Doria sobre quarentena: 'O mundo inteiro está errado e só Bolsonaro está certo?'


Da CNN, em São Paulo
27 de março de 2020 às 16:19 | Atualizado 27 de março de 2020 às 17:39
O governador de São Paulo, João Doria (PSDB)

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), em entrevista coletiva sobre o novo coronavírus

Foto: Reprodução - 27.mar.2020/Governo SP

O governador paulista, João Doria (PSDB), fez um duro ataque nesta sexta-feira (27) às declarações do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) que incentivam a retomada das atividades em meio à pandemia do novo coronavírus (COVID-19). Doria disse que “a política que mata pessoas não salva a economia”, que o país precisa discutir “quem será o fiador das mortes no Brasil” e que a campanha do governo federal intitulada “O Brasil não pode parar” desinforma a população. 

“Hoje, mais de 50 países estão em quarentena, lutando contra uma pandemia, a pior crise de saúde do mundo”, disse. “Quase metade da população do planeta está recolhida, em casa. O mundo inteiro está errado e o único certo é o presidente Jair Bolsonaro? Será esta a racionalidade? O mundo errado e um dirigente certo? Reflitam sobre isso.” 

O governador disse que há documentos do próprio Ministério da Saúde que defendem o isolamento, e lembrou que o próprio presidente assinou um decreto de calamidade pública.  

“A campanha que o governo federal está lançando hoje nas emissoras de TV e nas redes sociais prega justamente o contrário. Afinal, temos um governo federal ou dois governos? Um que acerta na sua política pública, no seu Ministério da Saúde, com seus técnicos, especialistas e cientistas, e o outro que prega exatamente o contrário? Qual dos dois governa o Brasil?”, perguntou. 

Doria cita Milão

Doria reforçou os pedidos para que a população fique em casa e citou o caso do prefeito de Milão, Giuseppe Sala, que admitiu ter errado depois de ter endossado na cidade italiana uma campanha de tom semelhante à do governo federal.  

Hoje, o número de mortos pelo novo coronavírus na região do Lombardia, onde fica Milão, chegou a 5.402, noticiou a agência Reuters citando uma fonte local. 

"Antes que isso aconteça, você que é cidadão, você que é brasileiro, você que ama a vida, siga as orientações dos médicos, da medicina correta, da ciência e das autoridades que não têm medo de falar a verdade. Fique em casa”, disse Doria. 

Segundo a secretaria estadual de Saúde, 68 pessoas morreram em São Paulo até esta sexta-feira por causa do novo coronavírus. Há 1.223 casos confirmados no estado.

Apesar da relação turbulenta com Bolsonaro, Doria disse que o governo estadual tem mantido diálogo com o Ministério da Saúde e com o ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM).

Segundo o governador, o estado vai destinar R$ 50 milhões para que a Prefeitura de São Paulo amplie as instalações de hospitais de campanha e aumente os leitos de UTI. O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), disse que o dinheiro destinado à cidade vai ser usado para a criação de mais 725 leitos de UTI na cidade.

Doria também anunciou que o infectologista Júlio Croda passará a integrar o governo de São Paulo. Ele deixou a direção de imunização e doenças transmissíveis do Ministério da Saúde.

Outro lado

Em entrevista à TV Bandeirantes, o presidente criticou o governador. Segundo ele, o estado de São Paulo agora trata qualquer morte com síndrome respiratória aguda grave como vinculada ao coronavírus. "Está fraudando ali a morte daquela pessoa. Está fazendo uso político de números.", afirmou.

Bolsonaro disse ainda que pode recorrer à Justiça se entender que algum governador tomar decisões que fujam da alçada estadual durante a pandemia, ou até mesmo emitir um concreto para modificar a situação, dando o exemplo do que ocorreu com as casas lotéricas. 

"Se eu achar que entrou na esfera federal, eu chamo um governador e falo que isso não está certo, emito um decreto, como foi com as casas lotéricas", disse. " Ou entro com ação na Justiça. Aí,e posso ganhar ou perder."

Com Estadão Conteúdo