Após anúncio de Moro, políticos reagem nas redes sociais e criticam Bolsonaro

Ex-juiz da Lava Jato pediu demissão do cargo de ministro da Justiça e Segurança Pública e acusou presidente de querer interferir na Polícia Federal

Jéssica Otoboni e Murillo Ferrari, da CNN, em São Paulo
24 de abril de 2020 às 12:31 | Atualizado 27 de abril de 2020 às 13:48
Sergio Moro pediu demissão após Bolsonaro publicar no Diário Oficial da União a exoneração do diretor-geral da Polícia Federal, Mauricio Valeixo
Foto: 12.abr.2020/Reuters

Após o anúncio do pedido de demissão do então ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro , no final da manhã desta sexta-feira (24), durante uma entrevista coletiva, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) foi alvo de críticas nas redes sociais. 

Por volta do meio-dia, a hashtag Moro tinha mais de 1 milhão de menções no Twitter, seguida por #bolsonarotraidor e #ForaBolsonaro, com cerca de 20 mil citações cada uma. Moro anunciou a demissão horas após a publicação da exoneração do diretor-geral da Polícia Federal (PF), Mauricio Valeixo, por Bolsonaro, ser publicada no Diário Oficial da União (DOU).

Algumas cidades, como São Paulo e Fortaleza, chegaram a registrar panelaços contra o presidente durante o anúncio de Moro. 

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Políticos reagem

Diversas autoridades e políticos reagiram ao anúncio em suas redes sociais. O governador de São Paulo, João Doria (PSDB-SP), disse no Twitter que “o Brasil perde muito com a saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça” e que ele “mudou a história do país ao comandar a Lava Jato e colocar dezenas de corruptos na cadeia”.

Para o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ), “Moro implodiu o governo Bolsonaro. Afirmou que o presidente quer controlar a PF para deixar impunes os crimes da família e para atacar a democracia e o estado de direito”, escreveu ele no Twitter.

O deputado federal André Figueiredo (PDT-CE) afirmou que o ex-ministro “entregou todos os absurdos” do governo Bolsonaro e destacou uma frase em que Moro chama atenção para quem será o sucessor de Valeixo no comando da PF. “O grande problema não é quem entra, mas por que entra.”

Já o deputado Baleia Rossi (MDB-SP) apontou que a demissão de Moro é ruim por tratar-se de uma pasta bem avaliada e porque o país está no meio da pandemia do novo coronavírus – momento em que o foco deveria ser “salvar vidas”. “O momento é difícil. Precisamos de serenidade (...) Mais turbulência só prejudica o País. Repito: equilíbrio e serenidade.”

Para o deputado paraibano Efraim Filho, líder do Democratas, Moro deu exemplo de “coragem, equilíbrio e caráter”. “[Moro] renunciou ao cargo de juiz federal para servir ao país e sua saída significa decepção no sonho de milhões de brasileiros. Notícia ruim para o governo e pior para o Brasil”, escreveu em sua conta no Twitter.

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC-RJ), lamentou o pedido de demissão de Moro e disse ainda que "ficaria honrado com sua presença em meu governo porque aqui, vossa excelência, tem carta branca sempre".

“Moro deixa o Ministério da Justiça apontando uma gravíssima denúncia: Bolsonaro tentou acessar e interferir, explicitamente, em investigações da Polícia Federal. O presidente precisa renunciar já”, afirmou na mesma rede social o senador Fabiano Contarato (Rede Sustentabilidade-ES).

O senador Humberto Costa (PT-PE) disse que Bolsonaro “está sendo desmascarado de dentro do próprio governo e, justamente, por seu ministro mais popular.

O senador Antonio Anastasia (PSDB-MG) afirmou que Moro merece reconhecimento dos brasileiros e disse torcer para que sua saída “não represente a descontinuidade do planejamento e das ações do MJSP [Ministério da Justiça e Segurança Pública]. “O Brasil ainda precisa avançar muito no combate à corrupção e na melhoria da segurança pública e não aceitará retrocessos.”

PSL fala em espanto

O Partido Social Liberal (PSL), pelo qual Bolsonaro foi eleito presidente, afirmou ter ficado espantado com “processo que culminou na saída do ministro da justiça Sérgio Moro” e disse que a demissão de Valeixo foi injustificada e “uma clara interferência política do presidente no combate ao crime organizado, contrariando suas promessas de campanha”.

“Depois de participar ativamente das manifestações que instigavam um golpe contra o congresso e o STF [Supremo Tribunal Federal] e isolar o ministro [da Economia] Paulo Guedes, Bolsonaro encerra a semana com a saída do ex-juiz símbolo da Lava-Jato”, afirmou o PSL, em nota. “Desta forma, afasta-se completamente dos princípios da defesa das instituições democráticas, da promoção da economia liberal e do combate ao crime organizado.”

O partido disse ainda que estes são seus princípios históricos e que assumiu o compromisso formal com o partido de praticá-los caso fosse eleito. “Poucos meses depois, porém, o presidente já dava sinais inequívocos de abandonar acordos, e os atos desta semana são apenas o desfecho do processo de distanciamento do presidente dos nossos valores.”

A deputada Joice Hasselmann, líder do PSL na Câmara, também criticou Jair Bolsonaro, afirmando que, segundo Moro, ele “cometeu crimes de responsabilidade”, como falsidade ideológica, interferência na Polícia Federal, além de tentativas de barrar inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF).

Posição de associação

O presidente da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil], Felipe Santa Cruz, considerou muito graves as declarações de Moro em seu discurso de demissão, “indicando possíveis crimes por parte do presidente da República”.

“Solicitei à Comissão de Estudos Constitucionais da OAB um estudo detalhado do pronunciamento e suas implicações jurídicas. É lamentável que, no dia seguinte ao país registrar mais de 400 mortos pela pandemia, estejamos todos em meio a nova crise patrocinada pelo governo”, opinou Santa Cruz.

A Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) se manifestou em tom similar.“[As acusações de Moro] sinalizam a ocorrência de crime de falsidade ideológica de responsabilidade do presidente da República, na assinatura de ato inexistente de exoneração a pedido do diretor-geral da PF, bem como de crime de responsabilidade, na tentativa de interferência na regularidade de investigações. Ambas as ocorrências precisam ser devidamente apuradas", disse Fábio George Cruz da Nobrega, presidente da ANPR.

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O presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe), Fernando Mendes, também se manifestou sobre a saída de Moro do governo.

"Causou-me surpresa a saída do Ministro Sérgio Moro do Ministério da Justiça e da Segurança Pública neste momento de crise. Apesar de o Ministério não ter relação direta com o trabalho do Poder Judiciário Federal, que é independente, esperamos que o próximo chefe da pasta mantenha uma política de Estado, focando nos grandes temas nacionais, como o combate à criminalidade organizada, à corrupção, ao enfrentamento do tráfico de drogas e armas, além de respeitar autonomia da Polícia Federal,” disse Mendes.

“Preocupa, principalmente, que o ministro tenha saído alegando a tentativa de pressões políticas na autonomia da PF, o que é extremamente ruim para o Brasil."

Já o Sindicato dos Delegados De Polícia Federal no Paraná (SinDPF/PR) externou insatisfação com a exoneração de Valeixo e a “demissão espontânea do ministro da Justiça”.

“Além do excelente trabalho desenvolvido por ambos, esta entidade teme pela continuidade do trabalho da Polícia Federal, bem como repudia qualquer interferência externa nas investigações”, disse o Delegado Federal Mikalovski, presidente do SINDPF/PR.

“Nesse contexto, seguiremos vigilantes na observação das futuras decisões dos poderes constituídos, sobretudo com a finalidade de impedir qualquer ingerência na nossa Polícia Federal.”

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De juiz da Lava Jato a ministro

Principal juiz da Operação Lava Jato, Moro aceitou deixar uma carreira de 22 anos como magistrado federal, para comandar o Ministério da Justiça logo após as eleições de 2018, quando Bolsonaro foi eleito em segundo turno.

Tido como um dos principais ministros do governo, Moro teve total autonomia para montar sua equipe e recebeu a promessa, na época, que teria "carta branca" para conduzir a pasta.

Ao longo do tempo em que ficou no cargo, no entanto, o ex-juiz precisou sair de diversas saias-justas com o presidente, incluindo a transferência do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) para o Ministério da Economia e a desidratação do Pacote Anticrime, seu principal projeto, aprovado em janeiro depois de sofrer mudanças profundas.

Enquanto era juiz federal no Paraná, Moro foi responsável pela primeira condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por corrupção no caso do triplex do Guarujá, em 2017. A manutenção da sentença, em 2018, impediu o petista de disputar a eleição daquele ano, vencida por Bolsonaro.