Etanol recua até 15% em quatro semanas no Centro-Sul
Preços do hidratado e anidro caíram com avanço da moagem de cana e maior oferta nas usinas

O mercado de etanol no Brasil entra na nova safra sob pressão de curto prazo, mas ainda sustentado por preços firmes no acumulado do ciclo. Levantamento do Cepea, da Esalq, mostra que, nas últimas semanas, os preços recuaram com o avanço da oferta no Centro-Sul.
O etanol hidratado acumulou queda de cerca de 15% em quatro semanas, enquanto o anidro recuou aproximadamente 14%. O movimento reflete o aumento da moagem de cana, maior disponibilidade nas usinas, demanda retraída — com compradores aguardando novas quedas — e a pressão sazonal típica do início de safra.
Em março, último mês da entressafra no Centro-Sul, o hidratado foi negociado, em média, a R$ 2,9288 por litro, recuo de 1,49% frente a fevereiro. Já o anidro fechou a R$ 3,2834 por litro, queda de 3,66%. A desvalorização já vinha sendo observada, em meio à menor procura pelo biocombustível e à desaceleração industrial em parte das unidades produtoras.
Apesar da queda recente, o balanço da safra 2025/26 ainda é positivo. O hidratado acumulou média de R$ 2,7805 por litro entre abril de 2025 e março de 2026, com alta real de 6,52% sobre o ciclo anterior. O anidro também avançou 6,21%, para R$ 3,1291 por litro.
O desempenho, no entanto, não se refletiu em volume. As vendas de etanol hidratado pelas usinas paulistas recuaram 28% no período, indicando que preços mais elevados não foram suficientes para sustentar o consumo.
No mercado de combustíveis, a gasolina ganhou espaço. Dados da ANP apontam que as vendas de gasolina C cresceram 5,64% no ciclo, somando 43,38 bilhões de litros. Já o consumo de etanol hidratado caiu 4,24%, para 19,04 bilhões de litros. Mesmo com a relação de preços favorável ao etanol em São Paulo, fatores como renda, logística e preferência do consumidor continuam influenciando a escolha nas bombas.
Para a safra 2026/27, iniciada em abril, o cenário é de cautela. A expectativa de maior oferta — inclusive com avanço do etanol de milho — e a volatilidade do petróleo devem influenciar as estratégias das usinas. As projeções indicam moagem entre 625 milhões e 630 milhões de toneladas de cana no Centro-Sul, crescimento de até 4%.
Se o petróleo seguir valorizado, o etanol pode recuperar competitividade frente à gasolina. Por outro lado, uma maior destinação da cana para biocombustível pode reduzir a oferta de açúcar e dar suporte aos preços internacionais.
No Norte e Nordeste, o cenário é distinto. Com a safra na reta final, usinas priorizaram a produção de etanol para reforçar o caixa. Segundo o Ministério da Agricultura, a produção na região alcançou 2,79 bilhões de litros até fevereiro, acima do ciclo anterior. A menor oferta local sustentou os preços do hidratado em estados como Pernambuco, Paraíba e Alagoas, enquanto o anidro recuou com a entrada de produto de outras regiões.
Diante desse quadro, o setor sucroenergético inicia a nova temporada dividido entre dois vetores: a possível recuperação do etanol, condicionada ao cenário energético global, e a sustentação dos preços do açúcar, apoiada por restrições de oferta no mercado internacional.


