Moro diz para revista que apresentará provas de acusações contra Bolsonaro

Ex-ministro afirma que combate à corrupção 'não é prioridade do governo' e avalia que hipótese de mandante de facada contra presidente não pode ser descartada

da CNN, em São Paulo
30 de abril de 2020 às 22:34 | Atualizado 30 de abril de 2020 às 23:42

O ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro afirmou em entrevista à revista Veja, publicada nesta quinta-feira (30), que possui provas das acusações que fez contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Na última sexta-feira (24), Moro anunciou a sua demissão do governo afirmando que o presidente demitiu o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, a fim de promover uma "interferência política" na corporação. O ex-ministro não detalhou as evidências que possui dessa afirmação que, diz, serão apresentadas ao Supremo Tribunal Federal (STF), que abriu um inquérito para investigar o assunto.

"Esclarecimentos adicionais farei apenas quando for instado pela Justiça. As provas serão apresentadas no momento oportuno, quando a Justiça solicitar", disse Sergio Moro. "Embora eu tenha um grande respeito pelo presidente, não posso admitir que ele me chame de mentiroso publicamente. Ele sabe quem está falando a verdade. Não só ele. Existem ministros dentro do governo que conhecem toda essa situação e sabem quem está falando a verdade", prosseguiu.

Sobre o inquérito aberto pelo STF, o ex-juiz federal afirmou que a possibilidade de que ele responda por calúnia pelas acusações, levantada pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, é "intimidatória". Em entrevista recente à CNN, Aras justificou que "a denunciação caluniosa é um tipo penal aplicável quando alguém dá causa à instauração de inquérito"

"Dito isso, quero afirmar que estou à disposição das autoridades. Os ataques mais virulentos vieram principalmente por redes virtuais", disse Moro, que afirmou temer um atentado à sua vida. "Certamente. Sigo tendo a proteção da Polícia Federal. Não gosto de falar muito nesse assunto. Isso é algo que assusta pessoas próximas a mim", afirmou.

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Combate à corrupção

Também na entrevista à publicação, o ex-ministro da Justiça disse "que o combate à corrupção não é prioridade do governo”. Moro embasou a afirmação em dois pontos: o fato de o governo ter aceitado que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) fosse retirado da sua pasta e a sanção da criação da função conhecida como "juiz de garantias".

O ex-juiz defendia que o Coaf deveria estar na pasta da Justiça para ser mais integrado às forças de investigação. Já o juiz de garantias é um segundo magistrado, que foi aprovado pela argumentação do Congresso de que é preciso que exista este profissional para evitar excessos. Moro é contra, enxergando possibilidade de aumentar a impunidade.

"Quem sabe a minha saída possa fomentar um compromisso maior do governo com o combate à corrupção", disse. "Fico até triste porque considero vários deles pessoas competentes e qualificadas, em especial o ministro da Economia".

Adélio

Um dos pontos de crítica por parte do presidente Jair Bolsonaro, a investigação da facada que este sofreu por Adélio Bispo em 2018 foi abordada na entrevista concedida por Moro. O ex-ministro da Justiça afirmou que concorda com o presidente de que "a suspeita de que pode existir um mandante intelectual do crime não pode ser descartada".

Bispo foi considerado deficiente intelectual pela Justiça, decisão da qual o presidente não recorreu. Segundo Moro, a dificuldade para o avanço das investigações é um impedimento judicial para uma perícia no celular do advogado de Adélio, suspenso pela Justiça. "Depois do exame desse celular, o inquérito poderá ser concluído", disse.