Bolsonaro, construtor de nuvens carregadas 

Ao minimizar o coronavírus, presidente correu na direção do temporal, dos raios e das trovoadas

Fernando Molica
Por Fernando Molica, CNN  
20 de março de 2020 às 22:37 | Atualizado 20 de março de 2020 às 22:43
O presidente Jair Bolsonaro se atrapalha com a máscara de proteção durante entrevista coletiva sobre medidas para prevenir o contágio do coronavírus
Foto: Adriano Machado/Reuters

Ex-governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto costumava dizer que política era como nuvem: você olha e está de um jeito; olha de novo, e já mudou.

Nos últimos dias, as nuvens do céu de Jair Bolsonaro ficaram mais carregadas. Ao minimizar o coronavírus e ao desfiar orientações de seu próprio governo e participar de ato em Brasília, o presidente correu na direção do temporal, dos raios e das trovoadas.

Na ânsia de seguir os próprios instintos e certezas, ele cometeu o erro de chamar o vírus para a briga, de, como um colegial, desafiá-lo para um encontro nada amistoso na saída da escola. Saiu machucado da peleja, como revelaram várias pesquisas que medem a temperatura das redes sociais e atestam os panelaços que voltaram a fazer parte da trilha sonora das cidades.

Embriagado pelo sucesso da polarização que marca toda sua trajetória política, Bolsonaro não percebeu que, desta vez, estava arrumando problema com um inimigo poderoso, que já fez milhares de vítimas mundo afora. Esqueceu-se que seus eleitores também são contamináveis e que temem o novo coronavírus. Eleitores que queriam orientação.

O presidente tentou consertar o estrago. Mas as idas e vindas foram traduzidas visualmente na dificuldade que ele teve em colocar uma simples máscara no rosto. Bolsonaro pareceu assustado com a dimensão do problema que tentou negar e que, agora, desaba sobre sua cabeça.

Continua a passar a impressão de que não sabe bem o que fazer. Já deveria, por exemplo, ter convocado todos os governadores para uma conversa.

A tragédia abriu os céus para governadores, até mesmo os eleitos na onda bolsonarista e que passaram a ser vistos como inimigos pelo presidente assim que deixaram claros seus projetos presidenciais.

João Doria, de São Paulo, e Wilson Witzel, do Rio, não vacilaram em tomar medidas duras. O governador fluminense deixou de lado performances como a de dar socos no ar para comemorar a morte de um bandido, economizou nas bravatas, não ameaçou dar tiro na cabeça do coronavírus.

Doria foi na mesma linha. Os dois engrossaram o coro contra o governo federal, não negaram os problemas e anunciaram medidas práticas e muito restritivas. Pode-se discutir se não há exagero em algumas decisões, mas não há como negar que os dois, como praticamente todos os outros governadores, tentam agir.

Um dos sábios da política mineira, Magalhaes Pinto se esqueceu, porém, de dizer que nuvens políticas não são movidas apenas pelas condições climáticas, sofrem interferência direta das ações de seus protagonistas.

Doria, Witzel e outros governadores trataram de afastar as nuvens; Bolsonaro insistiu em semear o vento e, agora, assusta-se com a colheita.