execução do Pronasci e dos projetos Pronasci Juventude e Pronasci Juventude — Tô de Boa.

Em relação às mortes decorrentes de intervenção policial, o Ministério da Justiça e Segurança Pública acompanha permanentemente esse indicador e desenvolve políticas nacionais voltadas à sua redução, com foco na qualificação da atuação das forças de segurança, na proteção da vida e no respeito aos direitos humanos.

A execução direta da atividade policial é de competência dos estados e do Distrito Federal. À União cabe exercer funções de coordenação, apoio técnico, padronização e financiamento de políticas públicas nacionais.

Entre as principais iniciativas está o Projeto Nacional de Câmeras Corporais, regulamentado pela Portaria MJSP nº 648/2024. Por meio do Edital nº 30/2024, foram destinados mais de R$ 154 milhões a 11 estados para implantação e ampliação da tecnologia.

O Projeto Nacional de Qualificação do Uso da Força também integra esse conjunto de ações, com investimento superior a R$ 95 milhões em instrumentos de menor potencial ofensivo. No âmbito dessa iniciativa, foram capacitados 2.276 multiplicadores das Polícias Militares, Polícias Civis e Guardas Municipais em Uso Diferenciado da Força.

Complementarmente, a Portaria MJSP nº 855/2025 estabelece parâmetros nacionais para a atuação policial, veda condutas discriminatórias em buscas pessoais e domiciliares e determina o registro do uso da força e das mortes decorrentes de intervenção estatal, reforçando a atuação policial baseada em protocolos técnicos, a transparência e a qualificação das informações produzidas pelos órgãos de segurança pública."