MP quer acesso a dados de Facebook e Google na investigação da morte de Marielle

Assassinato ocorreu há dois anos, em 14 de março de 2018, mas, até agora, não se chegou aos mandantes do crime nem aos motivos

Roberta Jansen, Estadão Conteúdo
14 de março de 2020 às 20:41

A ex-vereadora carioca Marielle Franco

Foto: Divulgação
O maior entrave atualmente às investigações sobre o assassinato da vereadora do Rio Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes é a recusa de Google e Facebook em compartilharem informações sobre a movimentação online dos acusados do crime, informou o Ministério Público do Rio.

De acordo com a coordenadora do Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MPRJ), Simone Sibilo, os dados sobre o PM reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Queiroz são cruciais para a continuidade das apurações e a descoberta dos mandantes do crime. Ambos estão presos desde março do ano passado.

"Nesse aspecto, de identificação dos possíveis autores, o maior empecilho é o acesso a informações do Google e do Facebook. Elas são vitais. Nós já a solicitamos e, hoje, nossos pedidos são alvos de mandados de segurança em análise no Superior Tribunal de Justiça", disse a promotora que, na última sexta-feira (13) se encontrou com familiares de Marielle e Anderson.

O assassinato ocorreu há dois anos, em 14 de março de 2018. Lessa e Queiroz estão presos desde 12 de março do ano passado, mas, até agora, não se chegou aos mandantes do crime nem aos motivos. A Promotoria informou que já ouviu mais de 200 pessoas na investigação. Os dois suspeitos serão levados a júri popular por decisão da Justiça, mas a data ainda não foi marcada.

Na manhã deste sábado (14), em entrevista à imprensa, parentes e amigos da vereadora assassinada também falaram sobre a importância desses dados para o prosseguimento das investigações.

"Um dos entraves às investigações apontados pelo Ministério Público são o acesso às informações telemáticas dos acusados requeridas", afirmou a diretora da Anistia Internacional no Brasil, Jurema Werneck, que apoia a família das vítimas e também esteve nas reuniões de sexta com o MP-RJ e o governador Wilson Witzel (PSC).

"O acesso às informações já tinha sido autorizado pelo Tribunal de Justiça do Rio, mas as empresas responsáveis recorreram e se recusam a dar essa informação. Um aspecto importante da fala da promotora é que essas informações são fundamentais para chegarmos a uma resposta sobre quem mandou matar Marielle e por quê."

A quebra de sigilo dos dados de navegação de Lessa e Élcio foi autorizada pelo juiz Gustavo Kalil, do 4º Tribunal do Júri, mas as duas empresas impetraram um mandado de segurança para impedir a divulgação das informações. O caso agora está sendo analisado pelo STJ.

As empresas dizem que estão apoiando as investigações e já ajudaram no acesso a muitos dados. Mas alegam que esses pedidos em especial são muito amplos, pouco específicos, e que para atendê-los seria necessário quebrar o sigilo de milhares de pessoas.

Em nota oficial, o Google informou: "não comentamos casos específicos. Gostaríamos de dizer que protegemos vigorosamente a privacidade dos nossos usuários ao mesmo tempo em que buscamos apoiar o importante trabalho das autoridades investigativas, desde que os pedidos sejam feitos respeitando preceitos constitucionais e legais".

A reportagem solicitou também posicionamento ao Facebook, que ainda não respondeu. O espaço está aberto para manifestação da empresa.

Segundo a família de Marielle e os representantes da Anistia Internacional, tanto os celulares encontrados com Lessa e Queiroz, quanto os celulares apreendidos com o ex-PM Adriano da Nóbrega, apontado como o chefe do braço armado da milícia e morto pela polícia baiana no último dia 9 de fevereiro, estão sendo periciados em busca de provas sobre eventuais mandantes do crime e os motivos.

'Lobo solitário'

Reportagem publicada neste sábado pelo jornal "O Globo" diz que a linha mais forte da investigação atualmente apontaria para um crime sem mandantes. Segundo o jornal, o PM reformado e miliciano Ronnie Lessa seria um "lobo solitário", movido pelo ódio político.

O deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ), que era amigo de Marielle e trabalhou durante anos com ela se mostrou, indignado com essa possibilidade. "Mandei uma cópia dessa reportagem para o chefe da Polícia Civil e outra para o MP com o recado: Não aceitamos essa tese, se entrarmos por ai vamos ter problemas", contou Freixo na manhã deste sábado ao jornal "O Estado de S.Paulo". "Lessa é um matador de aluguel que ficou rico trabalhando para políticos e depois de velho resolveu matar por ódio uma pessoa que ele nem conhecia? Essa é a coisa mais esdrúxula que já ouvi", disse.

A maior parte das manifestações públicas que marcariam neste sábado os dois anos do assassinato foram suspensas por conta da epidemia de coronavírus - que não recomenda grandes aglomerações de pessoas. Os organizadores pediram que a população preste homenagem aos mortos pendurando laços e flores amarelas em suas janelas. Também foram feitas homenagens nas redes sociais com a hashtag #JustiçaPorMarielleEAnderson.