Dentista é denunciada após pacientes ficarem com rostos deformados
Vítimas alegam que Priscilla Janaína Bovo mentiu sobre especialidade em cirurgias faciais; profissional afirma que está sendo alvo de "ataques sem fundamento"

A cirurgiã-dentista Priscilla Janaína Bovo está sendo alvo de denuncias feitas por pacientes que alegam falhas em procedimentos estéticos feitos por ela em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. O caso veio à tona nesta terça-feira (14) após a profissional rebater as acusações em suas redes sociais.
As vítimas afirmam que Priscila teria mentido sobre suposto diploma médico e especialidade em cirurgias faciais. Os casos envolvendo a dentista ocorreram entre julho e novembro de 2025, quando pacientes responderam às complicações dos procedimentos.
A CNN Brasil conversou com duas pessoas que procuraram Priscilla em razão da insatisfações com procedimentos anteriores. Segundo elas, a dentista demonstrava ter larga carreira na área de cirurgia estética da face.
Além disso, de acordo com os pacientes, ela fazia propaganda sobre um protocolo no qual a equipe dela seria a única especializada em remoção de biopolímeros, como PMMA - um produto utilizado em procedimentos médicos para tratamento reparador, mas não indicado pela Anvisa (Anvisa Nacional de Vigilância Sanitária) para fins estéticos.
A advogada, de 50 anos, que preferiu não se identificar, procurou Priscilla para retirar produtos utilizados durante um procedimento realizado em 2012 com outro profissional. Ela explica que anos depois, sentia que algumas partes do seu rosto estavam com aspecto duro, como se aquela substância aplicada em determinadas regiões estivesse acumulada e endurecida na pele.
Ela então encontrou o nome da dentista em diferentes sites de busca e procurou Priscilla justamente pela propaganda de um protocolo especializado no que ela queria. A mulher acreditava que a dentista fosse médica, por um mestrado em medicina que constava no seu site.

Por isso, realizou uma consulta e diz ter confiado nas palavras ditas por Priscilla durante a explicação do que seria "necessário" para o seu caso.
Em julho de 2025, no dia da cirurgia, a paciente e Priscilla havia concordado que haveria um médico no centro cirúrgico durante o procedimento, para garantir que a paciente estivesse fora dos riscos de lesão dos nervos faciais.
Quando acordou, a mulher disse que não sentia o rosto, mas a cirurgiã explicou que era um procedimento normal e que deveria aguardar seis meses para os movimentos faciais retornarem.
A paciente relatou que, durante os dias, sentiu algumas dificuldades para respirar e mastigar, mas a médica reforçou que era uma reação normal. Parte do lado esquerdo do rosto ficou paralisado e deformado em comparação com o outro lado.
A mulher precisou realizar duas cirurgias reparadoras entre outubro daquele ano e março de 2026. Atualmente, ela segue fazendo outros procedimentos para reconstruir as áreas sequeladas.
Já Evandro, de 43 anos, é projetista e também procurou Priscilla para retirar um produto aplicado em um procedimento anterior.
Ele também conheceu a dentista através das redes sociais. Evandro diz ter sido convencido de retirar PMMA do rosto e colocar uma prótese. Quatro dias após a cirurgia, ele precisou ser internado com urgência em um hospital de São Paulo e foi constatado que seu rosto estava inflamado.

Há um mês, Evandro precisou realizar um procedimento para reconstruir o rosto. O projetista, que mora na Áustria, diz que não conseguiu retornar ao país até agora, pois, assim como a primeira vítima, está realizando algumas cirurgias faciais.
Em seu perfil nas redes -- em que a dentista já acumula mais de 30 mil seguidores -- Priscilla se pronunciou sobre as acusações e disse ter sido 'atacada' sem ser ouvida. Ela afirma também que todos os procedimentos realizados por ela são comunicados aos pacientes. "As pessoas chegam insatisfeitas para mim. As cirurgias realizadas nesses pacientes não são estéticas, mas sim funcionais e reparadoras". Veja abaixo:
Em nota, o Hospital São Lucas - rede médica onde a dentista teria realizado os procedimentos - afirmou que ela nunca se passou por médica, sendo apenas referida como cirurgiã-dentista. Eles também denominam como "mentiras fantasiosas" as denúncias feitas pelos pacientes.
"Tais registros provam que a identificação da profissional perante o hospital, o paciente e os órgãos de controle sempre foram de cirurgiã-dentista", diz o comunicado.
Procurada, a Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) afirmou que está investigando o caso e que as investigações tramitam em sigilo.
Para a CNN Brasil, a SSP (Secretaria de Segurança Pública) informou que há três registros de boletim de ocorrência relacionados ao hospital. Um deles cita Priscilla e é investigado pelo 1º DP (Ribeirão Preto) como lesão corporal. Os outros dois foram registrados pela Delegacia Eletrônica.
A defesa de cirurgiã-dentista também divulgou outro posicionamento a respeito do caso e afirmou que todas as condutas de Priscilla são "pautadas em critérios técnicos".
Veja na íntegra:
"Na qualidade de representantes jurídicos da Dra. Priscilla, esclarecemos que a Dra. Priscila Bovo é cirurgiã-dentista com mais de 25 anos de experiência, especialista em cirurgia e traumatologia bucomaxilofacial, formação pela Universidade de São Paulo (USP) e atuação voltada exclusivamente a casos reconstrutivos de alta complexidade. Sua prática é direcionada ao tratamento de pacientes que apresentam complicações graves decorrentes de procedimentos realizados por terceiros, especialmente com uso de PMMA e material permanentes em geral, e não à realização de procedimentos puramente estéticos.
Os casos atendidos envolvem risco elevado, amplamente esclarecido e formalmente aceito pelos pacientes por meio de termos de consentimento, em conformidade com protocolos médicos rigorosos.
As recentes denúncias divulgadas na mídia apresentam versão unilateral, desconsideram o histórico clínico dos pacientes e ignoram a complexidade inerente a esse tipo de tratamento.
A Dra. Priscila reitera que todas as suas condutas são pautadas em critérios técnicos, evidências científicas e protocolos de segurança, inexistindo qualquer prática de negligência, imprudência ou imperícia.
A divulgação de informações descontextualizadas, parciais e até mentirosas compromete a correta compreensão dos fatos e não reflete a condução técnica adequada dos casos".
*Sob supervisão de AR.


